O Direito na era da policrise: como a tecnologia está redesenhando a advocacia global

O Direito na era da policrise: como a tecnologia está redesenhando a advocacia global
Se a economia do século XXI será moldada por inteligência artificial, deep techs e infraestruturas digitais, o Direito não pode permanecer restrito às estruturas intelectuais do passado/Freepik
Publicado em 05/03/2026 às 9:48

Priscila Spadinger*

Na próxima semana estarei em Austin, no Texas, participando do SXSW (South by Southwest), um dos mais relevantes encontros globais sobre inovação, ciência, tecnologia e economia criativa. Não vou ao evento apenas como observadora de tendências tecnológicas.

Vou como advogada com mais de vinte anos de atuação em fusões e aquisições (M&A), como empreendedora e como investidora em startups, interessada em compreender como as transformações científicas que estão emergindo no mundo estão redesenhando as estruturas institucionais e jurídicas da economia contemporânea.

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Esse deslocamento intelectual, ou seja, sair do espaço tradicional da advocacia para dialogar com cientistas, empreendedores, engenheiros e investidores, tornou-se essencial para entender o momento histórico que atravessamos.

O historiador econômico Adam Tooze descreve a contemporaneidade como uma era de “policrise”, caracterizada pela convergência de múltiplas crises sistêmicas: tensões geopolíticas, mudanças climáticas, disrupções tecnológicas e instabilidades econômicas interdependentes.

Nesse cenário, a economia global passa por uma reorganização profunda, impulsionada principalmente pela aceleração científica e tecnológica. Em contextos dessa natureza, o Direito deixa de ser apenas um sistema de interpretação normativa para assumir uma função mais estrutural: tornar-se infraestrutura institucional de estabilidade e confiança em ambientes complexos.

Law as infrastructure: o Direito como arquitetura da economia digital

Uma das ideias que vem ganhando força na literatura contemporânea é a concepção de Law as Infrastructure. Assim como redes elétricas, sistemas de transporte ou protocolos de internet, o Direito funciona como uma camada invisível que sustenta a coordenação econômica e social.

A economista Katharina Pistor, em The Code of Capital, demonstra como estruturas jurídicas são fundamentais para a criação e preservação de valor econômico. Contratos, regimes de propriedade, garantias e sistemas de governança constituem, em última instância, a arquitetura institucional que permite o funcionamento dos mercados. À medida que a economia se digitaliza, essa infraestrutura jurídica também precisa evoluir.

Tecnologias emergentes como inteligência artificial, blockchain, computação distribuída, biotecnologia e novas infraestruturas energéticas estão criando mercados inteiramente novos. Esses mercados exigem estruturas jurídicas capazes de lidar com ativos digitais, algoritmos autônomos, dados massivos e modelos organizacionais inéditos. O Direito passa, portanto, por um processo de reconfiguração estrutural, semelhante ao que ocorreu em outras grandes transições tecnológicas da história.

Deep techs e a nova economia científica

Grande parte dessa transformação está associada ao crescimento das chamadas deep techs: empresas que surgem a partir de avanços científicos profundos em áreas como inteligência artificial, computação quântica, biotecnologia, novos materiais e exploração espacial.

Relatório conjunto da Boston Consulting Group e da Hello Tomorrow estima que o investimento global em deep techs ultrapasse US$ 60 bilhões anuais, refletindo o reconhecimento crescente de que a próxima onda de crescimento econômico será impulsionada por inovação científica.

A teórica da inovação Carlota Perez descreve esse tipo de momento como uma revolução tecnoeconômica, na qual novas tecnologias criam não apenas novos produtos, mas também novos paradigmas institucionais e organizacionais (Perez, 2002).

Isso significa que o impacto dessas tecnologias não se limita à engenharia ou à ciência. Ele alcança também o Direito. Contratos inteligentes, ativos tokenizados, governança algorítmica, propriedade intelectual em ambientes digitais e novos modelos de financiamento científico são apenas algumas das questões jurídicas emergentes nesse cenário. Para advogados que atuam em áreas estratégicas da economia, especialmente em fusões e aquisições, venture capital e inovação tecnológica, compreender essas transformações deixou de ser opcional.

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Computational law e a transformação da prática jurídica

Outra transformação relevante ocorre no próprio modo como o Direito é produzido e aplicado. Pesquisadores como Harry Surden e Michael Genesereth têm discutido o conceito de Computational Law, que descreve a crescente incorporação de sistemas computacionais na interpretação, execução e análise de normas jurídicas.

Nesse paradigma, algoritmos podem auxiliar na análise de grandes volumes de dados jurídicos, na automação de processos regulatórios e na identificação de padrões decisórios em tribunais. Esse movimento já se reflete no crescimento da chamada jurimetria preditiva, campo que combina estatística, ciência de dados e análise jurídica para compreender tendências decisórias e avaliar riscos processuais.

Ao mesmo tempo, estudos do Thomson Reuters Institute (2024) indicam que advogados ainda dedicam cerca de 30% do seu tempo a atividades administrativas ou repetitivas, muitas delas passíveis de automação.

Nesse contexto, tecnologias jurídicas especializadas, frequentemente desenvolvidas por startups, começam a funcionar como uma camada de infraestrutura cognitiva que amplia a capacidade analítica das organizações jurídicas. No ecossistema brasileiro de inovação jurídica, diferentes iniciativas têm explorado essa fronteira tecnológica.

Algumas plataformas concentram-se em legal operations e gestão de processos internos, enquanto outras exploram automação de fluxos de trabalho, análise de dados jurídicos ou infraestrutura digital para certificação e governança de ativos. Essas iniciativas não substituem o trabalho jurídico; elas ampliam sua capacidade operacional e estratégica.

