A nova advocacia: eficiência e segurança jurídica na era da IA generativa

A nova advocacia: eficiência e segurança jurídica na era da IA generativa
A IA não elimina o papel do advogado, ela devolve ao advogado o tempo e o foco necessários para exercer o que há de mais humano na profissão, o raciocínio estratégico/Freepik
Publicado em 22/12/2025 às 3:00

Guilherme Bordon*

A Inteligência Artificial vive um momento de evolução acelerada. Em muitos casos, o entusiasmo com suas possibilidades tem superado a compreensão dos riscos envolvidos. No Direito, essa assimetria entre potencial e responsabilidade se torna ainda mais sensível.

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Os modelos generativos mais conhecidos, como os desenvolvidos por empresas como Anthropic, OpenAI, Google e Grok, são extraordinários do ponto de vista computacional. No entanto, foram treinados com grandes volumes de dados públicos e operam a partir de um funcionamento essencialmente probabilístico, sua lógica é prever a próxima palavra.

Isso significa que esses modelos não “sabem” no sentido jurídico do termo, eles criam. E, ao criar, podem inventar fatos, jurisprudências, documentos e até provas. Esse fenômeno é conhecido como alucinação.
O que pode parecer inofensivo em contextos de entretenimento se torna extremamente perigoso quando aplicado à prática jurídica.

Recentemente, por exemplo, um ministro do Supremo Tribunal Federal identificou que uma peça processual continha informações inexistentes geradas por IA, resultando em uma multa de R$ 500 mil. Nos Estados Unidos, há casos de advogados que perderam a licença profissional após apresentarem petições baseadas em jurisprudências fabricadas por modelos generalistas. Esses episódios não são exceções pontuais, são sintomas de uma tecnologia poderosa que exige rigor técnico, governança e responsabilidade para ser utilizada com segurança.

Eu não acredito que modelos generalistas sejam capazes, sozinhos, de atender às exigências dos escritórios de advocacia e dos departamentos jurídicos. Por isso, penso que é preciso lançar mão de arquiteturas específicas para cada escritório, respeitando suas particularidades, seus clientes, suas teses vencedoras e seu histórico de atuação.

Dentro de um mesmo escritório, cada cliente possui uma configuração própria, e a tecnologia precisa refletir essa realidade. Além disso, trabalhamos com bases de conhecimento extremamente restritas e controladas. Quanto mais precisa e delimitada a base, menor o risco de alucinação. Essa é a única forma de garantir que a IA opere com lastro jurídico real, e não a partir de inferências criativas.

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O objetivo central dessa arquitetura é simples, unir otimização de tempo com segurança jurídica. Quando aplicada corretamente, a IA generativa é capaz de ler grandes volumes de documentos, analisar material probatório complexo, interpretar recibos, prints, mensagens de WhatsApp, vídeos e áudios, e relacionar tudo isso aos pedidos da inicial, às teses vencedoras e às jurisprudências relevantes.

A partir desse cruzamento de informações, a tecnologia consegue estruturar, por exemplo, uma pré-contestação robusta, coerente e alinhada ao histórico do escritório. Isso libera o advogado para aquilo que realmente importa, analisar o raciocínio, validar a estratégia e elevar a qualidade da peça final.
Essa transformação tem impacto direto no contencioso de volume.

Antes, um fluxo completo exigia diversas personas, pesquisador, analista de provas, redator, coordenador de equipe e revisor. Hoje, com uma IA especializada, uma única pessoa consegue conduzir esse fluxo com mais eficiência, consistência e precisão.

A tecnologia não substitui o advogado, ela o potencializa. O que ocorre no Direito é semelhante ao que já aconteceu na medicina. Houve um momento em que se dizia que o oncologista seria substituído pela IA. O que se viu, na prática, foi o oposto, o profissional que não incorporou a tecnologia ficou para trás. No Direito, o mesmo movimento já está em curso. O advogado que não aprender a trabalhar com IA tende a ser substituído por quem soube utilizá-la com eficiência e responsabilidade.

O futuro da advocacia já começou e ele exige critério. Modelos generalistas são impressionantes, mas não foram desenvolvidos para atender às demandas do Direito. A prática jurídica exige precisão, rastreabilidade e governança.

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Quando isso acontece, o resultado é claro, mais eficiência, mais qualidade e, acima de tudo, mais segurança jurídica. A IA não elimina o papel do advogado, ela devolve ao advogado o tempo e o foco necessários para exercer o que há de mais humano na profissão, o raciocínio estratégico.

*Guilherme Bordon é CEO da eLaw.

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