CONVERSA DE MANAGING PARTNER
Fernando Serec, do TozziniFreire: “A arbitragem brasileira criou um modelo próprio e competitivo”

Luciano Teixeira – São Paulo
Fernando Eduardo Serec ocupa hoje uma das posições mais estratégicas do mercado jurídico brasileiro. CEO do TozziniFreire e responsável pelas áreas de Contencioso e Arbitragem, ele reúne uma trajetória que atravessa três décadas de transformação da advocacia empresarial, marcada pela consolidação da arbitragem no Brasil, pela profissionalização da gestão dos escritórios e pelo aumento da complexidade dos litígios envolvendo grandes grupos econômicos.
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Em entrevista a LexLegal, Serec fala menos sobre cargos e mais sobre escolhas. Relembra o momento em que percebeu que advogar e gerir um escritório deixaram de ser funções separadas e passaram a caminhar juntas, em um ambiente que exige decisões institucionais, leitura de cenário econômico e capacidade de lidar com pessoas, conflitos internos e expectativas de longo prazo.
Com atuação no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa, Serec participou de disputas relevantes em arbitragens internacionais e contenciosos estratégicos envolvendo contratos financeiros complexos, operações de fusões e aquisições, infraestrutura, seguros, projetos de construção e direito administrativo. Ao longo da conversa, ele contextualiza como essas experiências moldaram sua visão de liderança e influenciam diretamente a forma como o escritório toma decisões hoje.
O executivo também analisa a evolução do modelo de escritório full service no país, os limites do crescimento acelerado, a pressão por profissionalização da gestão, o impacto da tecnologia e da inteligência artificial, além das mudanças na relação entre advogados, clientes e o próprio conceito de prestação de serviços jurídicos de alto valor.
LexLegal: Antes de assumir como CEO, quando você percebeu que gestão virou parte central da sua atuação, além do trabalho jurídico?
Fernando Serec: Eu entrei no escritório na área fiscal, em 1992. Naquela época, arbitragem ainda não era um tema. O escritório vinha em crescimento muito grande, com privatizações, trabalhando muito para o governo e para o BNDES. Quando eu entrei, começamos a mudar e a trabalhar com clientes estrangeiros interessados nas empresas. Primeiro siderurgia, depois petroquímica. Eu peguei essa onda. O escritório mexia no plano de carreira, desenhava o primeiro plano. Eu era mais ou menos o 20º advogado. Virei sócio no fim de 1995, efetivo a partir de 1996.
LexLegal: E a gestão entrou como na sua vida?
Fernando Serec: A ideia foi que um dos três novos sócios participaria do comitê executivo. Eu convenci os outros dois de que eu era a melhor pessoa para isso, mesmo com menos tempo de casa. Eu sempre gostei. Tem um pouco de gostar de mandar, tem um pouco de gostar de participar das discussões. Era um escritório muito de dono. A gente perdia votações, prevalecia a vontade do dono. Isso foi me dando experiência. Depois veio eleição para algumas vagas do comitê executivo, e eu fui eleito em todas as situações. De 1996 para cá, eu só fiquei fora da administração por um ano.
LexLegal: O que mudou no escritório ao longo desse período?
Fernando Serec: Sempre teve a ideia de que a gente quer ser um escritório de advocacia, respeitando as regras. Mas precisa se organizar como empresa. Trouxemos, no início, um sócio administrador que não atuava como advogado. Depois vieram diretor de marketing, diretor de recursos humanos, diretor financeiro. Essa profissionalização acontece do fim de 1995 para frente. E a gente começou a planejar a sucessão. Assinamos um acordo de sócios definindo aposentadoria aos 65 e a possibilidade de, chegando aos 65, o sócio ser convidado pelo comitê executivo para permanecer com uma função específica, técnica ou administrativa.
LexLegal: Quais aprendizados do contencioso e da arbitragem influenciaram suas decisões como gestor?
Fernando Serec: Negociação sempre faz parte do nosso trabalho. O final é chegar numa solução em que o cliente esteja numa posição melhor e resolver a disputa. Isso ajuda a olhar para o outro lado, entender forças e fraquezas, por que o conflito está acontecendo. E isso ajuda a resolver problemas dentro do escritório. Diria que 80% do nosso tempo é lidar com gente: lidar com sócio, vaidade, problemas das pessoas. A empatia funciona tanto no contencioso e arbitragem quanto na administração.
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LexLegal: Como você equilibra a função executiva com atuação técnica em casos complexos?
