Engenharia de prompts: o idioma da IA cada vez mais próximo da advocacia

Engenharia de prompts: o idioma da IA cada vez mais próximo da advocacia
Expansão da engenharia de prompts, embora promissora, suscita desafios éticos consideráveis na advocacia/Freepik
Publicado em 15/12/2025 às 12:30

Luan Henrique Dornelas*

O século XXI inaugurou um novo tipo de linguagem, um idioma pelo qual é possível se comunicar, de forma efetiva, com as interfaces de Inteligência Artificial. Nesse cenário, a engenharia de prompts desponta como um campo em que a precisão linguística, a lógica argumentativa e a técnica discursiva tornam-se instrumentos indispensáveis de mediação entre o humano e o algoritmo. Trata-se, assim, da arte de formular instruções claras, estratégicas, e, na advocacia, juridicamente estruturadas, para que sistemas como GPT, Gemini ou Claude executem tarefas complexas com fidelidade semântica.

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Ao observar essa dinâmica, a semelhança com a prática da advocacia torna-se evidente. O profissional da advocacia, ao redigir uma petição, estrutura o raciocínio jurídico de modo lógico, evitando ambiguidades que possam comprometer o sentido da argumentação. De igual forma, o engenheiro de prompts estrutura textos que orientam a IA a produzir respostas exatas, consistentes e alinhadas à intenção do usuário final. Ambos atuam, em essência, sobre a mesma matéria-prima: a linguagem como instrumento de persuasão e precisão.

Para entender a engenharia de prompts, vamos começar pelo conceito. Em termos descomplicados, um prompt é uma instrução textual dada a uma IA para gerar uma resposta. Um prompt simples, como “Conte uma história sobre um cachorro”, pode resultar em algo genérico. Porém, ao adicionarmos precisão, o prompt vira um “contrato linguístico”, definindo escopo, tom e extensão, evitando desvios: “Conte uma história de aventura sobre um cachorro da raça pastor alemão chamado Carlinhos, que descobre um tesouro ideológico nas colinas da antiga Prússia, incorporando elementos de suspense e lições sociais, com cerca de 500 palavras”.

Da mesma forma, técnicas que induzem a justificativa em etapas, ainda que o raciocínio passo a passo possa ser exibido apenas internamente ao sistema e não necessariamente ao usuário final, tendem a melhorar a consistência em tarefas complexas, e incentivam a IA a raciocinar passo a passo. Estudos indicam que essa abordagem aumenta a precisão das respostas em tarefas complexas, como análise de conhecimento, com frameworks como prompts simples combinados com ontologias, alcançando melhores resultados.

Outro paralelo é o uso de precedentes. Na advocacia, os profissionais citam casos anteriores para embasar argumentos. Na engenharia de prompts, você também pode incluir exemplos. Isso ajusta o comportamento da IA no próprio contexto, por meio de exemplos incluídos no prompt, reduzindo as chamadas alucinações, que são respostas inventadas ou incorretas. Embora o efeito dependa do contexto de uso, pesquisas indicam que prompts bem elaborados levam a respostas mais precisas e relevantes.

O ponto de partida da engenharia de prompts é a formulação de uma instrução textual clara. Um uso simples, como “Explique o conceito de justiça”, tende a gerar uma resposta genérica. Porém, um comando estruturado, como: “Elabore uma análise crítica do conceito de justiça em Aristóteles, relacionando-o à aplicação do princípio da equidade no direito civil brasileiro contemporâneo”, define contexto, escopo e objetivo. O efeito é semelhante à delimitação dos fundamentos jurídicos e do pedido em uma peça exordial.

Essa analogia não é meramente retórica. A IA responde ao texto com base em inferências probabilísticas derivadas de seu treinamento, pois, quanto mais claro o raciocínio humano, mais coerente será o raciocínio da máquina. É o mesmo princípio que rege o Direito: a clareza na norma gera previsibilidade na aplicação.

Além disso, há uma correspondência direta entre a cadeia de raciocínio lógico empregada pelos profissionais do direito e a técnica conhecida como a supracitada “chain-of-thought prompting”, na qual o usuário orienta a IA a raciocinar passo a passo. Um exemplo ilustrativo seria: “Primeiro, identifique o problema jurídico; depois, apresente possíveis interpretações; e, por fim, conclua com base no princípio aplicável”.

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A expansão da engenharia de prompts, embora promissora, suscita desafios éticos consideráveis. O primeiro deles é o viés algorítmico. Prompts mal formulados ou não inclusivos podem reforçar estereótipos existentes nos dados de treinamento das IAs. Por exemplo, um comando genérico como “Liste líderes empresariais de sucesso” pode resultar em respostas predominantemente masculinas, brancas e ocidentais. Para evitar isso, o engenheiro de prompts deve incluir diretrizes de diversidade: “Considere diversidade de gênero, origem geográfica e atuação setorial”.

A ética na engenharia de prompts exige o mesmo rigor que a deontologia jurídica: toda formulação deve respeitar, precisamente, critérios de veracidade, proporcionalidade e responsabilidade social.

Por fim, há um debate filosófico mais amplo: até que ponto a máquina pode participar da argumentação jurídica? A IA não interpreta a realidade sob o prisma axiológico, mas sob um prisma estatístico. Cabe, dessa forma, ao profissional humano garantir que o uso da linguagem artificial não substitua a dimensão ética e valorativa do Direito, sob pena de reduzir a Justiça a um cálculo probabilístico.

De acordo com a Precedence Research (2025), o mercado global de engenharia de prompts deve crescer cerca de 32,9% ao ano entre 2025 e 2034, impulsionado por diversos setores, entre eles o jurídico e o de
compliance.

No Brasil, a expansão dessa prática poderá impactar profundamente o Poder Judiciário. Tribunais que já utilizam inteligência artificial, como o Supremo Tribunal Federal, por meio do sistema “Victor”, podem integrar módulos de prompts explicativos capazes de sintetizar autos, identificar precedentes e propor minutas de decisão.

Isso, contudo, não substitui o magistrado, mas o auxilia hermeneuticamente, fornecendo panoramas argumentativos rápidos e contextualizados. Ao mesmo tempo, surgem dilemas éticos sobre a autoria e a responsabilidade.

Se uma decisão judicial for redigida parcialmente por IA, quem responde pelo conteúdo? O operador do sistema, o engenheiro de prompts ou o magistrado? Essas questões compõem o novo campo do Direito Algorítmico, que ainda está em fase inicial de regulação e de reflexão teórica mais aprofundada.

Essa aproximação entre advocacia e IA representa mais do que uma convergência técnica, pois é uma reconfiguração epistemológica do próprio papel da linguagem na sociedade. O texto jurídico e o prompt de IA compartilham a mesma essência: ambos buscam ordenar o caos do discurso, transformar incertezas em previsibilidade e conduzir o diálogo à racionalidade.

Ao passo que a Inteligência Artificial se torna mais sofisticada, o domínio da linguagem de forma clara, estruturada e argumentativa será um grande diferencial. No futuro, escrever bem significará pensar em código humano para máquinas, uma competência que, ironicamente, resgata o valor mais antigo da advocacia: o poder da palavra.

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Assim como a retórica clássica moldou a democracia ateniense, a engenharia de prompts moldará a democracia digital, em um espaço no qual a justiça se expressará não apenas por magistrados e leis, mas também por algoritmos guiados pela precisão da linguagem humana.

*Luan Henrique Dornelas é advogado do Rolim Goulart Cardoso.

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