O Brasil do crédito infinito e da ansiedade permanente

O Brasil do crédito infinito e da ansiedade permanente
Pesquisa da CNC aponta que o nível de endividamento no Brasil atingiu o ápice histórico, afetando 80,9% dos lares/Magnific
Publicado em 12/05/2026 às 12:01

José Renato Ferraz da Silveira*

O Brasil atingiu mais um recorde econômico em 2026. Mas desta vez, não se trata de crescimento, emprego ou consumo. Trata-se do endividamento das famílias brasileiras.

Segundo os dados mais recentes da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da Confederação Nacional do Comércio, 80,9% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida. É o maior percentual da série histórica.

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O dado revela algo muito mais profundo do que um simples problema financeiro. Ele expõe uma transformação estrutural da própria sobrevivência econômica no Brasil contemporâneo. O crédito deixou de ser instrumento de expansão patrimonial. Tornou-se mecanismo cotidiano de sobrevivência social.

O cartão de crédito, responsável por 85% das dívidas registradas, já não funciona apenas como ferramenta de consumo. Em grande parte dos casos, ele passou a financiar alimentação, contas básicas, farmácia, transporte e despesas essenciais.

Isso possui enorme significado político e econômico. Porque uma sociedade que depende crescentemente de dívida para manter padrões mínimos de funcionamento é uma sociedade que começa lentamente a consumir o próprio futuro.

O mais inquietante talvez seja a coexistência de fenômenos aparentemente contraditórios. O Brasil registra melhora parcial do emprego, recuperação de renda média e expansão do consumo. Ainda assim, as famílias seguem mergulhadas em insegurança financeira crônica.

Isso acontece porque a renda cresce em velocidade menor do que o custo estrutural da vida urbana contemporânea. Moradia, alimentação, transporte, saúde privada, energia, internet, educação e crédito passaram a compor uma engrenagem de pressão permanente sobre o orçamento das famílias.

E há um elemento particularmente perverso nesse sistema: os juros.

A manutenção de taxas elevadas transforma dívida temporária em aprisionamento financeiro prolongado. O cidadão paga não apenas pelo produto consumido, mas pelo custo de permanecer economicamente funcional.

A dívida torna-se uma espécie de imposto informal sobre a vulnerabilidade social. E talvez seja exatamente aqui que emerge uma das características centrais do capitalismo periférico brasileiro contemporâneo. O país ampliou acesso ao consumo sem conseguir universalizar estabilidade econômica estrutural.

Milhões de brasileiros foram incorporados ao mercado consumidor nas últimas décadas. Mas essa inclusão ocorreu frequentemente através do crédito — e não necessariamente através da consolidação de renda sólida, produtividade elevada ou segurança patrimonial duradoura. Criou-se uma sociedade de consumo financeiramente tensionada.

O resultado é um Brasil paradoxal: shopping centers cheios convivendo com ansiedade financeira massiva; crescimento parcial do consumo coexistindo com inadimplência crescente; expansão econômica limitada convivendo com sensação coletiva de sufocamento.

E isso possui efeitos políticos relevantes. A percepção cotidiana da população raramente acompanha os indicadores macroeconômicos de forma linear. O cidadão não vive índices. Vive boletos, juros, supermercado e limite do cartão.

Por isso, o endividamento talvez seja hoje um dos indicadores mais sensíveis da realidade brasileira contemporânea. Ele mede não apenas dificuldades econômicas. Mede medo social. Mede insegurança estrutural. Mede a distância entre crescimento estatístico e estabilidade concreta.

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No fundo, o Brasil de 2026 parece cada vez mais operar sob uma lógica silenciosa e perigosa: a normalização do cansaço econômico permanente. E nenhuma sociedade permanece politicamente estável por muito tempo quando sobreviver financeiramente se transforma em esforço cotidiano exaustivo.

*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-3).

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