MPT alerta: grandes empresas falham no combate ao trabalho escravo

Da Redação de LexLegal
O Ministério Público do Trabalho (MPT) identificou falhas nos sistemas de controle e auditoria adotados por grandes empresas para evitar trabalho escravo em suas cadeias produtivas. Em dois anos, mais de 30 companhias líderes em seus setores foram notificadas por adquirir produtos ou serviços de fornecedores flagrados utilizando trabalhadores em condições degradantes.
As notificações fazem parte do projeto Reação em Cadeia, criado para rastrear vínculos entre grandes empresas e práticas ilegais de exploração do trabalho. Segundo o órgão, os casos apontam falhas estruturais nos mecanismos de fiscalização interna adotados pelas companhias.
Leia também: Tribunal condena Facebook e Instagram por perfis invadidos e golpe com Pix
De acordo com o procurador Ilan Fonseca de Souza, da Coordenadoria de Combate às Fraudes nas Relações de Trabalho (Conafret), há um descompasso entre o discurso institucional e a prática empresarial. “Está havendo uma discrepância muito grande entre o que é dito para os acionistas e para a sociedade em geral e o que está sendo feito, na prática, para prevenir o crime”, afirma o procurador Ilan Fonseca de Souza.
O levantamento aponta que muitas empresas divulgam políticas internas de compliance e responsabilidade social, mas que, na prática, esses documentos não apresentam mecanismos eficazes de controle. “Geralmente, isso é publicizado para atender a uma demanda dos acionistas, mas ao investigarmos o cumprimento e a efetividade dessas medidas, tivemos uma surpresa ruim. Boa parte desses documentos são meramente formais, lacônicos”, destaca Souza.
Setores estratégicos aparecem entre os mais sensíveis
O MPT identificou que as atividades com maior incidência de trabalho em condições degradantes incluem carvoarias, lavouras de soja, café e cana-de-açúcar, além da construção civil e da indústria têxtil. Esses setores concentram cadeias produtivas longas, com múltiplos fornecedores e subcontratações.
Segundo o órgão, além das empresas já notificadas, ao menos outras 20 companhias líderes e duas prefeituras são investigadas por manter relações comerciais com fornecedores ligados ao trabalho escravo. Parte desses fornecedores já havia sido incluída na chamada Lista Suja do Trabalho Escravo, mantida pelo Ministério do Trabalho e Emprego.
As empresas notificadas movimentam juntas mais de R$ 48 bilhões. Para o procurador responsável pelo projeto, o volume financeiro envolvido mostra que o problema não está restrito a pequenas operações informais. “As atividades econômicas em que o trabalho escravo acontece não são deficitárias. Pelo contrário, são rentáveis”, acrescenta Souza.
Outras notícias: IGP-M salta para 2,73% em abril com choque do petróleo e guerra no Irã
Romper contratos após fiscalização não elimina responsabilidade
Segundo o MPT, muitas empresas encerram contratos com fornecedores após a identificação de irregularidades, mas isso não resolve o problema estrutural. Em alguns casos, novas empresas contratadas repetem as mesmas práticas ou pertencem aos mesmos grupos econômicos.
Esse comportamento é descrito pelo procurador como uma estratégia conhecida no meio jurídico. “É o que chamamos de cegueira deliberada. É muito mais conveniente, mais fácil, escapar juridicamente de situações como essa quando você finge que não a está enxergando”, explica Souza.
Desde 1995, cerca de 65 mil trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão no Brasil. Para o Ministério Público do Trabalho, o número representa apenas parte do problema real, já que muitos casos ainda não chegam às autoridades.
Responsabilidade pode atingir toda a cadeia produtiva
Do ponto de vista jurídico, a atuação do MPT indica que empresas podem ser responsabilizadas mesmo quando a exploração ocorre em fornecedores indiretos. Esse entendimento se baseia no conceito de responsabilidade na cadeia produtiva, que exige fiscalização contínua e mecanismos efetivos de controle.
O procurador afirma que a ausência de fiscalização ativa pode caracterizar omissão deliberada por parte das empresas. “Se a mercadoria ou serviço continua sendo fornecida e o empresário não vai a campo para identificar as condições dos trabalhadores que as produzem, é porque ele, deliberadamente, escolheu não enxergar o problema”, avalia Souza.
A vice-procuradora-geral do Trabalho, Teresa Basteiro, destacou que o combate ao trabalho escravo depende de participação coletiva. “Esta questão não se limita à atuação do Poder Executivo, das forças policiais e do Ministério Público. É fundamental o envolvimento de toda a sociedade. A conscientização da sociedade sobre as práticas produtivas é que podem reduzir a trabalhadora e o trabalhador à condições muito sofridas. Quando trazemos isso a lume, a tendência é que possamos concretizar o princípio do valor social do trabalho e da dignidade da pessoa humana”, defende a vice-procuradora-geral.
Veja também: TST condena Eletrobras por chamar gerentes de “vagabundos”
O avanço das investigações e notificações reforça a tendência de maior cobrança por transparência nas cadeias produtivas. Para empresas que atuam com múltiplos fornecedores, o cenário aponta para a necessidade de revisar políticas internas e ampliar auditorias independentes, sob risco de sanções administrativas e ações judiciais por violação de direitos trabalhistas.