Papa Leão XIV celebra primeiros ritos de Natal e reforça apelo por paz global

Papa Leão XIV celebra primeiros ritos de Natal e reforça apelo por paz global
Papa Leão XIV durante celebração na Basílica de São Pedro, no Vaticano, na véspera do Natal/Vatican News
Publicado em 25/12/2025 às 8:00

Da redação de LexLegal

O papa Leão XIV celebrou, pela primeira vez como pontífice, os ritos de Natal na Basílica de São Pedro, no Vaticano. A cerimônia ocorreu em meio a um cenário internacional marcado por conflitos armados e deve reforçar a mensagem de paz que o líder da Igreja Católica vem difundindo nos últimos dias, com referências a guerras em curso no Sudão, na Ucrânia e na Faixa de Gaza.

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A tônica do discurso já havia sido antecipada na mensagem preparada para 1º de janeiro, data em que a Igreja celebra o Dia Mundial da Paz. No texto, divulgado previamente, Leão XIV defendeu uma paz “desarmada e desarmante” e incentivou a construção de uma cultura de paz tanto na vida doméstica quanto no espaço público.

Ao tratar do tema, o papa apelou diretamente a cristãos e, em especial, a autoridades políticas, sugerindo que se inspirem na trajetória de Jesus Cristo, descrita por ele como uma luta conduzida sem armas. O pontífice também criticou a intensificação da corrida armamentista, com o aumento dos gastos militares e a disseminação de discursos que alimentam a sensação permanente de ameaça e a ideia de que a segurança depende do uso da força.

Outro ponto de destaque da mensagem foi a condenação do uso bélico da inteligência artificial. Segundo Leão XIV, a tecnologia tem contribuído para agravar tragédias em conflitos armados. Ele citou o emprego de drones guiados por IA em operações militares em Gaza, utilizados para vigilância, intimidação e ataques.

“Está-se a delinear até mesmo um processo de desresponsabilização dos líderes políticos e militares, devido ao crescente ‘delegar’ às máquinas as decisões relativas à vida e à morte das pessoas”, alertou o papa.

Em outro trecho, o pontífice afirmou que “é uma espiral de destruição sem precedentes, que compromete o humanismo jurídico e filosófico do qual qualquer civilização depende e pelo qual é protegida”, ao se referir ao avanço de tecnologias militares autônomas.

Há cerca de sete meses à frente da Igreja Católica, Leão XIV tem buscado estimular, por meio de suas mensagens, a cooperação entre as nações, baseada no diálogo e na confiança mútua. Ele também defende que as pessoas cultivem, além da oração, o diálogo com diferentes tradições religiosas e culturais.

“Em todo o mundo, é desejável que cada comunidade se torne uma ‘casa de paz’, onde se aprende a neutralizar a hostilidades através do diálogo, se pratica a justiça e se conserva o perdão”, afirmou.

Para o papa, “hoje, mais do que nunca, é preciso mostrar que a paz não é uma utopia, através de uma criatividade pastoral atenta e generativa”.

Líderes de outras religiões reforçam apelo

No Brasil, país de maioria católica e com crescimento expressivo da população evangélica, a mensagem do papa repercutiu entre lideranças religiosas de diferentes tradições. O teólogo e pastor batista Marco Davi de Oliveira avaliou que o pontífice foi bem-sucedido ao provocar uma “profunda reflexão sobre a paz” para a abertura de 2026.

Segundo ele, o processo começa no plano individual. “Muitas vezes, atitudes violentas são reflexo de guerras interiores e de falta de Justiça”, afirmou, ao mencionar um trecho do Livro de Isaías.

“O papa está correto em falar da paz desarmante. Ele nos ajuda a compreender que devemos usar todas as nossas estratégias, nossa fé, nossa compreensão de mundo, para produção da paz. Primeiro, em nós mesmos, e, depois, no outro”, disse.

Para o pastor, trata-se de uma construção de médio e longo prazo, baseada no respeito e na alteridade. “A produção da paz não é necessariamente uniforme. Mas, se há vontade, há jeito, no Brasil e no mundo.”

Avaliação semelhante foi feita pelo pastor e cantor gospel Kleber Lucas, que vê na postura de Leão XIV a continuidade do legado do papa Francisco, ao chamar atenção para a urgência da paz em escala global.

“A partir do momento que ele coloca essas reflexões, ele acaba sendo um agente do Reino de Deus em um mundo que precisa praticar mais a paz”, afirmou. “Praticar a paz é um desafio do nosso tempo, através do diálogo, do respeito, da tolerância, de uma prática cotidiana de conciliação.”

Representando a Federação Brasileira Espírita, o vice-presidente Geraldo Campetti também destacou que a paz está no centro das “bem-aventuranças da felicidade” e ganha ainda mais relevância diante do atual cenário de conflitos.

“A paz é uma conquista que a gente deve empreender todos os dias na nossa vida”, afirmou. “O papa foi certo na sua análise, e o espiritismo vai na mesma sintonia, porque todos nós queremos ser felizes, não é? E não há como ser feliz plenamente se não houver paz.”

Campetti ressaltou que o primeiro passo é a transformação pessoal. “Muitas vezes, criamos muros, por preconceito, por julgamentos, e a gente precisa aprender a ter um olhar mais inclusivo, tal qual Jesus nos ensinou, de entendimento, de busca de uma relação fraternal, entre as pessoas e os povos.”

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Já o babalaô Ivanir dos Santos, interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, afirmou que grandes lideranças religiosas convergem na defesa de um ambiente de harmonia, diálogo e respeito. Para ele, a mensagem do papa é pertinente, especialmente em um contexto no qual a fé tem sido instrumentalizada para disputas políticas e discursos de discórdia. Ivanir defendeu que o apelo papal se traduza em ações concretas. “O papa fala em uma direção, mas tem autoridades cristãs católicas que têm ação diferente”, afirmou.

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