Ato Mulheres Vivas reúne milhares em Brasília com denúncias de feminicídio e violência de gênero

Ato Mulheres Vivas reúne milhares em Brasília com denúncias de feminicídio e violência de gênero
Ato Mulheres Vivas reuniu milhares de pessoas em Brasília para protestar contra feminicídios e a violência de gênero/Marcelo Camargo/Agência Brasil
Publicado em 07/12/2025 às 18:05

Da redação de LexLegal

A chuva forte não impediu que milhares de pessoas ocupassem a região da Torre de TV, em Brasília, neste domingo (7), durante o Levante Mulheres Vivas, manifestação que ocorreu de forma simultânea em capitais do país para denunciar o feminicídio, a violência de gênero e a omissão do Estado. A assistente social Elisandra “Lis” Martins, de 31 anos, encerrou sua participação na Batalha de Rimas com um recado que ecoou entre o público: “Estupros corretivos, tapas e facadas. Querem nos manter de bocas fechadas, mas nem a morte irá nos calar. Mulheres vivas!”

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Integrante do coletivo Batalha das Gurias, ela esteve no ato para denunciar a violência cotidiana enfrentada por mulheres, especialmente negras e periféricas. “É violência de gênero, é violência de raça, por esses motivos temos as nossas vidas escassas, é como viver no submundo dos empregos, periferias e até do próprio mundo. Da não aceitação até a depressão que nos mata, mantendo viva a respiração”, disse a rimadora, moradora do Itapoã, região administrativa a 10 quilômetros da Esplanada dos Ministérios.

A manifestação reuniu cinco ministras do governo federal, deputadas, lideranças populares e a primeira-dama Janja Lula da Silva.

Violência do Estado foi tema central das falas, especialmente das ativistas que atuam no atendimento a mulheres. Vanessa Hacon, doutora em ciências sociais e integrante do Coletivo Mães na Luta, criticou a atuação do sistema de Justiça. “As mulheres saem de casa para se livrar da violência doméstica e vão parar dentro do sistema de Justiça, onde a violência processual é intensa e absurda e os juízes não fazem nada”, afirmou. Ela destacou ainda a dificuldade para obter medidas protetivas. “Existe uma ideologia machista nos tribunais que deslegitima denúncias com base em estereótipos de gênero vulgares, do tipo ‘essa mulher é uma ressentida’, ‘não aceita o fim do relacionamento’, ‘vingativa’.”

As críticas se estenderam ao modelo social baseado no patriarcado. Para Leonor Costa, do Movimento Negro Unificado, a estrutura de poder concentrada nos homens explica a escalada de feminicídios. “O patriarcado é quando a sociedade se estrutura a partir da lógica de que o homem, de que o gênero masculino, tem o poder, e o poder é centralizado neles, a partir deles, e é a partir deles que as coisas acontecem”, afirmou. Ela espera que os protestos pressionem o Estado. “É fundamental que haja políticas públicas que sejam capazes de frear esse nível de violência.”

O ato também reforçou o papel dos homens no combate à violência de gênero. A escritora e professora aposentada Renata Parreira ressaltou que a mudança cultural exige engajamento masculino. “É preciso convocar os homens a discutir, a refletir sobre sua masculinidade tóxica. Trazê-los como aliados para essa luta.” Para ela, sem orçamento e equipes qualificadas, não há política pública eficiente. “Sem orçamento público, sem equipe qualificada, sem indicadores econômicos e sociais de pesquisa não há como elaborar políticas públicas efetivas para a prevenção da violência de mulheres.”

A dimensão econômica foi lembrada pela empreendedora Aline Karina Dias, de 36 anos, líder do projeto de afroturismo Sebas Turística. “Compreendemos o empreendedorismo, a questão financeira, como uma ferramenta de emancipação e de existência das mulheres. Muitas que sofrem feminicídio são devido a questões sociais, por falta de moradia e de emprego”, disse.

O Levante Mulheres Vivas foi convocado após uma sequência de feminicídios que chocou o país. No final de novembro, Tainara Souza Santos teve as pernas mutiladas ao ser atropelada e arrastada por cerca de um quilômetro. Em seguida, duas funcionárias do Cefet-RJ foram assassinadas dentro da instituição por um colega que depois se matou. Em Brasília, o corpo carbonizado da cabo do Exército Maria de Lourdes Freire Matos, de 25 anos, foi encontrado na sexta-feira (5); o soldado Kelvin Barros da Silva, de 21 anos, confessou o crime.

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Segundo o Mapa Nacional da Violência de Gênero, 3,7 milhões de mulheres sofreram violência doméstica nos últimos 12 meses. Em 2024, foram registrados 1.459 feminicídios — média de quatro mortes por dia. Em 2025, o país já superou 1.180 casos.

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