AI Governance e a geopolítica dos algoritmos

Talvez nenhuma tecnologia esteja gerando tantas discussões jurídicas quanto a inteligência artificial. Modelos avançados de aprendizado de máquina estão sendo incorporados a sistemas de decisão em áreas como finanças, saúde, segurança e administração pública.

Essa expansão levanta questões fundamentais sobre responsabilidade, transparência, vieses algorítmicos e governança institucional. Relatório do Fundo Monetário Internacional (2024) destaca que a governança de dados e a regulação de inteligência artificial tornaram-se componentes centrais da estabilidade econômica global.

Em resposta a esse cenário, diferentes jurisdições vêm desenvolvendo marcos regulatórios para sistemas de IA. O AI Act europeu, por exemplo, estabelece um modelo baseado em níveis de risco para regular aplicações de inteligência artificial em diferentes contextos sociais e econômicos.

Esse movimento marca o surgimento de um novo campo interdisciplinar: AI Governance. Advogados que atuam nessa área precisam compreender não apenas conceitos jurídicos tradicionais, mas também fundamentos de ciência de dados, arquitetura de sistemas e ética algorítmica. Mais uma vez, o Direito se torna profundamente interdisciplinar.

Dados, território e jurimetria espacial

Outra fronteira emergente na interface entre tecnologia e Direito envolve o uso de dados geoespaciais e análise territorial para antecipação de conflitos jurídicos. Segundo projeções da Gartner (2023), cerca de 40% das grandes organizações globais utilizarão dados geoespaciais para gestão de riscos regulatórios e ambientais até 2027.

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Essa tendência reflete uma mudança metodológica importante: o Direito passa a incorporar evidências empíricas baseadas em dados territoriais, permitindo análises mais precisas de riscos fundiários, ambientais e urbanísticos.

Plataformas tecnológicas que combinam bases cartográficas, registros públicos e ciência de dados começam a explorar metodologias conhecidas como GeoLegal, nas quais a análise jurídica é integrada a informações espaciais de alta precisão. Esse tipo de abordagem permite antecipar disputas regulatórias e reduzir assimetrias de informação que historicamente geram insegurança jurídica.

Tecnologia, linguagem e acesso ao Direito

A inteligência artificial generativa também começa a desempenhar um papel relevante na democratização do acesso à informação jurídica. Um dos desafios históricos das instituições jurídicas é a complexidade da linguagem normativa.

A distância entre a linguagem técnica do Direito e a compreensão do cidadão comum pode gerar barreiras significativas ao exercício de direitos. Pesquisas sobre Human-Centered AI, como as conduzidas por Luciano Floridi e colaboradores (2018), indicam que sistemas de linguagem natural podem contribuir para tornar sistemas jurídicos mais acessíveis e transparentes.

Modelos de linguagem capazes de interpretar textos jurídicos complexos e traduzi-los em comunicações mais compreensíveis representam uma nova interface entre tecnologia e cidadania. Mais uma vez, a tecnologia não substitui o Direito; ela amplia sua capacidade institucional.

Por que advogados precisam sair da bolha

Todos esses fenômenos apontam para uma conclusão inevitável: o futuro da advocacia será profundamente interdisciplinar, tecnológico e global. Profissionais jurídicos que atuam em áreas estratégicas da economia precisam compreender as transformações científicas e tecnológicas que estão moldando os mercados.

Eventos como o SXSW funcionam como pontos de convergência entre diferentes campos do conhecimento. Ali se discutem simultaneamente inteligência artificial, venture capital, ciência de dados, economia digital, governança global e inovação científica.

Para advogados, participar desses ambientes não é apenas uma experiência intelectual estimulante. É uma forma de compreender antecipadamente as transformações que inevitavelmente chegarão ao universo regulatório.

Mesmo em um cenário global marcado por tensões geopolíticas e incertezas econômicas, a inovação científica continua avançando. A história mostra que períodos de instabilidade frequentemente coincidem com momentos de aceleração tecnológica e reorganização institucional. Isso significa que a economia do futuro está sendo construída agora.

Minha ida a Austin se insere exatamente nessa perspectiva: compreender os vetores científicos e tecnológicos que estão emergindo no mundo e refletir sobre como o Direito pode contribuir para estruturar, com segurança e racionalidade institucional, as novas arquiteturas econômicas que estão surgindo.

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Se a economia do século XXI será moldada por inteligência artificial, deep techs e infraestruturas digitais, o Direito não pode permanecer restrito às estruturas intelectuais do passado. A advocacia do futuro não será apenas normativa. Ela será analítica, tecnológica e global. E, em um mundo em rápida transformação, sair da própria bolha talvez seja o primeiro passo para continuar relevante.

*Priscila Spadinger é CEO da Aleve LegalTech Ventures S/A. Lidera iniciativas de inovação jurídica e acompanha de perto a jornada de dezenas de legaltechs brasileiras.

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Referências – Tooze, A. (2022). Welcome to the World of the Polycrisis. Financial Times. Pistor, K. (2019). The Code of Capital: How the Law Creates Wealth and Inequality. Princeton University Press. Perez, C. (2002). Technological Revolutions and Financial Capital. Edward Elgar. Surden, H. (2014). Computable Contracts. UC Davis Law Review. Floridi, L. et al. (2018). AI4People—An Ethical Framework for a Good AI Society. Minds and Machines. Boston Consulting Group & Hello Tomorrow (2023). Deep Tech: The Great Wave of Innovation. Thomson Reuters Institute (2024). Future of Professionals Report. Gartner (2023). Emerging Technologies Impact Radar. International Monetary Fund (2024). Global Financial Stability Report.

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