Chuvas na Zona da Mata deixam mortos, trauma e famílias sem amparo um mês depois de chuvas

Chuvas na Zona da Mata deixam mortos, trauma e famílias sem amparo um mês depois de chuvas
Um mês após a tragédia, moradores de Juiz de Fora, Ubá e Matias Barbosa relatam luto, casas interditadas, prejuízo e demora no acesso à ajuda pública/Tânia Rêgo/Agência Brasil
Publicado em 22/03/2026 às 9:00

Da redação de LexLegal

Um mês depois das chuvas que devastaram a Zona da Mata Mineira, moradores ainda convivem com mortos na família, casas interditadas, renda interrompida e sensação de abandono. O temporal, concentrado principalmente na noite de 23 de fevereiro, deixou 73 mortos, sendo 65 em Juiz de Fora e 8 em Ubá, além de destruição também em Matias Barbosa e cidades vizinhas. 

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No Parque Jardim Burnier, em Juiz de Fora, um dos pontos mais atingidos, a dor continua no centro da rotina. A moradora Claudia da Silva, de 71 anos, disse ter perdido 20 parentes. Quando falou à reportagem pela primeira vez, ela ainda acompanhava buscas por desaparecidos. Agora, tenta lidar com um trauma que só aumentou. 

“Eu tive que procurar tratamento psicológico por conta própria. É muita coisa para a minha cabeça. Um sobrinho que sobreviveu está no CTI [centro de terapia intensiva]. Ele só tem 16 anos e teve que amputar uma perna. Estou só chorando, desesperada, sem conseguir comer direito”, disse. 

A casa onde Claudia vive com a mãe, de 85 anos, foi interditada pela Defesa Civil. Mesmo assim, ela preferiu permanecer no local. O medo virou rotina. A queixa principal é a falta de apoio concreto do poder público depois da tragédia. 

“Temos medo, não dormimos direito e nos sentimos abandonadas. Ninguém dos órgãos competentes veio aqui dar apoio, oferecer uma casa, pelo menos. Não significamos nada para eles, só durante as eleições”, lamenta. 

Na mesma comunidade, a aposentada Maria da Conceição Couto Almeida, de 62 anos, passou a viver entre dois endereços. Dorme na casa da filha e volta de manhã para limpar e tentar preservar o imóvel interditado. O deslocamento diário expõe uma realidade comum em áreas afetadas: sair de casa não encerra o problema. 

“Você leva uma vida inteira para construir uma casa e, de repente, tem que sair assim, na correria, só com a roupa do corpo. Suspendemos tudo da nossa vida, mas não podemos abandonar a casa assim”, conta. 

Além do impacto material, a enchente agravou quadros de saúde dentro da família. Segundo Maria, o marido faz tratamento cardíaco, ela enfrenta piora da ansiedade e também dificuldade para manter os cuidados com a diabetes. Embora já tenha sido cadastrada por equipes da prefeitura, afirma que ainda não recebeu auxílio financeiro nem solução habitacional. 

“Recebemos apenas cesta básica de doações voluntárias. Veio pessoal da prefeitura, cadastrou todo mundo e mandaram ir no Diga [centro municipal de atendimento], mas não fui ainda. Tem lugar que as pessoas demoram 10 horas na fila. Assim, é muito difícil”, reclama. 

A pressão também chegou ao bolso de quem depende do trabalho diário. O serralheiro Nilton Angelo de Gusmão, de 60 anos, morador do Jardim Burnier há mais de 40 anos, disse que ficou semanas sem conseguir trabalhar, perdeu contratos e agora tenta administrar contas básicas em meio ao prejuízo. 

“Eu perdi dois serviços que iam me dar R$ 4 mil em duas semanas. Chegaram as contas de luz, de água, de telefone, e eu tenho que pagar. Precisamos de ajuda, de algum auxílio financeiro para conseguir tocar a vida”, diz Nilton. 

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Em Juiz de Fora, a prefeitura informou que o auxílio calamidade municipal será depositado na segunda-feira, dia 23, nas contas vinculadas ao Cadastro Único das famílias atingidas. O município contabilizou 6.690 ocorrências desde 23 de fevereiro. Fevereiro de 2026 entrou para a história local como o mês mais chuvoso já registrado, com 763,8 mm, muito acima da média histórica de 173 mm e do antigo recorde, de 1988, com 456 mm. 

Os números mostram a dimensão do estrago. Mais de 8,5 mil pessoas ficaram desabrigadas. A cidade registrou 1.008 moradias totalmente destruídas e oito imóveis demolidos. Até 19 de março, 170 famílias estavam em hotéis custeados pelo município, e 36 já tinham deixado essa rede de acolhimento. A prefeitura também disse que 101 unidades da rede municipal retomaram as atividades, mas cinco escolas seguem sem retorno. 

A administração municipal afirma ainda que, entre 2021 e 2025, investiu R$ 26 milhões em contenção, R$ 62 milhões em 16 quilômetros de redes de drenagem e R$ 230,6 milhões em manutenção preventiva. 

Em Ubá, a prefeitura declarou que oferece abrigo, alimentação e acompanhamento psicológico aos atingidos e que segue cadastrando moradores para acesso a benefícios estaduais e federais. Também informou que imóveis seguros estão sendo liberados para reocupação, enquanto os que apresentam risco estrutural permanecem interditados. 

Segundo o município, a inundação atingiu cerca de 47,4 km², o equivalente a 11,6% do território local. Desde fevereiro, foram registradas aproximadamente 1.188 famílias desalojadas e 4.790 pessoas diretamente afetadas. No momento do balanço, duas famílias desabrigadas ainda estavam em abrigo municipal. A prefeitura disse ter pedido mais de R$ 55 milhões ao governo federal para reconstrução e recuperação. 

Em Matias Barbosa, a prefeitura afirmou que não houve perdas estruturais graves, como queda de pontes, desabamentos de casas ou paralisação de serviços essenciais. Ainda assim, reconheceu que mais de 300 famílias foram impactadas e que cerca de 80% do comércio local sofreu efeitos das chuvas. O município informou que prepara um projeto de lei para instituir auxílio financeiro a moradores e comerciantes atingidos. 

A cidade também relatou danos em uma Unidade Básica de Saúde no bairro Nossa Senhora da Penha. Para tentar manter o atendimento, montou uma unidade móvel na praça do bairro e direcionou outra para vacinação de pessoas que tiveram contato com a água das enchentes. 

No plano federal, o governo informou ter mobilizado quase R$ 2 bilhões entre recursos diretos, crédito e programas habitacionais. Entre as medidas anunciadas estão o Auxílio Reconstrução, de R$ 7,3 mil por família, ainda em fase de cadastro e validação pelas prefeituras, e a modalidade Compra Assistida do Minha Casa Minha Vida, que prevê subsídio integral para famílias que perderam totalmente suas casas, com limite de até R$ 200 mil por imóvel. 

O pacote federal inclui ainda antecipação de abono salarial para 92,2 mil pessoas, parcelas extras do seguro-desemprego, saque calamidade do FGTS, mais de R$ 55 milhões aprovados para ações emergenciais e de reconstrução, R$ 14,9 milhões para saúde e R$ 4,56 milhões para recuperação de 126 escolas atingidas, além de R$ 770 mil para manutenção de abrigos. Até 19 de março, os saques do FGTS somavam mais de R$ 165 milhões em Juiz de Fora e R$ 38 milhões em Ubá. 

A União também informou a abertura de linhas de crédito facilitadas, com R$ 1,3 bilhão liberado por medida provisória em crédito extraordinário e até R$ 500 milhões em financiamentos com recursos do Fundo Social. As próximas etapas, segundo o governo, incluem aprovação de novos planos pela Defesa Civil, obras de infraestrutura e reforço nas políticas habitacionais e de assistência social. 

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Se por um lado os governos exibem planilhas de investimentos, por outro os relatos dos moradores mostram que a reconstrução ainda não chegou por inteiro a quem perdeu parentes, trabalho e casa. Na prática, a tragédia segue aberta para milhares de famílias da Zona da Mata Mineira. 

O governo de Minas Gerais, por sua vez, não respondeu aos pedidos da reportagem para detalhar ações e investimentos voltados às famílias atingidas pelas chuvas na região. 

SÃO PAULO WEATHER