O Cubo descobriu as legaltechs. O mercado precisa entender o que vem a seguir

O Cubo descobriu as legaltechs. O mercado precisa entender o que vem a seguir
Globalmente, o mercado de legaltechs deve alcançar US$ 68 bilhões até 2034, com crescimento médio anual de 8,7%, de acordo com a consultoria Future Market Insights/Freepik
Publicado em 16/04/2026 às 17:04

Priscila Spadinger*

Em 31 de março de 2026, o Cubo Itaú, o maior Hub de inovação da América Latina, com 550 startups e R$ 7,5 bilhões em faturamento reportado em 2025, lançou o Cubo Legal, sua 14ª vertical setorial. Trinta e duas legaltechs no primeiro dia. Mattos Filho, Opice Blum e Clicksign como mantenedoras. Paulo Costa, CEO do Cubo, na abertura, disse que o ambiente jurídico brasileiro ‘tem tudo para se tornar uma referência global’. Quando o maior hub do continente inaugura uma vertical dedicada ao Direito, a mensagem para o mercado de capitais é bastante clara: legaltechs deixaram de ser nicho e passaram a ser indústria.

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Essa validação não surgiu do nada. Ela é o resultado de um amadurecimento que vem sendo construído há alguns anos e que está ancorado em um dado que qualquer pessoa que acompanha o setor jurídico brasileiro já internalizou: o país fecha cada exercício com mais de 80 milhões de processos ativos na Justiça, com custos que chegam a 1,6% do PIB, segundo o Conselho Nacional de Justiça. O Brasil é o maior mercado jurídico do mundo em volume processual. Isso não é um problema. É uma tese de investimento.

Globalmente, o mercado de legaltechs deve alcançar US$ 68 bilhões até 2034, com crescimento médio anual de 8,7%, de acordo com a consultoria Future Market Insights. No Brasil, a Associação Brasileira de Lawtechs & Legaltechs (AB2L), fundada em 2017 com 20 startups, já reúne mais de 600 empresas associadas, num crescimento superior a 300% em menos de uma década. O capital começa a seguir esse movimento. E é exatamente aqui que começa o problema que quero colocar para você neste artigo.

Porque ter um mercado grande, crescente e tecnicamente defasado não é suficiente para que uma startup jurídica decole. O setor jurídico tem complexidade própria que não se resolve com um bom produto e uma campanha de tráfego pago. Há restrições à publicidade previstas no Código de Ética da OAB.

Há ciclos de venda B2B que duram de três a doze meses e dependem de credibilidade institucional. Há integração com sistemas de tribunais eletrônicos heterogêneos. Há uma cultura organizacional que valoriza autoridade e reputação acima de tudo.

E há, ainda, a necessidade de estruturar governança societária compatível com futuras rodadas de investimento, algo que a maioria dos fundadores jurídicos nunca precisou fazer antes. Uma startup que entra nesse mercado sem quem entenda dessas especificidades a priori provavelmente vai aprender no caminho. O problema é que o caminho cobra caro.

É por isso que o modelo de venture building setorial importa e importa de forma diferente do modelo de aceleração genérica. Uma venture builder dedicada a legaltechs não apenas aporta capital: ela coopera a startup, entregando squads especializados em vendas B2B para o mercado jurídico, marketing institucional dentro das restrições éticas da OAB, governança societária com visão de exit, compliance regulatório, metodologia ágil adaptada ao ciclo de produto jurídico e acesso a uma rede de investidores que já compreende a tese. São as dimensões que uma startup jurídica não sabe entregar sozinha e que nenhum playbook horizontal de aceleração foi desenhado para cobrir.

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Existe evidência empírica que sustenta esse argumento. A Aleve LegalTech Ventures, venture builder fundada em 2021 com tese exclusiva em legaltechs, encerrou seu quinto ano com 11 startups no portfólio e crescimento de 80% no valor de mercado consolidado: de R$ 100 milhões para R$ 180 milhões em um único exercício.

Mais do que os números, o que importa é o ciclo que se completou: a Cria.AI, legaltech de automação de documentos jurídicos construída desde a ideação dentro da venture builder, foi adquirida pela Preâmbulo Tech, líder em soluções tecnológicas para o setor.

A transação envolveu marcos de performance, pactos de governança e due diligence estruturado, possibilitados pela arquitetura de governança que foi implementada ao longo de todo o ciclo de maturação. Foi o ciclo completo: início, meio e fim.

Esse exit não é apenas um resultado financeiro. É uma demonstração de método. Ele mostra que legaltechs brasileiras são capazes de atrair investimento estratégico, gerar liquidez para investidores e competir em processos de M&A estruturados, desde que estejam preparadas para isso com antecedência. E a preparação, no mercado jurídico, não acontece em três meses de aceleração. Ela exige um parceiro que compreenda o setor com a mesma profundidade com que compreende venture capital.

O lançamento do Cubo Legal é, nesse sentido, um ponto de inflexão importante para o ecossistema. Ele sinaliza que o capital institucional passou a olhar para o setor jurídico com atenção estratégica, e não mais com curiosidade periférica.

Para os fundadores de legaltechs, isso significa que a janela de oportunidade está se abrindo, mas também que a exigência de preparo vai aumentar. Investidores que antes toleravam governança informal e modelos comerciais não estruturados vão, a partir de agora, comparar legaltechs entre si com maior rigor. A régua sobe.

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A pergunta que fica, portanto, não é se a sua legaltech tem tecnologia suficiente. A pergunta é se ela tem a infraestrutura de gestão, a governança societária e o posicionamento comercial que um investidor ou adquirente exige quando o mercado amadurece. E, mais importante: com quem você está construindo isso?

Aos negócios, sempre.

*Priscila Spadinger é Advogada, CEO da Aleve LegalTech Ventures S/A, professora de M&A e Venture Capital e colunista do Portal Lex Legal Brasil.

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