O colapso da ordem liberal e o retorno da política da força

José Renato Ferraz da Silveira*

Quando Donald Trump retornou – triunfante – à Casa Branca, o mundo amanheceu mais sombrio e incerto. Um ano após a posse, o presidente dos Estados Unidos chega, nesta quarta-feira (21 de janeiro), ao Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, em meio a uma tensão aguda com a Europa. A escalada de declarações hostis, ameaças comerciais e gestos políticos agressivos colocou a Groenlândia no centro de uma crise diplomática que expõe o desgaste profundo da relação transatlântica.
Como afirmou o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, “a Europa age como um náufrago desesperado, em busca de uma tábua de salvação, tentando a todo custo evitar que surja uma nova ordem na qual ela seja apenas uma esfera de influência. Estamos vivendo tempos difíceis”. A imagem é precisa: o continente europeu não enfrenta apenas um desafio conjuntural, mas uma crise estratégica e identitária.
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Acostumada a operar sob o guarda-chuva de segurança norte-americano e a exercer poder normativo em vez de coercitivo, a Europa se vê agora diante de um aliado que passou a agir como uma potência revisionista, disposta a instrumentalizar alianças, territórios e mercados conforme seus interesses imediatos.
A ofensiva americana, sintetizada numa diplomacia agressiva e intimidatória, acabou por redefinir o tom do encontro anual da elite política e econômica global. Davos, tradicionalmente marcado por debates sobre crescimento, governança e cooperação, passou a ser dominado por discussões sobre segurança, soberania e o futuro sombrio da relação transatlântica. A Groenlândia, mais do que um episódio isolado, converteu-se em símbolo dessa nova lógica: território, soberania e alianças deixam de ser princípios e passam a ser fichas de barganha.
Segundo funcionários da Casa Branca, Trump deverá enfatizar em Davos que os Estados Unidos e a Europa precisam deixar para trás a “estagnação econômica” e as políticas que a causaram, além de reafirmar a acessibilidade da moradia como foco central — uma mensagem voltada ao público doméstico pressionado pelo custo de vida.
Ao mesmo tempo, o presidente deve se vangloriar da projeção do poder norte-americano no exterior, incluindo a recente captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e seus esforços para pôr fim a guerras estrangeiras. Trata-se de um discurso que combina nacionalismo econômico, exibição de força e comunicação direta ao eleitorado interno, ainda que ao custo de abalar alianças históricas.
A ordem internacional está em colapso, e o chamado “mundo liberal americano” — previsível, multilateral, baseado em regras e leis – rui a cada ação e discurso de Donald Trump. O que se desenha não é uma transição gradual, mas uma ruptura. Vivemos uma mudança qualitativa no modo como o poder é exercido e legitimado.
A retórica da cooperação cede lugar ao interesse nacional cru; a diplomacia institucional é substituída pela coerção econômica e pela intimidação política; e as normas internacionais são esvaziadas deliberadamente, não para serem reformadas, mas para se tornarem irrelevantes.
Essa ruptura produz sua consequência mais grave: a erosão da previsibilidade. Mesmo rivalidades intensas, quando reguladas por regras compartilhadas, geram estabilidade relativa. O que emerge sob Trump é um sistema opaco, personalista e volátil, no qual decisões estratégicas dependem do cálculo político interno, do humor presidencial e da lógica do confronto permanente. O custo não é apenas geopolítico, mas também econômico, social e institucional.
Nesse cenário, somos constantemente lembrados de que vivemos numa era de rivalidade entre grandes potências, de que a ordem internacional baseada em regras está desaparecendo, de que os fortes fazem o que querem e os fracos sofrem o que devem. O aforismo de Tucídides ressurge como se fosse uma verdade inevitável, a lógica natural das relações internacionais reafirmando-se. Diante disso, cresce a tentação da acomodação: ceder para evitar conflitos, silenciar para preservar mercados, conformar-se na esperança de comprar segurança.
Essa leitura, porém, é enganosa. A ordem liberal não nasceu da ingenuidade moral, mas da experiência histórica de devastação causada por sistemas internacionais regidos exclusivamente pela força. Abandoná-la não é sinal de realismo sofisticado, mas de resignação perigosa. A história mostra que a conformidade raramente garante segurança duradoura; apenas adia o confronto, geralmente em condições piores.
O dilema colocado por Trump ao sistema internacional vai além da relação com os Estados Unidos. Ele questiona se ainda existe disposição política para defender limites ao poder num mundo que parece ter esquecido por que esses limites foram criados. Não vivemos o fim da história, mas o fim de uma ilusão: a de que a ordem liberal era irreversível.
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O que virá a seguir permanece em aberto. O que já é claro é que o mundo que emerge é mais áspero, mais fragmentado e menos seguro – e exigirá escolhas difíceis daqueles que ainda acreditam que a força, sem freios, não pode ser o fundamento legítimo da ordem internacional.
*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).
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