Entenda em 13 pontos o acordo Mercosul–União Europeia

Entenda em 13 pontos o acordo Mercosul–União Europeia
Na prática, o acordo inaugura um processo longo de transformação econômica e institucional, que deve se estender por mais de uma década, com efeitos progressivos sobre a indústria, o agronegócio, os serviços, o meio ambiente e a estrutura regulatória dos países envolvidos/União Europeia/Mercosul
Publicado em 10/01/2026 às 11:00

Da redação de LexLegal

A aprovação do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia (UE) pelo Conselho da UE encerra um ciclo de incertezas que se arrastava havia mais de 25 anos. O tratado estabelece as bases para a criação da maior zona de livre comércio do planeta, reunindo cerca de 700 milhões de consumidores e duas das mais relevantes estruturas produtivas do mundo. Do ponto de vista jurídico, trata-se de um tratado internacional amplo, que combina regras de comércio, compromissos ambientais, normas técnicas e obrigações regulatórias, exigindo uma complexa cadeia de ratificações para que passe a produzir efeitos concretos.

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A implementação será gradual e seus impactos não se darão de forma imediata. Na prática, o acordo inaugura um processo longo de transformação econômica e institucional, que deve se estender por mais de uma década, com efeitos progressivos sobre a indústria, o agronegócio, os serviços, o meio ambiente e a estrutura regulatória dos países envolvidos.

1. O que significa a aprovação pelo Conselho da UE

A decisão do Conselho da União Europeia representa a autorização política para que o texto seja formalmente assinado. Não se trata ainda de um aval definitivo do ponto de vista jurídico. É uma etapa que indica que os governos europeus chegaram a um consenso mínimo sobre o conteúdo do tratado e estão dispostos a submetê-lo aos parlamentos. Sem essa aprovação, o acordo sequer poderia ser assinado.

Na prática, é o momento em que o tratado deixa de ser apenas um texto negociado por diplomatas e passa a ingressar na esfera institucional dos poderes legislativos.

2. A assinatura não equivale à entrada em vigor

Mesmo após a cerimônia de assinatura, o acordo não produzirá efeitos imediatos. A assinatura apenas formaliza a intenção política dos blocos. Para que ele se torne válido, é necessário passar por processos de aprovação interna, tanto na Europa quanto nos países do Mercosul.

Essa diferença é fundamental. Muitos acordos internacionais ficam anos entre a assinatura e a efetiva entrada em vigor, exatamente por dependerem de longos processos legislativos.

3. Por que o acordo é considerado “misto” na UE

Na União Europeia, o tratado é classificado como “misto”, porque envolve competências que pertencem tanto ao bloco quanto aos Estados-membros. A política comercial é competência da UE, mas temas como investimentos, meio ambiente, dados e alguns aspectos regulatórios ainda dependem de aprovação nacional.

Isso significa que, além do Parlamento Europeu, cada país europeu poderá ter de ratificar partes do texto em seus parlamentos nacionais. Um único veto nacional pode atrasar ou até inviabilizar a implementação integral do acordo.

4. O caminho de ratificação no Mercosul

No Mercosul, o procedimento também é legislativo. Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai precisarão aprovar o tratado em seus respectivos Congressos. Somente depois disso o acordo poderá produzir efeitos jurídicos internos.

No Brasil, isso envolve a aprovação por meio de decreto legislativo no Congresso Nacional e posterior promulgação pelo presidente da República.

5. A eliminação gradual das tarifas alfandegárias

O núcleo econômico do acordo está na eliminação progressiva de tarifas. O Mercosul se comprometeu a zerar tarifas sobre 91% dos bens europeus em até 15 anos. A União Europeia, por sua vez, eliminará tarifas sobre 95% dos produtos do Mercosul em até 12 anos.

Essa diferença de prazos funciona como um mecanismo de proteção para economias em desenvolvimento, permitindo uma adaptação mais lenta à concorrência externa.

6. O ganho imediato para setores industriais

Alguns setores terão tarifa zero desde o início, como máquinas e equipamentos, automóveis e autopeças, produtos químicos, aeronaves e equipamentos de transporte.

Juridicamente, isso cria um ambiente de previsibilidade para contratos internacionais, reduz custos de importação e exportação e estimula investimentos produtivos voltados à integração com cadeias globais de valor.

7. O sistema de cotas para produtos agrícolas

No campo agrícola, o acordo é mais cauteloso. Produtos como carne bovina, frango, arroz, mel, açúcar e etanol terão cotas de importação. Dentro dessas cotas, a tarifa é reduzida ou eliminada. Fora delas, a tarifa permanece.

Esse modelo impede uma abertura total imediata e funciona como proteção para agricultores europeus, principal foco de resistência política ao tratado.

8. As salvaguardas agrícolas como instrumento de proteção

O acordo permite que a UE reintroduza tarifas temporariamente se houver crescimento excessivo das importações ou queda acentuada de preços.

Esse mecanismo funciona como um seguro jurídico contra desequilíbrios bruscos de mercado e reduz o risco de colapsos setoriais em cadeias produtivas sensíveis.

9. O peso jurídico das cláusulas ambientais

As cláusulas ambientais são vinculantes. Produtos beneficiados pelo acordo não podem estar ligados a desmatamento ilegal. Existe a possibilidade de suspensão do tratado em caso de descumprimento do Acordo de Paris.

Isso transforma o meio ambiente em condição jurídica para o comércio internacional, elevando o nível de exigência ambiental dos países do Mercosul.

10. A manutenção dos padrões sanitários europeus

O acordo não flexibiliza as regras sanitárias da UE. Produtos importados precisarão cumprir padrões rigorosos de segurança alimentar.

Isso garante que a abertura comercial não seja usada para relativizar políticas de saúde pública e proteção do consumidor.

11. Serviços, investimentos e compras públicas

Há redução da discriminação regulatória contra investidores estrangeiros e avanços em serviços financeiros, telecomunicações, transporte e serviços empresariais.

Nas compras públicas, empresas do Mercosul poderão disputar licitações europeias e vice-versa, o que representa uma mudança estrutural no acesso a contratos governamentais.

12. Propriedade intelectual e indicações geográficas

O reconhecimento de cerca de 350 indicações geográficas europeias reforça a proteção de produtos tradicionais. Em troca, produtos do Mercosul também passam a ter proteção ampliada.

O acordo harmoniza regras sobre marcas, patentes e direitos autorais, fortalecendo a segurança jurídica para inovação.

13. O impacto estrutural para o Brasil

Para o Brasil, o tratado pode aumentar exportações, integrar o país a cadeias globais de valor e atrair investimentos estrangeiros. Também impõe desafios regulatórios, ambientais e sanitários.

O acordo não é apenas comercial. Ele funciona como um indutor de reformas internas, exigindo maior previsibilidade jurídica, políticas ambientais mais robustas e modernização regulatória.

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Os próximos passos envolvem a assinatura formal em 17 de janeiro, a aprovação pelo Parlamento Europeu, as ratificações nos parlamentos nacionais europeus e nos congressos do Mercosul. A entrada em vigor só ocorrerá após a conclusão de todos esses trâmites. Até lá, o acordo seguirá sendo mais uma promessa de integração do que uma realidade jurídica plena, ainda que já tenha redesenhado o horizonte das relações comerciais entre América do Sul e Europa.

SÃO PAULO WEATHER