Fernando Serec: A gente definiu no escritório que, mesmo tendo atividades de administração, isso é uma obrigação a mais. Não é porque você administra que deixa de ter obrigação de trazer cliente, responder anseios do cliente, tocar os assuntos. Eu sempre me administrei para fazer as duas coisas. E uma alimenta a outra. Eu ficaria frustrado só na administração e também ficaria frustrado só na técnica. Tem meses mais pesados de administração: dezembro, janeiro, fevereiro. Tem orçamento, avaliação de sócios, estratégia, decisão sobre contratar, crescer, restringir investimentos. Nos outros meses eu consigo equilibrar melhor.
LexLegal: Que decisões de gestão foram importantes para crescer com consistência institucional?
Fernando Serec: A profissionalização da administração sempre foi importante. A gente quis ser benchmark em tecnologia, sempre investiu muito. Desde os fundadores. Também pensamos em inclusão e diversidade como tema importante, porque isso melhora a compreensão dos problemas dos clientes e faz parte da cultura do escritório.
LexLegal: Entre os casos marcantes da sua carreira, quais você destacaria?
Fernando Serec: É quase como filho, é duro escolher. Vou citar dois. Um caso envolvendo a Abengoa, em que o nosso cliente era Adriano Ometto. Tivemos uma arbitragem no Brasil que ganhamos e duas arbitragens nos Estados Unidos que perdemos. Tentamos anular decisões em Nova York e depois atuamos no STJ para evitar homologação das sentenças arbitrais. Esse caso me deixou mais conhecido no mundo arbitral. E um caso da Colgate, sobre autuação do Banco Central ligada à aquisição da Kolynos. Foi muito intenso e uma vitória importante.
LexLegal: Em disputas com múltiplas jurisdições, qual foi o principal desafio técnico ou cultural?
Fernando Serec: Eu vivi o nascimento da arbitragem no Brasil. Era incipiente antes da lei e antes de 2001, quando houve discussão no Supremo sobre constitucionalidade de artigos. A arbitragem se desenvolveu bastante, os casos aumentaram. O desafio foi adaptar práticas internacionais. Por exemplo, oitiva de testemunha e o que se chama de cross-examination, perguntas para a testemunha da outra parte.
A gente adaptou: ficou algo entre o europeu e o brasileiro, menos agressivo que o americano, mas mais firme do que no sistema judicial. Existe exigência de elegância na arbitragem, mas você tem que ser firme na defesa do cliente. Acho que o sistema foi ganhando um jeito brasileiro de fazer arbitragem. E não acho que a gente deva nada para escritório estrangeiro. Já enfrentamos e trabalhamos em igualdade.
LexLegal: Que competências viraram obrigatórias para quem atua em litígios complexos e arbitragem de alto valor?
Fernando Serec: Entender o negócio do cliente. Não adianta ser o advogado que acha que tem a verdade absoluta e não deixa o cliente participar. Você precisa construir o caso com o cliente e entender onde o cliente quer chegar. Conhecer o negócio é obrigação, para advogado técnico e para advogado gestor.
LexLegal: Como você olha para a saúde do escritório, do ponto de vista financeiro, jurídico e cultural?
Fernando Serec: Olhamos o financeiro e a lucratividade, não só porque o sócio precisa ganhar, mas porque precisa ter dinheiro para investir em muitas coisas hoje. Inteligência artificial é um must. Eu brinco que sou da época da mudança para o fax, então já passei por várias ondas, e a IA pode causar ruptura maior, inclusive em como vamos ensinar advogado mais novo. Outro ponto é como o mercado percebe o escritório. Fazemos pesquisa com clientes. E fizemos mudanças importantes no time transacional, reforçando a mensagem de uma nova fase, mantendo força nas áreas em que sempre teve prestígio, como contencioso e arbitragem, antitruste, compliance, tributário, trabalhista. A ideia é ser forte em todas as áreas.
LexLegal: Você também atua em entidades e associações. Qual a importância disso?
Fernando Serec: São redes de contato e trabalhos importantes. Eu atuo há muito tempo na Câmara de Mediação e Arbitragem da AMCHAM e sou membro do conselho. Isso dá contato com diversos CEOs e com assuntos relevantes fora da minha área. Te dá acesso a conversas e conteúdo. E eu tenho orgulho de atuar próximo de instituições ligadas a diversidade e inclusão, como iniciativas com empresas LGBT, pessoas com deficiência e gênero nos escritórios.
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LexLegal: Precisou de letramento em diversidade para gestão?
Fernando Serec: Claramente eu melhorei muito. Tenho letramento institucional por participar dessas atividades e letramento em casa, com duas filhas que me cobram. Vejo níveis muito diferentes entre partners, do quanto dão importância para esses temas. Para a nossa cultura, isso é importante.
