O aprendizado estrutural por trás da criação de novos negócios

Paulo Silvestre de Oliveira Junior*

Porque, na advocacia, construir uma vez muda a organização para sempre…
Existe um padrão que começa a se repetir nas organizações mais maduras. Quem constrói “novos negócios” uma vez tende a construir de novo. E não por entusiasmo, mas porque aprende algo “estrutural” ao longo do caminho.
A advocacia começa a entrar exatamente nesse estágio.
Durante muito tempo, a criação de novas ofertas, produtos ou modelos de serviço foi tratada como exceção. Um projeto especial. Um piloto isolado. Uma iniciativa que dependia de patrocínio individual e, muitas vezes, morria ao primeiro sinal de fricção interna. O resultado foi previsível. Poucos escritórios criaram musculatura real para construir além do core tradicional.
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Isso está mudando…
Os escritórios que deram os primeiros passos para criar novos negócios nos últimos anos passaram a perceber algo importante. Construir não apenas gera novas receitas. Gera capacidade organizacional. E essa capacidade, uma vez desenvolvida, tende a ser reutilizada.
Quem aprende a construir, passa a enxergar oportunidades onde antes só via operação.
Esse movimento ajuda a explicar por que alguns escritórios estão aprofundando suas apostas. Não de forma dispersa, mas com mais método, mais foco e menos dependência de improviso.
Há uma razão para isso. A experiência de construir um novo negócio muda a forma como a organização pensa tempo, risco e retorno. A lógica deixa de ser binária. Deixa de ser “acertar ou errar”. Passa a ser “testar, aprender, ajustar e escalar”. Essa mudança de mentalidade é, por si só, um ativo estratégico.
Na advocacia, isso é particularmente relevante.
Escritórios tradicionalmente operam com estruturas que recompensam estabilidade, previsibilidade e domínio individual. Esse modelo gera excelência técnica, mas tende a criar resistência a experimentação. Quando a construção de novos negócios acontece de forma recorrente, essa resistência diminui. A organização aprende a lidar melhor com incerteza sem comprometer o core.
Outro ponto importante é que o retorno dessas iniciativas vem se materializando mais rápido e com menos investimento do que no passado.
Isso não acontece por acaso. A tecnologia, especialmente a IA, reduziu drasticamente o custo de experimentação. O que antes exigia equipes grandes, ciclos longos e investimentos elevados hoje pode ser testado com estruturas muito mais enxutas. Protótipos são criados rapidamente. Hipóteses são validadas com dados reais. Ajustes acontecem em ciclos curtos.
Esse novo contexto altera profundamente a equação de risco. Construir novos negócios deixou de ser uma aposta longa e rígida. Passou a ser um processo iterativo, com feedback constante e aprendizado incremental. Para escritórios que já passaram por essa experiência uma vez, o próximo ciclo tende a ser ainda mais eficiente.
Por isso, quantidade importa. Escritórios que constroem múltiplas iniciativas desenvolvem um portfólio. E o portfólio reduz risco. Nem toda iniciativa se torna relevante. Nem toda ideia escala. Mas o conjunto gera aprendizado, inteligência e, em muitos casos, novas fontes de receita que passam a representar uma parcela relevante do faturamento total.
Há também uma diferença clara no tipo de negócio que tende a escalar melhor. Iniciativas baseadas em dados, conhecimento estruturado e ativos intelectuais costumam demandar menos capital inicial e atingir o ponto de equilíbrio mais rapidamente do que modelos dependentes de estruturas físicas ou grandes expansões operacionais. Na advocacia, isso se traduz de forma direta.
Escritórios que organizam seu conhecimento, dados de casos, teses, padrões decisórios e experiência acumulada criam condições para desenvolver soluções digitais, produtos jurídicos e modelos híbridos com muito mais eficiência. Não se trata de deixar de lado o trabalho jurídico tradicional, mas de reorganizá-lo de forma que ele possa gerar valor em escala.
Esse ponto conversa diretamente com o Generative AI-Centric Law Firm Model.
