Saúde mental e o impacto para os profissionais médicos: um olhar jurídico e bioético no Janeiro Branco

Camila Cortez*
Nos últimos meses, surgiu uma mudança relevante, mas ainda subestimada, na forma como passamos a tratar a saúde mental no ambiente de trabalho, no Brasil. A atualização da Norma Regulamentadora nº1 (NR-01), ao consolidar o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), representa um divisor de águas ao reconhecer que riscos psicossociais também são riscos que podem ocorrer durante a jornada de trabalho. Para os profissionais da saúde, essa mudança traz impactos profundos, tanto do ponto de vista jurídico quanto ético e institucional.
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OJaneiro Branco é um movimento dedicado à conscientização sobre saúde mental, garantindo o contexto ideal para refletirmos sobre o adoecimento psíquico na medicina e em todo setor da saúde – historicamente marcado por sobrecarga, pressão emocional, jornadas extensas e uma cultura que ainda romantiza o sofrimento em nome do cuidado ao outro.
A NR-01 e a ampliação do conceito de risco no trabalho
A atualização da norma estabelece as disposições gerais de Segurança e Saúde no Trabalho e determina que todo empregador deve identificar, avaliar e controlar todos os riscos capazes de causar danos à saúde do trabalhador. Embora a norma não traga uma lista definida de riscos, as condições psicossociais — como estresse crônico, assédio, metas excessivas, sobrecarga emocional e falta de autonomia — passaram a integrar esse escopo.
Do ponto de vista jurídico, isso significa que o sofrimento mental relacionado ao trabalho deixa de ser tratado como um fenômeno subjetivo ou individual e passa a ser reconhecido como um evento prevenível, que deve ser gerenciado pelas instituições. Para clínicas, hospitais e serviços médicos, trata-se de uma mudança estrutural na forma de gerir pessoas e riscos.
O impacto direto sobre a prática médica
Os médicos estão entre os profissionais mais expostos aos riscos psicossociais: pressão por produtividade, responsabilidade sobre vidas, ambientes de alta complexidade, conflitos éticos, judicialização crescente da medicina e escassez de recursos trazem um cenário propício para danos à saúde mental dos profissionais.
Com a NR-01, esses fatores não podem mais ser ignorados nos documentos formais de gestão de riscos. O PGR deve contemplar, de forma objetiva, situações que afetam a saúde mental dos médicos, bem como medidas preventivas e corretivas. A ausência dessa abordagem pode caracterizar falha no dever de cuidado do empregador, com repercussões trabalhistas, civis e até administrativas.
O mesmo raciocínio também vale para os demais profissionais que atuam no setor de saúde, sendo um ponto de atenção para todos os gestores.
Responsabilidade institucional e cultura organizacional
A atualização da NR-01 reforça a necessidade de coerência entre discurso e prática. Não basta promover campanhas internas sobre bem-estar se a organização mantém estruturas que adoecem seus profissionais. A gestão dos riscos psicossociais exige políticas claras de prevenção ao assédio, capacitação de lideranças, canais seguros de escuta, revisão de jornadas e metas, além de uma cultura que valorize o cuidado com quem cuida.
Do ponto de vista bioético, essa discussão é ainda mais sensível. A medicina se sustenta nos princípios da beneficência e da não maleficência. Permitir (ou negligenciar) ambientes de trabalho que comprometem a saúde mental dos médicos viola esses princípios e compromete, inclusive, a segurança do paciente.
Janeiro Branco: da conscientização à responsabilidade
O Janeiro Branco nos convida a falar sobre saúde mental, mas a NR-01 nos obriga a agir. Para os profissionais médicos, esse movimento representa a oportunidade de transformar um tema historicamente silenciado em uma pauta estratégica de governança, gestão de riscos e responsabilidade institucional.
Além disso, traz a obrigatoriedade de que toda a equipe de saúde também esteja sendo observada no que tange aos riscos psicossociais.
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Como advogada e bioeticista, entendo que estamos diante de um novo paradigma: cuidar da saúde mental dos médicos e da equipe de saúde deixou de ser apenas uma boa prática e passou a ser uma exigência legal, ética e organizacional. Instituições que compreenderem isso não apenas reduzirão riscos jurídicos, mas também fortalecerão sua sustentabilidade, sua reputação e, sobretudo, a qualidade do cuidado prestado à sociedade.
Que este seja o mês não apenas da reflexão, mas da implementação concreta de ambientes de trabalho mais saudáveis, seguros e humanos para quem dedica a vida a cuidar do outro.
*Camila Cortez é advogada, consultora e palestrante especializada em Bioética, Direito Médico e Healthcare Compliance. Fundadora da KCortez Consultoria, atuou por 13 anos como advogada do CREMESP (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo). É mestra e doutoranda em Ciências da Saúde pela Escola Paulista de Medicina da UNIFESP, especialista em Bioética pela FMUSP, em Direito da Medicina pela Universidade de Coimbra e em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura.