Guerra no Oriente Médio pressiona commodities e pode fortalecer o real

Guerra no Oriente Médio pressiona commodities e pode fortalecer o real
A composição da economia brasileira, fortemente ligada à exportação de commodities, funciona, segundo analistas de mercado, como um amortecedor em momentos de instabilidade internacional, especialmente quando o choque envolve o mercado de energia/CNA
Publicado em 28/02/2026 às 10:23

Luciano Teixeira – São Paulo

O ataque militar conjunto dos Estados Unidos e de Israel ao Irã marca a conversão de uma ameaça geopolítica em conflito aberto e reintroduz um fator clássico de instabilidade nos mercados globais: o risco no Oriente Médio. A reação inicial deve ser imediata, segundo analistas, com petróleo em alta, volatilidade nos mercados financeiros e reprecificação de ativos considerados sensíveis a choques geopolíticos.

Leia também: Análise: EUA e Israel atacam o Irã e transformam ameaça em guerra aberta no Oriente Médio

Esse primeiro movimento reflete menos uma leitura estrutural da guerra e mais o ajuste automático dos mercados diante de um evento extremo. Em episódios semelhantes, investidores tendem a reduzir exposição a risco, buscar proteção em ativos reais e revisar expectativas de inflação, crescimento e política monetária. O impacto, porém, costuma ser mais intenso nas primeiras horas e dias do conflito.

No caso atual, a avaliação predominante é que se trata, ao menos por ora, de uma operação militar concentrada, sem sinais claros de escalada imediata para uma guerra regional ampla. Essa leitura tem sido fundamental para limitar reações mais abruptas nos mercados financeiros, especialmente nos países emergentes exportadores de commodities, como o Brasil.

“Do ponto de vista financeiro, a tendência é que ativos reais ganhem força. Petróleo, minério e demais commodities podem ver seus preços avançarem, e a moeda brasileira pode se apreciar mais um pouco depois de passado o susto inicial, já que o Ibovespa é visto pelo estrangeiro como uma bolsa de commodities”, afirma André Perfeito, economista e sócio da Garantia Capital.

Cenário central: guerra curta, choque financeiro pontual

A análise parte do pressuposto de que o conflito não se desdobrará, no curto prazo, em uma ocupação militar prolongada ou em um confronto direto envolvendo grandes potências como Rússia e China. “Os EUA e Israel atacam o Irã numa ação militar que deve durar pouco tempo. Pelo menos por ora, ninguém imagina uma ocupação militar por terra”, avalia Perfeito. Para o economista, uma guerra generalizada permanece como um cenário de baixa probabilidade no horizonte imediato.

Esse entendimento ajuda a explicar o comportamento recente dos mercados. No acumulado de 2026, o petróleo Brent registra alta de 19,95%. No mesmo período, o EWZ, principal ETF da bolsa brasileira negociado em dólar, sobe 20,28%, enquanto o Ibovespa acumula valorização de 17,6%. Já o dólar apresenta queda de 7,01% frente ao real.

O desempenho coloca o real como a moeda que mais se valorizou contra o dólar entre as principais divisas globais neste ano. “A moeda brasileira é a que mais se apreciou contra o dólar em 2026. Acredito que pode continuar avançando”, afirma Perfeito.

A valorização do real está associada a uma combinação de fatores conjunturais. De um lado, o diferencial de juros segue elevado, mantendo o Brasil atrativo para estratégias de carry trade. De outro, a composição da economia brasileira, fortemente ligada à exportação de commodities, funciona como um amortecedor em momentos de instabilidade internacional, especialmente quando o choque envolve o mercado de energia.

Outras notícias: Exército indica primeira mulher ao quadro de generais

Em cenários de conflito no Oriente Médio, a alta do petróleo tende a se propagar por cadeias produtivas globais, pressionando custos e alimentando expectativas inflacionárias. Para países exportadores, porém, o efeito inicial costuma ser positivo em termos de fluxo cambial e receitas externas. No caso brasileiro, isso ajuda a explicar a resiliência do câmbio mesmo em um ambiente global mais tenso.

No curto prazo, esse movimento pode contribuir para conter pressões inflacionárias internas, ao reduzir o custo de importações e insumos dolarizados. Ao mesmo tempo, um real mais forte impõe desafios à indústria de transformação, que perde competitividade externa quando o câmbio se aprecia de forma acelerada.

O que vem depois: cenários econômicos em disputa

O segundo estágio do impacto econômico dependerá diretamente da evolução do conflito. Se os ataques permanecerem restritos e não atingirem rotas estratégicas de escoamento de petróleo, como o Estreito de Hormuz, a tendência é de acomodação dos preços em patamares mais altos, porém estáveis. Nesse cenário, os mercados tendem a absorver o choque e retomar gradualmente o apetite por risco.

Já um prolongamento do conflito ou sua ampliação regional poderia alterar esse equilíbrio. Uma escalada envolvendo infraestruturas energéticas críticas teria potencial para pressionar o petróleo de forma mais duradoura, elevar custos globais de transporte e reacender debates sobre política monetária em economias centrais.

Para o Brasil, o efeito seria ambivalente. A valorização das commodities sustentaria o câmbio e os ativos financeiros, mas um ambiente internacional mais volátil poderia afetar decisões de investimento, comércio e crescimento econômico no médio prazo.

Além disso, o conflito reforça tendências estruturais já observadas na economia global, como a valorização de ativos reais, a fragmentação das cadeias produtivas e a crescente influência da geopolítica sobre decisões financeiras. Eventos dessa natureza deixam de ser exceção e passam a integrar o cálculo permanente dos agentes econômicos.

Nesse contexto, o desempenho favorável do real e do mercado acionário brasileiro reflete menos uma blindagem estrutural e mais uma posição relativa vantajosa em um mundo instável. A sustentabilidade desse movimento dependerá da duração do conflito, da resposta das grandes potências e da capacidade do Brasil de preservar estabilidade fiscal e previsibilidade institucional.

Veja também: Governo recua e reduz imposto de importação de eletrônicos e bens de capital

No curto prazo, a leitura predominante segue sendo a de que o ataque ao Irã redistribui preços relativos sem provocar, por ora, uma ruptura sistêmica. Como resume André Perfeito, o choque inicial tende a favorecer ativos reais e economias exportadoras de commodities. O risco maior não está no impacto imediato, mas na possibilidade de que a guerra deixe de ser um evento pontual e passe a se tornar mais um elemento permanente de instabilidade no cenário econômico global.


SÃO PAULO WEATHER