Justiça torna réus quatro acusados de campanha de ódio contra Maria da Penha

Justiça torna réus quatro acusados de campanha de ódio contra Maria da Penha
MP aponta fake news, stalking e laudo forjado para atacar ativista/José Cruz/Agência Brasil
Publicado em 10/03/2026 às 7:30

Da redação de LexLegal

A Justiça do Ceará aceitou denúncia do Ministério Público estadual e tornou réus quatro suspeitos de participar de uma campanha de ataques contra a farmacêutica Maria da Penha, referência histórica na luta contra a violência doméstica no Brasil.

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Os acusados são o ex-marido da ativista, Marco Antônio Heredia Viveiros, o influenciador digital Alexandre Gonçalves de Paiva, o produtor Marcus Vinícius Mantovanelli e o editor e apresentador Henrique Barros Lesina Zingano.

Segundo o Ministério Público, o grupo teria atuado de forma coordenada para atacar a honra de Maria da Penha e tentar descredibilizar a lei que leva o nome dela. As investigações apontam que os acusados usaram redes sociais, vídeos e conteúdos online para disseminar informações falsas sobre o caso que levou à condenação de Heredia.

Entre as práticas identificadas estão perseguição virtual, cyberbullying, divulgação de conteúdos misóginos e distorção de fatos ligados à tentativa de homicídio sofrida pela ativista. De acordo com o Ministério Público, parte da estratégia envolvia também a produção e divulgação de um documentário que apresentava uma versão alternativa do crime.

O material defendia a tese de que Heredia não teria tentado matar Maria da Penha e que o episódio teria sido resultado de um assalto. Para sustentar essa narrativa, os acusados utilizaram um suposto laudo de exame de corpo de delito.

A perícia realizada durante a investigação concluiu que o documento havia sido adulterado. Segundo os investigadores, o laudo utilizado no documentário foi montado a partir de um documento original, com inclusão de informações inexistentes.

Entre as alterações identificadas estão registros de lesões no pescoço e no braço de Heredia que não apareciam no exame original. Peritos também apontaram inconsistências nas assinaturas e nos carimbos presentes no documento.

A denúncia afirma que o material adulterado foi usado para tentar sustentar a versão de que Heredia teria sido vítima, e não autor da tentativa de homicídio.

Marco Heredia foi denunciado por falsificação de documento público. Alexandre Paiva responde por stalking e cyberstalking, crimes que envolvem perseguição reiterada, inclusive em ambiente digital. Já Mantovanelli e Zingano foram denunciados por uso de documento falso ao utilizar o laudo adulterado no documentário intitulado A Investigação Paralela: o Caso Maria da Penha.

Segundo o Ministério Público, os ataques ultrapassaram o ambiente virtual. As investigações indicam que Alexandre Paiva chegou a ir até a antiga residência da ativista, em Fortaleza, onde gravou vídeos que posteriormente foram divulgados nas redes sociais.

Os investigadores também identificaram grupos de mensagens utilizados para planejar ações e coordenar a campanha de ataques. De acordo com o Ministério Público, a disseminação de conteúdos nas redes sociais também tinha finalidade financeira.

Extratos bancários analisados com autorização judicial apontaram que Alexandre Paiva recebeu depósitos vinculados a plataformas digitais. Entre os pagamentos identificados estão repasses da Google LLC e da Meta Platforms Ireland Limited, além de receitas de publicidade online.

O processo tramita na 9ª Vara Criminal de Fortaleza. Até o momento, não há previsão para o julgamento do caso. A investigação começou em 2024 e resultou na operação Echo Chamber, conduzida pelo Núcleo de Investigação Criminal do Ministério Público do Ceará.

A primeira fase da operação ocorreu em dezembro de 2024, com mandados de busca no Espírito Santo e no Rio de Janeiro. Na ocasião, a Justiça determinou a suspensão do perfil de Alexandre Paiva nas redes sociais e proibiu contato com Maria da Penha e suas filhas.

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Na segunda fase, realizada em julho de 2025 em Natal, foram apreendidos documentos e equipamentos eletrônicos. Entre os materiais encontrados estava um pen drive com o laudo adulterado. A Justiça também determinou a suspensão da divulgação do documentário.

Diante da gravidade das ameaças, Maria da Penha foi incluída no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos.

SÃO PAULO WEATHER