CPI do Crime Organizado pede impeachment de Moraes, Toffoli, Gilmar e Gonet

CPI do Crime Organizado pede impeachment de Moraes, Toffoli, Gilmar e Gonet
Relatório final da CPI do Crime Organizado propõe impeachment de ministros do STF e intervenção federal no Rio/Edilson Rodrigues/Agência Senado
Publicado em 14/04/2026 às 7:43

Da redação de LexLegal

O relatório final da CPI do Crime Organizado, no Senado, propôs o impeachment dos ministros do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, além do procurador-geral da República, Paulo Gonet. O documento também recomenda uma intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro, ampliando o alcance político e jurídico das conclusões da comissão. 

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O pedido é considerado inédito porque, segundo parlamentares envolvidos, é a primeira vez que uma Comissão Parlamentar de Inquérito sugere o indiciamento de ministros da Suprema Corte. O relatório foi elaborado após quatro meses de investigações e será votado no último dia de funcionamento da comissão.

Na prática, o pedido de impeachment se baseia na chamada Lei nº 1.079, de 1950, conhecida como Lei do Impeachment. Essa norma define o que são crimes de responsabilidade, que são infrações político-administrativas consideradas graves por comprometer o funcionamento das instituições públicas e a Constituição.

Segundo o relatório, os ministros e o procurador-geral teriam praticado condutas consideradas incompatíveis com suas funções públicas durante a condução de decisões relacionadas ao chamado caso Banco Master.

Relatório aponta crimes de responsabilidade e conflito de interesses

O texto da CPI afirma que os ministros teriam cometido crimes de responsabilidade ao atuar em processos nos quais haveria suspeita de conflito de interesses. Em termos simples, conflito de interesses ocorre quando uma autoridade decide sobre um caso em que possui vínculo pessoal ou econômico que pode influenciar o julgamento.

No caso do ministro Dias Toffoli, o relatório menciona a venda de participação em um resort a um fundo ligado ao banqueiro Daniel Vorcaro. Mesmo após a operação, ele teria atuado como relator de processos relacionados ao caso.

Já em relação ao ministro Alexandre de Moraes, o documento sustenta que houve tentativa de obter informações junto ao Banco Central sobre a venda do Banco Master ao Banco de Brasília. O relatório classifica essa atuação como possível “captura regulatória”, expressão usada quando autoridades públicas passam a agir em benefício de interesses privados ou específicos.

O texto também atribui ao ministro Gilmar Mendes decisões consideradas controversas, como a suspensão de quebras de sigilo relacionadas a empresas vinculadas ao caso investigado.

“A conduta que se esperaria de qualquer magistrado da Corte seria a de máxima cautela e distanciamento em relação a atos que pudessem ser interpretados como proteção corporativa. (…) proferiu decisões que beneficiaram diretamente a empresa de colega que acabara de deixar a relatoria do caso em circunstâncias de reconhecido conflito de interesses”, diz o texto do relatório. 

O documento ainda afirma que o procurador-geral da República, Paulo Gonet, teria sido “patentemente desidioso no cumprimento de suas atribuições”, ao manter silêncio institucional diante de indícios que a CPI considera relevantes.

Essa acusação envolve a atuação da Procuradoria-Geral da República, órgão responsável por fiscalizar o cumprimento das leis e propor ações contra autoridades com foro privilegiado.

Encaminhamento depende do presidente do Senado

Mesmo que o relatório seja aprovado pela CPI, os pedidos de impeachment não entram automaticamente em vigor. O processo depende de decisão do presidente do Senado, atualmente Davi Alcolumbre.

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Na prática, cabe ao presidente da Casa avaliar se o pedido será aceito e encaminhado para análise formal. Sem essa decisão, o relatório permanece como uma recomendação política, sem efeitos jurídicos imediatos.

O relatório sugere que, após aprovação, toda a documentação reunida seja enviada à Mesa do Senado para abertura formal do processo, conforme previsto no artigo 52 da Constituição Federal e no artigo 41 da Lei nº 1.079/1950.

Além disso, a comissão apontou que outros órgãos reguladores também teriam falhado em suas funções de fiscalização.

Proposta inclui intervenção federal no Rio de Janeiro

Outro ponto central do relatório é a sugestão de intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro. Esse mecanismo está previsto na Constituição e permite que o governo federal assuma temporariamente responsabilidades de um estado quando há grave comprometimento da ordem pública.

A proposta foi justificada com base no diagnóstico feito pela CPI sobre o avanço de facções criminosas e milícias em territórios urbanos.

“A gravidade da situação no Rio de Janeiro é proporcional à excepcionalidade do remédio. Trata-se de milhões de brasileiros que vivem sob o jugo de organizações criminosas armadas, sem que o Estado consiga lhes assegurar os direitos mais elementares: vida, propriedade, liberdade de ir e vir, acesso a serviços públicos e participação no processo democrático”, afirma o relatório. 

A intervenção federal é considerada uma medida extrema e só pode ser adotada em situações consideradas excepcionais. Caso seja autorizada, o governo federal assume temporariamente funções que normalmente cabem ao governo estadual.

Trabalhos encerrados após quatro meses de investigação

A CPI foi criada após operações policiais que resultaram em alto número de mortes no Rio de Janeiro e tinha como objetivo inicial investigar a atuação do crime organizado. Com o avanço das investigações, a comissão passou a analisar também o funcionamento do sistema financeiro e possíveis conexões com organizações criminosas.

Os trabalhos ocorreram ao longo de quatro meses e foram encerrados após decisão do presidente do Senado de negar a prorrogação das atividades. Segundo o relator da CPI, cerca de 90 depoimentos previstos deixaram de ser realizados devido ao encerramento antecipado da comissão.

“Ele justifica dizendo que se trata de um ano eleitoral e que, na visão dele, não é bom ter uma CPI tramitando. É óbvio que a gente não concorda com esse posicionamento. Eu entendo que o presidente Davi Alcolumbre presta um grande desserviço para a nação”, disse o senador Alessandro Vieira ao comentar o encerramento dos trabalhos. 

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O relatório final da CPI do Crime Organizado encerra uma das investigações parlamentares mais sensíveis dos últimos anos e abre uma nova fase de disputas institucionais que devem se desenrolar dentro do Congresso Nacional e do próprio sistema de Justiça.


SÃO PAULO WEATHER