Mattering: por que a humanidade é a maior inovação jurídica frente à IA no SXSW?

Priscila Spadinger – enviada especial a Austin, Texas, EUA

O mesmo endereço que batizou o Protocolo Austin, conceito que tenho explorado nesta coluna para descrever a convergência entre inteligência artificial e prática jurídica, voltou a me oferecer, neste SXSW 2026, uma lição inesperada. Não sobre algoritmos, não sobre modelos de linguagem, não sobre eficiência processual. A lição foi sobre algo infinitamente mais antigo e, ao mesmo tempo, mais urgente: a necessidade humana de sentir que importa.
Uma das melhores palestras que assisti no SXSW deste ano foi a da Jennifer B. Wallace que, já no início, começou com uma imagem curiosa: discos de vinil voltando às lojas, câmeras descartáveis nas mesas dos cafés, pizzarias decoradas nos moldes dos anos 1990, com as luminárias, as xícaras vermelhas e o balcão de saladas. Uma nostalgia epidêmica, disse ela. E então perguntou: o que estamos buscando de volta, afinal?
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Enquanto ela falava, pensei nos escritórios de advocacia. Pensei nos clientes que ainda ligam para perguntar se o advogado leu pessoalmente sua petição. Pensei nos sócios que resistem à automação não por desconhecimento tecnológico, mas por um instinto visceral de que algo importante pode se perder no caminho. Será que a resistência à inovação no Direito também é, em parte, nostalgia e que a nostalgia, por sua vez, é um sinal de alerta?
A resposta da palestrante foi precisa: não estamos com saudade dos objetos. Estamos com saudade da sensação de pertencer, de ser visto, de importar para alguém. E esse é um ponto de partida extraordinário para quem pensa o futuro do Direito.
Mattering: a necessidade invisível que move clientes e profissionais
A palestra apresentou um conceito da psicologia social que merece atenção do mundo jurídico: mattering, ou seja, a necessidade fundamental de sentir que somos valorizados e que agregamos valor à vida de quem está ao nosso redor. Não é autoestima, não é vaidade. É uma herança evolutiva: para nossos ancestrais, ser valorizado pelo grupo significava proteção e sobrevivência. Ser descartado significava morte.
Esse mesmo circuito ainda opera em cada cliente que bate à porta de um escritório jurídico. Ele não quer apenas ganhar a causa. Ele quer ser ouvido. Quer que alguém entenda o que está em jogo, não só juridicamente, mas humanamente. Quando essa necessidade é atendida, o cliente engaja, colabora, confia. Quando é ignorada, ele adoece de ansiedade, desconfia do processo, e às vezes desiste antes do tempo.
E o que dizer dos próprios advogados? Um estudo citado na palestra analisou as palavras mais usadas por homens em crise suicida para descrever seu sofrimento: inútil e sem valor. Dois adjetivos que capturam com brutalidade o peso de sentir que não se importa a ninguém. Em uma profissão com altas taxas de burnout e adoecimento mental como a advocacia, essa reflexão deveria compor a pauta de qualquer programa de bem-estar corporativo e de qualquer política de gestão de talentos jurídicos.
A IA e o risco de uma crise de significado em escala
A palestrante então virou o tema de cabeça para baixo com uma afirmação que gelou a plateia: líderes do setor tecnológico projetam que, nos próximos dez anos, humanos podem deixar de ser necessários para a maioria das tarefas. Não é ficção científica. É a projeção de quem está construindo os sistemas.
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No Direito, esse cenário não é hipotético, já está em curso. Triagem de contratos, análise de jurisprudência, elaboração de minutas, due diligence, cálculos tributários: algoritmos já realizam tudo isso com velocidade e custo que nenhum ser humano consegue competir em escala. A questão não é se a automação chegará ao Direito. Ela já chegou. A questão é: o que faremos com os profissionais que ficarem para trás nessa transição e com os que ficarem à frente, mas vazios de sentido?
Jennifer B. Wallace argumenta que o maior desafio da próxima década não é acompanhar as máquinas. É proteger a necessidade fundamental humana de importar nesse novo mundo que estamos construindo tão rapidamente. Traduzo isso para o vocabulário jurídico: o maior risco da legaltech não é técnico. É existencial.
O advogado que importa — e a tecnologia que viabiliza isso
Há uma boa notícia nesse cenário. E ela também veio de Austin.
Se a tecnologia pode (e deve) absorver as tarefas repetitivas, ela libera o advogado para aquilo que nenhuma IA substituirá no horizonte previsível: a presença humana qualificada. A escuta ativa. O julgamento ético em situações de alta ambiguidade. A capacidade de fazer o cliente sentir que sua causa importa, que ele importa, que há um ser humano do outro lado comprometido com o que está em jogo.
Não é romantismo. É estratégia. Em um mercado onde a commoditização das tarefas jurídicas básicas é inevitável, a diferenciação competitiva dos escritórios e profissionais que sobreviverão (e prosperarão) será justamente a capacidade de oferecer aquilo que os algoritmos não têm: a experiência de ser visto, valorizado e representado por alguém que genuinamente se importa.
A inovação jurídica mais importante dos próximos anos pode não ser um novo software. Pode ser a redescoberta, em bases sólidas e intencionais, da capacidade de importar-se.
O Protocolo Austin revisitado
Tenho escrito nesta coluna sobre o Protocolo Austin como metáfora para a convergência entre o Direito e a inteligência artificial. Saio do SXSW 2026 com uma camada adicional: Austin também me ensinou que essa convergência, para ser saudável, precisa ser guiada por algo que os modelos de linguagem ainda não conseguem parametrizar: a preocupação genuína com o outro ser humano.
Adotar tecnologia jurídica não é desumanizar a advocacia. Pode ser exatamente o contrário: ao delegar às máquinas o que é mecânico, o advogado recupera o tempo e o espaço mental para ser, de fato, humano com quem mais precisa: o cliente, o colega, o jurisdicionado.
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Em um mundo que pode, em breve, dispensar humanos para a maioria das tarefas, a pergunta mais importante para juristas não é “como automatizo meu escritório?”, mas sim: “como uso a tecnologia para ter mais tempo e capacidade de me importar?”
Essa é, talvez, a revolução mais importante que o Direito pode liderar… E que nenhum algoritmo vai fazer por nós.
*Priscila Spadinger é CEO da Aleve LegalTech Ventures S/A. Lidera iniciativas de inovação jurídica e acompanha de perto a jornada de dezenas de legaltechs brasileiras.
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