Como a governança corporativa está moldando o futuro das legaltechs no Brasil

Como a governança corporativa está moldando o futuro das legaltechs no Brasil
"À medida que o ecossistema de legaltechs amadurece no Brasil, a incorporação de práticas de governança deixará de ser diferencial e passará a ser condição de existência"/Freepik
Publicado em 13/11/2025 às 7:00

Priscila Spadinger*

Nos últimos anos, o debate sobre governança corporativa deixou de ser uma pauta restrita às grandes corporações e passou a ocupar um lugar central também no universo das startups, especialmente naquelas que atuam em setores regulados e de alta complexidade, como o jurídico.

Quando falamos em governança, tratamos, essencialmente, de sustentabilidade institucional. É ela que garante que uma empresa sobreviva às mudanças de mercado, mantenha coerência entre discurso e prática e construa um ecossistema de confiança junto aos seus stakeholders, sejam eles investidores, clientes, colaboradores ou a sociedade.

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No caso das startups jurídicas (legaltechs), esse pilar é ainda mais sensível. Estamos falando de empresas que manipulam dados sensíveis, desenvolvem soluções de inteligência artificial e participam, direta ou indiretamente, da administração da Justiça e da transformação do Direito. Nesse contexto, governança não é luxo. É pré-requisito ético, técnico e institucional.

A governança como DNA da inovação responsável

Na Aleve LegalTech Ventures, temos testemunhado uma mudança de paradigma entre as startups que acompanhamos: as que conseguem escalar de forma sustentável são justamente aquelas que incorporam práticas de governança desde o início e não apenas quando os investidores começam a cobrá-las.

Isso significa adotar desde cedo mecanismos de controle, prestação de contas (accountability), políticas de compliance e uma estrutura decisória transparente.

O erro mais comum de fundadores é acreditar que governança “engessa”. Ocorre o oposto: ela liberta a inovação de riscos. Ao definir claramente papéis, responsabilidades e fluxos de decisão, a governança permite que o time crie com segurança e que a empresa cresça com consistência.

Na prática, vemos que startups que se estruturam com base em boas práticas de governança atraem investidores mais qualificados, reduzem custos de transação e aceleram seu ciclo de maturidade. No Direito, isso é crucial. Afinal, uma LegalTech que promete eficiência jurídica sem transparência interna incorre em contradição conceitual.

O elo entre governança, sustentabilidade e confiança institucional

A governança corporativa é o alicerce que sustenta a perenidade dos negócios e a confiança dos stakeholders. Sustentabilidade, nesse contexto, vai muito além do meio ambiente: trata-se da capacidade de uma organização se manter relevante, ética e íntegra ao longo do tempo.

Para isso, três dimensões são fundamentais:

  • Ética na tomada de decisão: as decisões estratégicas devem refletir princípios de integridade e respeito às normas, ainda que o ambiente regulatório esteja em evolução — como ocorre com a inteligência artificial aplicada ao Direito.
  • Transparência como ativo intangível: em tempos de desinformação e uso indevido de dados, a clareza sobre processos e resultados se torna um diferencial competitivo.
  • Gestão de riscos e accountability: prever, medir e comunicar riscos de forma estruturada é essencial para qualquer empresa que lide com dados jurídicos, documentos sensíveis e fluxos processuais.

Esses elementos, quando articulados, constroem a confiança institucional, uma das maiores moedas do nosso tempo. É ela que sustenta o relacionamento entre cidadãos, empresas e instituições públicas.

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Governança no setor público e privado: o papel das legaltechs

O setor público e o privado estão cada vez mais interdependentes na construção de uma sociedade digital. Startups jurídicas têm se posicionado como pontes de modernização institucional, oferecendo soluções para cartórios, tribunais, escritórios e departamentos jurídicos corporativos.

No entanto, essa posição exige maturidade institucional. Uma legaltech que presta serviços ao setor público precisa estar preparada para atender aos princípios da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), da Lei das Estatais e das boas práticas de governança da OCDE.

Já no setor privado, o desafio está em integrar a cultura de governança aos valores da inovação, especialmente quando falamos em gestão ágil, squads e decisões descentralizadas. Nesse cenário, a governança precisa ser adaptativa, mas sem perder a essência: ser o fio condutor da confiança.

O papel do investidor como guardião de governança

No ambiente de venture capital, o investidor tem papel estratégico não apenas no aporte financeiro, mas também na orientação de boas práticas.

Na Aleve, entendemos o investimento em startups jurídicas como ato de construção institucional. Por isso, incentivamos que cada empresa do nosso portfólio adote conselhos consultivos, indicadores de impacto e mecanismos internos de compliance, ainda que em estágios iniciais.

Essa postura contribui para o amadurecimento do ecossistema e prepara as startups para rodadas futuras, aquisições ou mesmo para se tornarem players de referência no setor. A governança é, portanto, o fio invisível que conecta a inovação à credibilidade.

Da inovação à reputação: o novo ativo estratégico

Vivemos um tempo em que a reputação institucional é o principal ativo de uma organização. No Direito, a credibilidade é o que sustenta relações comerciais, confiança do público e legitimidade das soluções digitais. Uma legaltech pode nascer de uma boa ideia, mas só se sustenta com governança sólida e propósito ético.

Por isso, defendo que toda startup jurídica deveria se enxergar como uma organização de impacto institucional, comprometida não apenas com a eficiência, mas com a integridade do ecossistema jurídico.

A confiança, seja no dado, no processo ou na decisão, não é construída por algoritmos, mas por pessoas e valores. E a governança é o instrumento que traduz esses valores em práticas, controles e resultados.

Governança como valor de futuro

A governança corporativa não é um manual a ser seguido; é uma filosofia de gestão que conecta o presente das organizações ao seu futuro. No contexto jurídico, ela é o elo entre a tecnologia e a ética, entre a agilidade e a responsabilidade, entre a inovação e a confiança.

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À medida que o ecossistema de legaltechs amadurece no Brasil, a incorporação de práticas de governança deixará de ser diferencial e passará a ser condição de existência. Construir startups éticas, transparentes e resilientes é, em última instância, construir confiança no próprio sistema de Justiça e isso é o que garante a sustentabilidade institucional que tanto buscamos.

*Priscila Spadinger é CEO da Aleve LegalTech Ventures S/A, investidora em startups jurídicas e especialista em inovação e governança corporativa no ecossistema legal.

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