Polícia armada em escola por desenho de orixá acende alerta sobre intolerância religiosa em SP

Polícia armada em escola por desenho de orixá acende alerta sobre intolerância religiosa em SP
EMEI Antônio Bento, no Butantã. A discussão envolve direitos constitucionais, entre eles o direito à educação, à liberdade de crença e ao combate ao racismo religioso/Google Street View
Publicado em 18/11/2025 às 7:30

Da redação de LexLegal

A presença de policiais militares armados dentro de uma escola municipal de São Paulo, após o pai de uma aluna denunciar um desenho de orixá feito pela filha, provocou indignação entre educadores, famílias e especialistas em direitos humanos. O caso ocorreu na última quarta-feira (12), na EMEI Antônio Bento, no Butantã, e reacendeu o debate sobre intolerância religiosa, autonomia pedagógica e os limites da atuação policial em espaços educativos.

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Segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP), quatro policiais entraram na unidade após o pai acionar o 190 afirmando que a filha estaria sendo “obrigada a ter aula de religião africana”. O homem, inconformado com o desenho de Iansã que a própria criança havia feito como parte de uma atividade escolar, já havia ido à escola no dia anterior e, segundo relatos, retirou o desenho do mural e agiu de maneira agressiva.

A Polícia Militar permaneceu na escola por mais de uma hora. A diretora Aline Aparecida Nogueira afirmou em nota que a instituição “não trabalha com doutrina religiosa” e que o projeto é “centrado a partir do currículo antirracista”. Segundo ela, foi “coagida e interpelada pela equipe por aproximadamente 20 minutos”, enquanto os agentes circulavam armados pelo espaço escolar.

O episódio gerou grande mobilização entre responsáveis e professores, que se dispuseram a testemunhar sobre o ocorrido. A Secretaria de Segurança Pública informou que “a Polícia Militar instaurou apuração sobre a conduta da equipe que atendeu à ocorrência, inclusive com a análise das imagens das câmeras corporais”. A professora responsável pela atividade registrou boletim de ocorrência contra o pai da estudante, por ameaça.

A Secretaria Municipal de Educação também se manifestou e destacou que “o pai recebeu esclarecimento que o trabalho apresentado por sua filha integra uma produção coletiva do grupo” e que a atividade está prevista em lei: desde 2003, o ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena é obrigatório nas escolas.

O Sindicato dos Profissionais de Educação afirmou que a entrada da PM “gerou constrangimento, intimidação e profundo abalo emocional na equipe escolar” e declarou apoio à direção da unidade. A entidade ressaltou que o projeto possui respaldo pedagógico e “repudia qualquer violação à autonomia pedagógica, qualquer forma de intimidação aos profissionais da educação e qualquer situação que coloque em risco a segurança física e emocional de educadores e estudantes”.

O caso chegou à esfera federal. A deputada Luciene Cavalcanti e o deputado Carlos Giannazi (ambos do PSOL) acionaram o Ministério da Igualdade Racial, que deverá acompanhar as investigações.

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A discussão envolve direitos constitucionais, entre eles o direito à educação, à liberdade de crença e ao combate ao racismo religioso. Para especialistas, a abordagem policial em uma situação pedagógica sem indício de crime acende sinal de alerta sobre o tratamento desigual dado a manifestações culturais afro-brasileiras, frequentemente alvo de intolerância.

SÃO PAULO WEATHER