Quando o pragmatismo derrota a ideologia: o encontro entre Lula e Trump e a nova lógica da ordem internacional

Quando o pragmatismo derrota a ideologia: o encontro entre Lula e Trump e a nova lógica da ordem internacional
A imagem produzida pelo encontro revela muito sobre a transformação da ordem internacional contemporânea/Ricardo Stuckert/PR
Publicado em 08/05/2026 às 17:59

José Renato Ferraz da Silveira*

O encontro entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, realizado na Casa Branca em 07 de maio de 2026, produziu uma cena que poucos analistas considerariam provável alguns anos atrás. De um lado, um líder identificado historicamente com a esquerda latino-americana, defensor do multilateralismo e da integração Sul-Sul. Do outro, o principal símbolo contemporâneo do nacionalismo conservador norte-americano, marcado por discursos protecionistas, unilateralistas e profundamente hostis às estruturas tradicionais da globalização liberal.

Ainda assim, o encontro foi positivo. Em certa medida, ambos os líderes chegaram à reunião necessitando produzir uma vitória política externa capaz de compensar desgastes internos recentes.

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Lula enfrentava os efeitos da derrota histórica envolvendo a rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal — episódio interpretado por parte da classe política como demonstração de fragilidade momentânea do Palácio do Planalto no Congresso. Trump, por sua vez, convivia com sinais de desgaste em sua popularidade doméstica, pressionado por tensões econômicas e pelo ambiente político polarizado que continua marcando os Estados Unidos.

Nesse contexto, a diplomacia assumiu também uma dimensão simbólica de fortalecimento político interno. A fotografia cordial na Casa Branca interessava aos dois governos.

A imagem produzida pelo encontro revela muito sobre a transformação da ordem internacional contemporânea. Em um sistema global crescentemente fragmentado, ideologias importam menos do que cadeias produtivas, minerais estratégicos, segurança energética, tecnologia e competição geopolítica.
O pragmatismo voltou ao centro das Relações Internacionais.

A reunião não foi construída sobre afinidades pessoais ou convergência doutrinária. Foi estruturada sobre necessidades estratégicas mútuas. O Brasil necessita preservar mercados, ampliar investimentos e consolidar seu retorno ao jogo diplomático global. Os Estados Unidos, por sua vez, enfrentam o desafio estrutural de reduzir sua dependência da China em setores críticos da economia do século XXI. Nesse contexto, o Brasil emerge como peça importante.

A transição energética e a revolução tecnológica transformaram determinados recursos naturais em ativos geopolíticos centrais. Terras raras, nióbio, lítio, cobre e grafite deixaram de ser apenas commodities. Tornaram-se instrumentos de poder. Quem controla minerais críticos possui vantagem estratégica na corrida por semicondutores, baterias, inteligência artificial, indústria militar e infraestrutura digital.

Washington compreendeu isso. A aproximação com Brasília não decorre apenas de interesses comerciais imediatos, mas da tentativa americana de impedir que a América do Sul se transforme em uma área de influência econômica privilegiada da China. Pequim consolidou, ao longo das últimas duas décadas, uma presença econômica profunda no continente, financiando infraestrutura, ampliando investimentos e fortalecendo relações comerciais de longo prazo.

Os Estados Unidos tentam recuperar espaço

O encontro entre Trump e Lula deve ser interpretado dentro dessa lógica maior da competição sistêmica sino-americana. Não se trata apenas de uma agenda bilateral. Trata-se de uma disputa silenciosa pela arquitetura econômica do futuro.

Ao mesmo tempo, Lula buscou utilizar esse momento para reforçar uma tradição histórica da diplomacia brasileira: a autonomia pela diversificação.

Ao defender os minerais críticos brasileiros como ativos estratégicos nacionais, o governo brasileiro sinalizou que não pretende simplesmente substituir dependências. O objetivo parece ser ampliar margem de negociação entre diferentes polos de poder, explorando a multipolaridade como instrumento de fortalecimento nacional.

Essa postura revela um dado importante: o Brasil contemporâneo tenta evitar alinhamentos automáticos.
A criação de um grupo de trabalho para discutir tarifas e tensões comerciais reforça esse esforço de institucionalização do diálogo. Em vez de confrontação pública, ambos os governos preferiram abrir canais técnicos permanentes, reduzindo riscos de escalada política e econômica.

Há ainda outro elemento central

A pauta da segurança ganhou relevância crescente na relação bilateral. A preocupação norte-americana com facções criminosas brasileiras e o debate sobre sua possível classificação como organizações terroristas demonstram como segurança, crime transnacional e geopolítica passaram a se entrelaçar de maneira inédita.

O combate ao crime organizado deixa de ser apenas questão doméstica. Passa a integrar agendas internacionais de segurança hemisférica.

No fundo, o encontro entre Lula e Trump simboliza uma transformação mais profunda da política internacional contemporânea: o enfraquecimento das grandes narrativas ideológicas clássicas diante da centralidade crescente da competição estratégica.

A lógica da Guerra Fria retornou — mas sob novas formas

Hoje, cadeias de suprimentos importam mais do que discursos. Minerais críticos possuem mais peso do que retórica eleitoral. E países médios, como o Brasil, descobrem novamente que sua relevância internacional aumenta quando conseguem transformar recursos estratégicos em capacidade diplomática.

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A reunião na Casa Branca não eliminou divergências entre Brasília e Washington. Elas permanecem profundas em vários temas. Mas revelou algo essencial: em um mundo marcado pela fragmentação da ordem liberal internacional, interesses nacionais tendem a produzir aproximações improváveis. A geopolítica, mais uma vez, venceu a ideologia.

*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-3).

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