Invasão dos EUA à Venezuela muda o tabuleiro da geopolítica sul-americana

José Renato Ferraz da Silveira*

A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de autorizar um ataque militar direto contra a Venezuela rompe um limite que vinha sendo respeitado, ainda que de forma tensa, na política sul-americana. Ao confirmar bombardeios em Caracas e em outras cidades e afirmar que Nicolás Maduro e sua esposa foram capturados e retirados do país, Washington deixa claro que está disposto a usar força aberta para moldar governos considerados inconvenientes aos seus interesses.
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Não se trata de mais um episódio retórico ou de pressão diplomática. O que está em curso é uma mudança concreta de método. Durante anos, os Estados Unidos atuaram na Venezuela por meio de sanções econômicas, isolamento político, reconhecimento seletivo de lideranças opositoras e operações indiretas. Agora, o uso explícito da força militar coloca a região diante de um cenário novo, mais instável e difícil de administrar.
O governo venezuelano reagiu decretando estado de emergência. A vice-presidente Delcy Rodríguez afirmou que não há informações sobre o paradeiro de Maduro e exigiu do governo americano uma prova de vida do presidente. A simples existência desse impasse já revela o grau de ruptura institucional provocado pela operação.
O problema jurídico que ninguém consegue contornar
Do ponto de vista do direito internacional, a situação é desconfortável até para aliados históricos dos Estados Unidos. A Carta das Nações Unidas é clara ao proibir o uso da força contra a soberania e a integridade territorial de um Estado. As exceções são restritas e conhecidas: legítima defesa imediata ou autorização expressa do Conselho de Segurança da ONU.
Nada indica, até agora, que qualquer uma dessas hipóteses tenha sido formalmente acionada. O argumento apresentado por Trump, centrado no combate ao narcotráfico e à migração irregular, não encontra respaldo automático no direito internacional para justificar ataques militares e a captura de um chefe de Estado estrangeiro.
Na prática, cria-se um precedente perigoso. Se o combate a crimes transnacionais passar a autorizar intervenções armadas unilaterais, o sistema internacional perde previsibilidade. O que hoje é usado contra a Venezuela pode, amanhã, ser invocado em outros contextos, por outros países, com justificativas semelhantes.
A Doutrina Monroe sem disfarces
A ofensiva confirma algo que já vinha sendo sinalizado: a política externa de Trump para a América Latina representa um retorno explícito à lógica da Doutrina Monroe. A ideia de que o hemisfério ocidental deve permanecer sob influência direta dos Estados Unidos reaparece sem grandes preocupações com a retórica multilateral que marcou décadas anteriores.
Nos últimos meses, Washington reforçou sua presença militar no Caribe, deslocou porta-aviões, navios de guerra e caças, ampliou sanções econômicas e anunciou bloqueios ao petróleo venezuelano. Trump também afirmou ter autorizado operações de inteligência dentro do território da Venezuela e classificou cartéis latino-americanos como organizações terroristas, criando uma base política para o uso da força.
Essa estratégia é direta e pouco sofisticada no discurso, mas altamente eficaz no impacto. Trata-se de hard power em estado puro. Ataques a embarcações, apreensões de petroleiros e bombardeios passam a ser tratados como ferramentas normais de política externa. Não por acaso, essas ações já vinham sendo criticadas por governos da região e por organismos internacionais como execuções extrajudiciais disfarçadas de combate ao crime.
O choque para a América do Sul
A invasão da Venezuela obriga os países sul-americanos a encarar uma realidade incômoda: a arquitetura de segurança regional sempre dependeu, em maior ou menor grau, da postura dos Estados Unidos. Quando essa postura muda, o vazio estratégico aparece.
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Governos da região agora precisam decidir como reagir. Condenar a ação significa defender princípios históricos, mas pode gerar retaliações diplomáticas ou econômicas. Apoiar, ainda que de forma silenciosa, significa aceitar a normalização da força como instrumento de reorganização política regional.
No caso do Brasil, o dilema é ainda mais evidente. O país construiu sua política externa sobre pilares claros: não intervenção, autodeterminação dos povos e solução pacífica de controvérsias. Uma ação militar estrangeira em sua vizinhança imediata testa esses princípios como poucas vezes na história recente.
Ficar em silêncio pode ser lido como conivência. Uma condenação dura pode tensionar a relação com Washington em um momento sensível. O desafio brasileiro será sustentar uma posição própria, sem cair no isolamento e sem abrir mão de sua coerência histórica.
No plano concreto, os impactos não demoram a aparecer. A instabilidade venezuelana afeta diretamente a fronteira norte do Brasil. Uma operação militar desse porte tende a provocar novos fluxos migratórios, a circulação de grupos armados irregulares e o fortalecimento de redes criminosas que se aproveitam do caos institucional.
Isso exigirá do Estado brasileiro mais presença na região amazônica, mais coordenação entre Forças Armadas, Polícia Federal e autoridades civis, além de uma resposta humanitária consistente. É uma equação cara, politicamente sensível e difícil de executar em um ambiente interno marcado por restrições fiscais e disputas políticas.
Toda escalada militar cobra seu preço da população civil. A Venezuela já enfrenta uma crise social profunda, e uma intervenção armada tende a agravar o sofrimento cotidiano. O Brasil, que nos últimos anos acolheu um grande número de refugiados venezuelanos, poderá novamente ser pressionado a ampliar sua atuação humanitária.
Isso significa mais recursos, mais coordenação federativa e maior dependência de apoio internacional. Em um cenário de orçamento apertado e ambiente político polarizado, essa resposta não será simples.
O reflexo dentro do Brasil
A ação dos Estados Unidos também reverbera no debate interno brasileiro. A opinião pública tende a se dividir entre leituras ideológicas opostas, reativando discussões sobre imperialismo, democracia, direitos humanos e alinhamentos internacionais. As redes sociais já mostram esse embate, que pressiona o governo a se posicionar rapidamente.
O risco é transformar política externa em combustível para polarização doméstica. Administrar esse ruído será tão importante quanto lidar com os efeitos diplomáticos externos.
Se a captura de Nicolás Maduro se confirmar, a América do Sul entra em um território pouco explorado desde o fim da Guerra Fria. O uso aberto da força por uma potência externa redefine regras, enfraquece normas jurídicas e amplia a instabilidade regional.
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Para o Brasil, o desafio central será agir como fator de equilíbrio. Defender a legalidade internacional, preservar seus interesses nacionais e evitar que a região mergulhe em uma lógica de confrontos permanentes. Em um cenário em que a força volta a falar alto, insistir na política como instrumento legítimo de mediação deixa de ser idealismo e passa a ser necessidade estratégica.
*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).
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