O paradoxo da toga e do bisturi: por que o Direito tem sido mais resistente à tecnologia que a Medicina?

Priscila Spadinger*

Ouso dizer que a área do Direito é mais tradicional do que a Medicina. Essa provocação, que faço há anos, baseia-se em um fato incontestável: médicos abraçaram o raio-X, a tomografia e, mais recentemente, a telemedicina, muito antes de os advogados saírem do papel-carbono e da máquina de escrever. A resistência do Direito à mudança, muitas vezes romantizada como a “advocacia artesanal”, é, na verdade, um anacronismo em um mundo digitalmente acelerado.
Em minha visão, tudo é tecnologia, inclusive a fala. A tecnologia não é apenas Inteligência Artificial; é qualquer ferramenta que torna o trabalho mais eficiente e permite ao profissional focar naquilo que é insubstituível: a estratégia, o acolhimento ao cliente e a excelência argumentativa. A ideia de que ser um “advogado artesanal” e fazer tudo do zero é uma vantagem competitiva se esvai diante da história e da realidade: o custo de ser ineficiente é insustentável.
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A Trajetória da “Tecnologia Silenciosa” no Direito
O Direito sempre se apoiou em ferramentas. O que chamamos de “tecnologia silenciosa” do passado prova que a busca por eficiência não é nova:
Prensa de Gutenberg (século XV): Embora não jurídica, sua invenção formalizou a disseminação de textos legais, tornando as leis acessíveis e padronizadas.
Máquina de escrever e copiadoras (século XIX e XX): Eliminaram o trabalho manual dos copistas, aumentando a velocidade de transcrição e a economia de tempo, substituindo a cópia exaustiva.
Processadores de texto (década de 1980): Simplificaram a criação e revisão de documentos, diminuindo drasticamente o tempo gasto em minutas e peças.
Pesquisa jurídica informatizada (início dos anos 1980): Começou a eliminar a necessidade de onerosas bibliotecas físicas, democratizando o acesso à jurisprudência e doutrina.
Essas inovações, hoje banais, foram disruptivas em sua época e prepararam o campo para a verdadeira revolução digital.
O salto forçado pelo Judiciário e a Lei do PJe
A adoção da tecnologia de maneira sistêmica no Brasil não foi uma escolha da maioria dos advogados, mas uma imposição do Poder Judiciário. A “Segunda Onda” tecnológica veio pela via legal:
Lei do Fax (Lei 9.800/99): Reconheceu a validade da comunicação por fax, sendo um dos primeiros acenos à desmaterialização dos documentos.
Lei do Processo Judicial Eletrônico – PJe (Lei 11.419/06): Este é o marco divisor. O PJe, consolidado pela Resolução CNJ nº 185/2013, transformou a rotina, substituindo as montanhas de pastas e pilhas de papéis pelo peticionamento eletrônico.
Esse movimento forçado demonstrou que a eficiência não era mais uma opção de luxo, mas uma exigência legal e social. O advogado foi compelido a trocar o carimbo pelo certificado digital, derrubando a barreira mais difícil: a cultural.
A Nova Realidade: Acessibilidade, IA e o Artesão Digital
Entramos hoje na “Terceira Onda”, onde a tecnologia é acessível e democrática. Ela assume tarefas repetitivas e previsíveis, liberando o advogado para o trabalho intelectual e estratégico. O advogado não será substituído pela IA, mas perderá espaço para quem dominar a tecnologia. Paradoxalmente, isso tornará a profissão mais humana.
A Inteligência Artificial e as Legaltechs não estão mais restritas a grandes escritórios. Elas oferecem ferramentas que:
Aceleram a pesquisa e produção de conteúdo: O profissional não precisa mais começar do zero.
Garantem conformidade e qualidade: Reduzem erros de prazo e forma.
Organizam o fluxo de trabalho: Eliminam a confusão de documentos e tarefas manuais.
Tome como exemplo algumas inovações que representam essa revolução:
criaAI.com.br: Utiliza várias camadas de IA Generativa para auxiliar o advogado na criação de petições jurídicas.
dynadok.com: Solução que utiliza IA para automatizar, gerenciar e organizar grandes volumes de documentos e informações.
grtsdigital.com.br: Especializada na gestão das relações trabalhistas e sindicais, realiza acordos coletivos online, assembleias gerais e sua IA analisa rapidamente documentos sindicais de alto volume, colaborando na tomada de decisões pelos profissionais que militam nessa área.
O custo para ser eficiente nunca foi tão baixo. Não é mais sobre comprar a tecnologia, mas sobre adotá-la como um pilar da gestão de tempo e qualidade.
O Legado do Artesão Digital
A resistência cultural do Direito está perdendo a batalha para a eficiência. O advogado que insiste em fazer tudo do zero, o “artesão puro”, está fadado a cobrar mais caro por um serviço mais lento e, ironicamente, mais propenso a falhas humanas.
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O futuro do Direito não é menos humano, mas sim mais estratégico. O profissional moderno, o artesão digital, usa a melhor tecnologia disponível para delegar o repetitivo e se dedicar ao que realmente importa: a estratégia complexa, a negociação, o rapport com o cliente e a luta pela Justiça. É neste espaço de tempo e foco liberado pela IA que reside a verdadeira vantagem competitiva de amanhã.
*Priscila de Oliveira Spadinger é CEO da Aleve LegalTech Ventures S/A e colunista do Portal Lex Legal Brasil. Lidera iniciativas de inovação jurídica e acompanha de perto a jornada de dezenas de LegalTechs brasileiras.
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