IA exige dos gestores jurídicos menos leis e mais estratégia, aponta pesquisa global

Da redação de LexLegal
O gestor jurídico consolidou-se como peça-chave na formulação da estratégia empresarial e na gestão de riscos que impactam o crescimento do negócio. Essa é a principal conclusão da edição 2026 da pesquisa global sobre Chief Legal Officer, divulgada pela Association of Corporate Counsel em parceria com a FTI Consulting.
Leia também: Anvisa vai liberar Ozempic genérico? Decisão sobre caneta nacional sai na próxima semana
O estudo, que ouviu 1.049 líderes jurídicos em 43 países, mostra que a área jurídica ganhou espaço definitivo na alta liderança, com participação direta nas decisões de negócio e na gestão de riscos estratégicos.
Realizada anualmente, a pesquisa mapeia orçamento, estrutura de equipes, governança, adoção de tecnologia e prioridades regulatórias. O estudo funciona como um retrato global da evolução do cargo e como referência para empresas que buscam alinhar jurídico, estratégia e inovação.

O levantamento mostra que 84% dos diretores jurídicos agora se reportam diretamente ao CEO, o presidente executivo. No ano passado, eram 79%. O cargo deixa de ser técnico e se consolida como posição de comando na governança corporativa.
O título de Chief Legal Officer, adotado por 34% das empresas, indica essa mudança. O profissional não atua mais apenas como advogado interno. Passa a integrar a liderança executiva, com influência nas decisões estratégicas e no planejamento de negócios.
A pesquisa revela que o jurídico se tornou o centro da gestão de riscos não financeiros. Sessenta e quatro por cento dos entrevistados supervisionam compliance, área de conformidade regulatória. Sessenta e dois por cento acumulam também a função de secretário corporativo, responsável por interface com o conselho de administração.
A presença no conselho virou regra. Setenta e nove por cento afirmam participar “quase sempre” das reuniões do board, o conselho de diretores. O acesso direto ao órgão máximo de governança se tornou padrão institucional.
Outras notícias: Empresa pode espionar funcionários? LGPD impõe limites
O foco das preocupações mudou. Barreiras ao crescimento e à expansão foram citadas por 20% como principal risco. Questões tradicionais, como litígios e privacidade de dados, aparecem com apenas 4% cada. O jurídico passou a olhar primeiro para o mercado e depois para o processo judicial.
Brasil: regulação mais intensa puxa jurídico para o centro do negócio
No recorte brasileiro, o avanço do papel do diretor jurídico ganha um fator extra: a velocidade com que regras novas surgem depois de crises, pressões setoriais e mudanças no apetite do regulador. “No Brasil as pressões regulatórias podem ser mais intensas, e isso recai sobre a liderança jurídica, o legal officer. Existem novas regulações em função de crises ou eventos adversos que aconteceram e que fizeram com que o regulador subisse a barra”, avalia Antonio Gesteira, diretor executivo sênior da prática de risco, investigações e tecnologia da FTI Consulting.
Para ele, a cobrança é ainda maior em setores que cresceram rápido e agora precisam reforçar governança, controles e prevenção de falhas. “Alguns setores da indústria, como ecossistema de meios de pagamentos por exemplo, cresceram muito rápido e estão em um momento de revisitar os controles e a matriz de riscos”, exemplifica.
Nesse ambiente, a pesquisa ajuda a explicar por que o jurídico deixa de ser visto como área de suporte e passa a operar como parte do comando da empresa, especialmente quando a pauta é tecnologia e risco. “O cenário atual de transformações exige equilíbrio entre o crescimento estratégico e uma gestão de risco cada vez mais sofisticada. O que o estudo nos mostra é que Legal está saindo da esfera do backoffice para o papel de protagonista que pode ajudar a transformar uma organização, que está mais próximo do negócio, do business, mais próximo do CEO da companhia”, afirma.
Geopolítica, IA e orçamento apertado redefinem prioridades do jurídico
O cenário internacional ajuda a explicar essa mudança. Comércio exterior e tarifas foram apontados por 30% como prioridade crescente. A regulação da inteligência artificial apresentou o maior salto anual, com aumento de 21% no grau de preocupação.
Metade dos departamentos jurídicos afirma ter dedicado mais tempo e recursos para lidar com mudanças em políticas públicas, sanções e novas normas internacionais. O ambiente regulatório se tornou mais instável e exige leitura constante do cenário geopolítico.
A inteligência artificial aparece como eixo central dessa transformação. Quarenta e sete por cento disseram que seus CEOs esperam que desenvolvam competências em tecnologia e IA. A habilidade técnica deixou de ser opcional.
Trinta e seis por cento já utilizam inteligência artificial generativa de forma ativa. Mesmo assim, 63% afirmam que não pretendem reduzir equipes. A estratégia é requalificar advogados para funções de maior valor estratégico, aproveitando ganhos de eficiência.
O uso de assessoria externa cresceu. Quarenta e oito por cento aumentaram a contratação de escritórios de advocacia e 27% ampliaram o uso de consultorias. O apoio externo funciona como válvula de escape para lidar com picos de complexidade regulatória.
Ao mesmo tempo, 35% apontam restrições orçamentárias como principal obstáculo. O diretor jurídico é cobrado para liderar transformação digital, mas enfrenta limitações de recursos. Eficiência operacional foi citada por 53% como prioridade número um.
Veja também: Quando o encontro falha: lições de marketing jurídico a partir de uma reunião mal conduzida
A pesquisa indica que o diretor jurídico se tornou figura central na estratégia empresarial contemporânea. Entre pressões geopolíticas, avanços tecnológicos e novas exigências regulatórias, o cargo deixou de ser defensivo e passou a ocupar posição de comando. A área jurídica agora participa da formulação do negócio antes que o risco se transforme em crise.