Marcelo Godke: “Meu papel é construir pontes e traduzir a regulação brasileira para padrões internacionais”

Luciano Teixeira – São Paulo
A transformação do setor financeiro brasileiro deixou de ser uma tendência e virou rotina. Fintechs, open finance, plataformas digitais, novos arranjos de crédito, dados e inteligência artificial convivem com um traço constante do ambiente local: intensa produção regulatória e alta judicialização. Para empresas e investidores, isso significa operar em velocidade de mercado sem abrir mão de previsibilidade jurídica. Um equilíbrio difícil e cada vez mais valioso.
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É nesse ponto de encontro entre Direito, finanças e estratégia que se destaca a atuação de Marcelo Godke, advogado com foco em Direito Empresarial aplicado ao setor financeiro, mercados regulados e operações transnacionais. Com atuação prática em operações que precisam atender simultaneamente a diferentes regras e órgãos reguladores, Godke se consolidou como um nome que “traduz” o mercado financeiro para o Direito — e o Direito para o mercado.
Doutor em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e doutorando na Universiteit Tilburg (Holanda), Godke também é professor universitário e mantém produção intelectual com impacto para além da sala de aula. É autor do livro A Business Judgment Rule no Direito Brasileiro (Quartier Latin), trabalho que se tornou referência no debate sobre padrões de decisão, deveres fiduciários e revisão judicial da atuação de administradores.
Desde o lançamento, a obra passou a circular em círculos acadêmicos e de governança corporativa, sendo frequentemente mencionada em debates, aulas e discussões técnicas sobre padrões de decisão e responsabilidade de administradores.
No plano internacional, publicou artigo no European Business Organization Law Review (EBOR), periódico de alto prestígio no campo do Direito Societário e do mercado de capitais — um reconhecimento raro para autores brasileiros e relevante para a circulação global de ideias sobre governança e regulação.
Um perfil moldado na fronteira entre teoria e prática
A trajetória de Godke não nasceu pronta. Ele iniciou sua carreira na advocacia empresarial tradicional, lidando com contratos, estruturações societárias e disputas complexas. Com o tempo, percebeu que o setor financeiro reunia, ao mesmo tempo, os temas mais desafiadores e os mais decisivos para a economia: crédito, pagamentos, liquidez, supervisão e risco.
“Eu sempre tive uma inquietação intelectual: entender como o Direito se conecta com a dinâmica real dos negócios”, afirma. A frase, longe de ser apenas um mote, virou método: em vez de tratar o jurídico como um checklist final, Godke defende uma atuação preventiva e arquitetônica — em que a estrutura é pensada desde o início para funcionar sob pressão regulatória, escrutínio de mercado e eventual questionamento judicial.
Essa visão ganha ainda mais relevância em um país no qual o ambiente institucional nem sempre oferece a estabilidade desejada por investidores. “O trabalho hoje é técnico, mas também estratégico: antecipar riscos, dialogar com reguladores e estruturar operações que resistam a questionamentos futuros”, diz.
Bancos, fintechs e multinacionais: “construir pontes”
Embora bancos tradicionais, fintechs e multinacionais operem com lógicas diferentes, Godke aponta que todos compartilham um objetivo central: segurança jurídica com previsibilidade.
Bancos tradicionais lidam com um arcabouço regulatório mais consolidado e estruturas robustas de compliance. Fintechs, por outro lado, desafiam categorias clássicas e exigem interpretações jurídicas capazes de viabilizar inovação sem comprometer aderência normativa.
Já as multinacionais precisam harmonizar padrões globais de governança e risco com regras locais — e isso envolve não apenas leis, mas práticas de supervisão, cultura institucional e dinâmica de enforcement.
“Meu papel é construir pontes: traduzir a regulação brasileira para padrões internacionais e adaptar boas práticas globais à realidade nacional”, afirma.
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A advocacia que o setor financeiro passou a exigir
Na avaliação de Godke, a advocacia empresarial voltada ao setor financeiro se distingue por dois traços: velocidade e complexidade. Decisões precisam ser tomadas em tempo de mercado, com alto grau de responsabilidade e efeitos diretos no desempenho econômico. Nesse contexto, não basta “saber a lei”; é preciso compreender conceitos como risco, estrutura de capital, impacto regulatório e governança decisória.
“As fintechs mudaram completamente a lógica da assessoria jurídica”, observa. “Hoje lidamos com plataformas digitais, dados, cibersegurança, inteligência artificial e modelos híbridos entre tecnologia e finanças”.
O advogado, nesse cenário, deixa de ser apenas intérprete e passa a atuar como arquiteto de estruturas: define governança, distribui responsabilidades, constrói mecanismos de proteção e desenha operações para funcionar em ambientes com pouca margem para erro.

Daí a tese que sintetiza sua visão: “A nova advocacia do setor financeiro se tornou indispensável ao futuro dos negócios”.
Riscos recorrentes e a importância de uma abordagem integrada
No mercado financeiro, riscos raramente vêm isolados. Uma operação mal desenhada pode produzir, ao mesmo tempo, sanções administrativas, litígios complexos e dano reputacional — e reputação, nesse setor, é um ativo com valor mensurável.
Por isso, Godke defende uma atuação transversal, conectando jurídico, compliance, governança e finanças. Entre os riscos mais recorrentes, ele destaca desafios regulatórios, fragilidades contratuais, questões de prevenção à lavagem de dinheiro, proteção de dados e responsabilidade civil. “O desafio é integrar essas frentes em uma estratégia única de prevenção”, diz.
Além da atuação profissional e da produção acadêmica, Godke passou a ser frequentemente convidado para palestrar no Brasil e no exterior, justamente por transitar com desenvoltura entre técnica jurídica e leitura de mercado.
Os convites refletem uma demanda crescente por especialistas que consigam explicar — com rigor e clareza — como a governança, a regulação e a inovação se relacionam no desenho de produtos e estruturas financeiras.
A combinação entre livro de referência, publicação internacional (Ebor) e participação recorrente em eventos reforça um traço distintivo do seu perfil: a capacidade de influenciar o debate técnico e formar repertório em uma área em rápida mutação, em que decisões jurídicas viram decisões de negócio.
O futuro: mais interdisciplinaridade e advocacia preventiva
Para os próximos anos, Godke vê um Direito Empresarial ainda mais interdisciplinar. Open finance, inteligência artificial, moedas digitais e novos modelos de intermediação deverão exigir interpretações jurídicas mais sofisticadas e modelos contratuais mais robustos.
A tendência, segundo ele, é de fortalecimento da atuação preventiva: “o advogado será chamado cada vez mais cedo, na concepção do produto e do serviço — e não apenas para validar estruturas prontas”.
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Em um país em que instabilidade regulatória e judicialização fazem parte do cenário, a advocacia que antecipa riscos e estrutura decisões tende a ganhar centralidade. E é exatamente nesse espaço — entre a técnica e a estratégia — que Marcelo Godke consolidou sua reputação.