O modelo parte da premissa de que IA só gera valor real quando PESSOAS, PROCESSOS, DADOS, CULTURA, TECNOLOGIA e GOVERNANÇA funcionam de forma integrada. Construir novos negócios é, na prática, um teste dessa integração. Escritórios que não têm governança mínima, dados organizados e clareza de papéis tendem a travar. Os que têm essa base conseguem avançar com velocidade.
Outro aspecto pouco discutido é o impacto da IA como acelerador de construção, não apenas de eficiência.
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A IA deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio operacional. Ela passou a atuar como catalisador de novas ofertas. Apoia desde a ideação inicial até a validação de propostas, passando pelo desenho de modelos de negócio, precificação, go-to-market e escala.
Escritórios que utilizam IA de forma mais sofisticada conseguem construir negócios com equipes menores, ciclos mais curtos e maior precisão. A diferença não está na ferramenta em si, mas na maturidade do uso. Escritórios que usam IA apenas para tarefas básicas tendem a obter ganhos incrementais. Os que a usam para repensar modelos e criar novas propostas de valor colhem retornos muito maiores.
Isso ajuda a explicar por que os escritórios mais experientes em construção tendem a ser também os usuários mais avançados de IA.
Há uma relação direta entre maturidade organizacional e capacidade de extrair valor da tecnologia. A IA não substitui estratégia. Ela amplifica a estratégia que já existe. Onde há organização, ela acelera. Onde está desorganizado, ela apenas torna os problemas mais visíveis.
Outro fator crítico é o capital humano.
Ao contrário do que muitos imaginam, o principal diferencial na construção de novos negócios não está no orçamento. Está nas pessoas e na cultura. Escritórios que criam ambientes onde experimentação responsável é incentivada, aprendizado é valorizado e erros pequenos não são punidos tendem a avançar mais rápido.
Isso exige liderança. Exige clareza de direção. Exige patrocínio real. Exige disposição para realocar talentos, inclusive retirando pessoas do core para construir algo novo. Esse movimento raramente é confortável, mas costuma ser decisivo.
A construção de novos negócios também expõe um ponto sensível da advocacia. A governança do conhecimento.
Escritórios que tratam informação como ativo estratégico conseguem construir mais rápido e com menos custo. Aqueles que mantêm conhecimento disperso, dependente de indivíduos e pouco estruturado encontram limites rapidamente. A IA, nesse contexto, atua como espelho. Ela amplifica o que está organizado e expõe o que está fragmentado.
O que se observa, portanto, não é apenas uma tendência de crescimento via novos negócios. É um processo de amadurecimento institucional.
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Escritórios que constroem uma vez aprendem. Os que constroem mais de uma vez evoluem. E os que conseguem transformar essa capacidade em rotina passam a operar em outro patamar de resiliência e relevância. E, cada vez mais, quem constrói uma vez descobre que construir deixa de ser exceção.
Passa a ser parte da identidade organizacional.
*Paulo Silvestre de Oliveira Junior é especialista em desenvolvimento estratégico e inovação no setor jurídico, com mais de 14 anos de experiência em liderar projetos transformadores para departamentos jurídicos e escritórios de advocacia. Graduado em Gestão Estratégica pelo IBTA, possui especializações em Business Innovation e um MBA em Segurança da Informação pela FIAP, além de formação em Inovação Corporativa e Estratégia Digital pelo MIT. É o criador do Generative AI-Centric Law Firm Model, framework pioneiro que orienta a adoção estratégica de IA generativa por escritórios de advocacia e hoje é uma referência global. Atualmente, atua como Diretor de Inovação e Desenvolvimento no Buttini Moraes Advogados e é fundador da Absense Tecnologia e da IT Legal Experts – Innovation & Technology. Autor de “Direito em Transformação – Estratégia e Inovação para Advogados”, Paulo é reconhecido por integrar tecnologia e estratégia para impulsionar a inovação no Direito, inspirando escritórios ao redor do mundo a transformar suas operações.
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