Por que a União Europeia decidiu fechar agora o acordo com o Mercosul?

José Renato Ferraz da Silveira*

Após 25 anos de idas e vindas, a União Europeia finalmente aprovou o acordo de livre comércio com o Mercosul. Não é exagero dizer que se trata de um marco histórico. É o maior acordo comercial já fechado pelo bloco europeu e também um dos processos de negociação mais longos, travados e politicamente sensíveis da sua história recente. O tratado envolve Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai e ficou por décadas preso a resistências internas, disputas setoriais, agendas ambientais conflitantes e mudanças constantes no cenário geopolítico global.
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A aprovação ocorreu nesta sexta-feira (9), em Bruxelas, por maioria qualificada. França, Irlanda e Hungria votaram contra e já avisaram que vão tentar impor obstáculos à implementação, sobretudo por meio de exigências ambientais e pressões políticas domésticas. Ainda assim, o acordo passou. Pelo menos 15 dos 27 países, representando mais de 65% da população da União Europeia, votaram a favor, cumprindo os critérios formais exigidos pelas regras do bloco.
Na próxima semana, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, estará no Paraguai para a assinatura oficial. O gesto tem forte carga simbólica. Não se trata apenas de colocar fim a um processo negociador exaustivo. A assinatura sinaliza uma mudança clara de postura da Europa diante de um mundo mais instável, fragmentado e competitivo.
A pergunta central, porém, é simples: por que agora?
A resposta passa menos por tarifas e mais por geopolítica. A União Europeia demorou décadas para fechar o acordo porque, durante muito tempo, pôde se dar ao luxo da cautela. Esse tempo acabou. O avanço do protecionismo, a crise do multilateralismo, o enfraquecimento da Organização Mundial do Comércio e a reorganização das cadeias globais de valor empurraram Bruxelas para uma decisão que vinha sendo adiada.
Há ainda um fator decisivo: os Estados Unidos. A perspectiva de Donald Trump reassumir um papel central e agressivo na política comercial internacional funcionou como um gatilho. Trump já deixou claro, em declarações recentes, que pretende disputar mercados, influência política e cadeias produtivas na América Latina de forma direta, sem o verniz diplomático tradicional. Para a Europa, esperar mais significava correr o risco de perder espaço de forma definitiva.
O acordo com o Mercosul, portanto, não é apenas um tratado comercial. É uma resposta estratégica a um cenário global mais duro. Ao avançar com o bloco sul-americano, a União Europeia sinaliza que não quer ficar de fora da disputa por mercados no chamado Sul Global, nem abrir mão de influenciar padrões regulatórios, ambientais e comerciais fora de seu território.
Isso não significa que o acordo seja consenso interno. Longe disso. A resistência francesa continua sendo o maior obstáculo político. Produtores rurais da França veem o Mercosul como ameaça direta, especialmente no setor agropecuário. O discurso ambiental também tem peso, mas muitas vezes funciona como instrumento político para proteger mercados internos. Irlanda e Hungria seguem lógica semelhante, ainda que por motivos distintos.
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Essas tensões não desaparecem com a aprovação formal. Pelo contrário. Elas se deslocam para a fase mais delicada: a implementação. É nessa etapa que surgem exigências adicionais, mecanismos de controle mais rígidos e tentativas de reinterpretar cláusulas já negociadas. O acordo nasce aprovado, mas sob vigilância permanente.
Para o Mercosul, o tratado representa uma oportunidade real, mas também um teste. O acesso ampliado ao mercado europeu pode impulsionar exportações, investimentos e integração às cadeias globais. Ao mesmo tempo, expõe fragilidades conhecidas, como dificuldades de adaptação regulatória, entraves logísticos e dependência excessiva de commodities. O acordo não resolve esses problemas por si só. Apenas torna mais visível a urgência de enfrentá-los.
Há também um ponto que costuma ficar fora do debate público: o acordo muda a posição relativa do Mercosul no tabuleiro internacional. Em um mundo menos cooperativo e mais competitivo, estar vinculado ao maior bloco econômico do planeta é um ativo político. Não garante sucesso automático, mas amplia margem de manobra diplomática e econômica.
Para a União Europeia, o desafio é outro. O bloco sempre se apresentou como defensor do multilateralismo, das regras e da cooperação. Nos últimos anos, porém, tem sido forçado a agir de forma mais pragmática. O acordo com o Mercosul reflete essa transição. A Europa escolheu o engajamento em vez do isolamento, mesmo sabendo que isso cobra custos políticos internos.
O verdadeiro teste começa agora. Assinar é apenas o primeiro passo. Implementar exige decisões concretas, concessões reais e capacidade de sustentar uma estratégia de longo prazo. Exige também coerência entre discurso e prática, especialmente na área ambiental. Se o acordo virar apenas um instrumento de pressão seletiva, perde credibilidade. Se for tratado como parceria estratégica, pode redefinir relações entre Europa e América do Sul.
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Depois de 25 anos, o acordo UE–Mercosul finalmente saiu do papel. Não por idealismo, mas por necessidade. Em um mundo em transformação acelerada, adiar decisões estratégicas passou a ter um custo alto demais. A Europa entendeu isso. Resta saber se terá fôlego político para sustentar a escolha quando as tensões internas apertarem e o acordo deixar o plano simbólico para se tornar realidade concreta.
*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).
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