LexLegal: E a produção intelectual, estudar e escrever ainda impacta sua prática?
Fernando Serec: Você precisa estudar o tempo inteiro. Tem mudanças técnicas e mudanças em outras áreas que afetam a administração. Reforma tributária, tributação de dividendos, projeto de Código Civil que pode alterar relações. Não consigo pensar em uma profissão em que você possa parar de estudar depois que se forma. Escrever artigo me motiva. Eu escrevo muito sobre arbitragem, às vezes sobre administração e inteligência artificial, e, de vez em quando, perspectivas econômicas e o que pode mudar para os escritórios.
LexLegal: Em 2024 houve conversa de fusão com o Cescon Barrieu. Por que não aconteceu?
Fernando Serec: Tivemos conversas importantes, quase três meses em reuniões. Desenvolvemos um relacionamento mais profundo e temos admiração pelos sócios do Cescon. Em determinado momento, as duas partes entenderam que seria difícil lidar com os diversos aspectos. Eles ainda numa sociedade de primeira geração, com fundadores. A gente numa segunda, passando para terceira. Em governança, eles queriam algo muito ligado à figura dos fundadores.
A gente já está em outro momento, com eleição a cada dois anos. Como lida com remuneração, funding do escritório, isso tudo traz dificuldades numa fusão de duas casas grandes. Eu não me arrependo de ter provocado a discussão. Foi um aprendizado entender outra cultura. Não deu certo, mas continuamos amigos e torcendo por eles.
LexLegal: Em escritórios full service, qual liderança funciona melhor: centralizada ou distribuída?
Fernando Serec: Tem que ter participação dos sócios, mas os sócios querem direção. Não é democracia corintiana. O comitê executivo tem que dar o tom, definir estratégia e executar com os sócios. Pode vir mudança da sociedade em relação ao que o comitê planejou, mas é um modelo híbrido, e não está numa pessoa só.
LexLegal: O trabalho presencial voltou. Como ficou o modelo?
Fernando Serec: Voltou com força. Mas a gente aprendeu muito. Menos necessidade de viagem. O remoto funciona para muita coisa, inclusive despachos com juízes e desembargadores. Implementamos ferramentas, algo que acelerou na pandemia. Hoje estamos num 3-2: três dias no escritório, dois fora. O escritório funciona todos os dias, com escalas que mudam a cada três meses, de segunda a sexta sempre com bastante gente. Discutimos eventualmente mudar para 3-1-1, pode ser que adote. E eu sou contra a ideia de não trabalhar na sexta.
LexLegal: Quais transformações você enxerga para os grandes escritórios nos próximos 5… 10 anos?
Fernando Serec: A IA vai ter impacto, não sei se é exatamente o que as pessoas imaginam. Não acho que acaba com a profissão. Vai mudar forma de cobrança. Muitos escritórios ainda estruturam custos e preço com base em horas. Isso tem mudado e deve mudar mais. O modelo de full service com tamanho considerável segue viável. Nosso maior desafio é economia. A gente cresce com momentos de negócios, aumento do PIB e movimentação. Esse modelo de “cresça ou morra” está sendo repensado. Mas se você não cresce, cria menos oportunidade para quem está na carreira e quer virar sócio.
LexLegal: Você vê espaço para mais competição com escritórios estrangeiros no Brasil?
Fernando Serec: Eu não vejo grande problema em ter estrangeiros competindo, desde que com as mesmas regras e responsabilidade ilimitada. Acho que a competição aumenta menos por regulação e mais por economia. Muitos estão aqui atendendo assuntos que não são de jeito brasileiro, e temos ótimos parceiros. Alguns tentam burlar normas. A pressão por liberação não é tão forte por causa da economia. Quando a economia soltar, isso pode soltar também.
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LexLegal: Que conselho você daria a jovens advogados que querem atuar em contencioso e arbitragem e também liderar?
Fernando Serec: Eu segui construindo minha carreira e tive várias opções. Eu não queria fazer Direito, acabei fazendo. Não gostei até o quarto ano, depois comecei a gostar. Fiz mestrado, me apaixonei por escritório. Minha grande estratégia foi trabalhar muito e não reclamar de muito trabalho, num escritório em crescimento, com muitas oportunidades e muito trabalho. E nenhum estudo é jogado fora: língua, especialização, olhar para administração. Hoje as estruturas de formação são mais acessíveis, e se pensa num profissional mais completo, não só hiper especializado. Eu sou otimista com a vida dos escritórios e otimista com o Brasil. Acho que vamos ter bons resultados e avançar do ponto de vista de inclusão social e diversidade.