Luís Casanova, sobre a revolução no jurídico da Ford: “Nossa dor é maior – e por isso inovamos antes”

Luís Casanova, sobre a revolução no jurídico da Ford: “Nossa dor é maior – e por isso inovamos antes”
Diretor jurídico Luís Cláudio Casanova detalha como a equipe brasileira tem superado desafios e influenciado práticas globais com uso estratégico de inteligência artificial/Divulgação
Publicado em 02/05/2026 às 11:02

Marcelo de Paula – Colaboração para LexLegal

Em um momento em que a transformação digital redefine o papel das áreas jurídicas dentro das grandes corporações, Luís Cláudio Casanova, diretor jurídico da Ford Motor Company na América do Sul, conduz uma das experiências mais avançadas do setor. À frente de uma equipe que se tornou referência global dentro da montadora, ele tem traduzido o uso de inteligência artificial, automação e análise de dados em ganhos concretos de eficiência, estratégia e relacionamento com o consumidor.

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Com mais de três décadas de atuação em instituições financeiras — entre elas Itaú, Real, Alfa e HSBC — e passagens por escritórios como Tozzini Freire e Menezes e Lopes, Casanova lidera um processo de transformação que posiciona o jurídico brasileiro da Ford como um laboratório de inovação para toda a companhia.

Sob sua direção, o departamento jurídico da montadora conduz 26 projetos de automação em andamento, com ferramentas que fazem a leitura automática de peças, resumem casos e otimizam o controle de pagamentos judiciais, que somam cerca de 5 mil processos por ano. O objetivo é calibrar essas soluções para identificar com precisão o histórico de cada ação e oferecer respostas mais rápidas e adequadas — um modelo que une eficiência operacional e visão estratégica.

O projeto batizado de “Cristóvão Colombo” simboliza a busca por novas fronteiras tecnológicas (assim como o navegador buscava novas rotas de comércio). A iniciativa envolve o mapeamento de ferramentas de IA com potencial de aplicação jurídica, em parceria com escritórios e equipes internas. A capacitação é parte central da estratégia. A empresa investe em treinamentos, workshops e desenvolvimento de dashboards criados por advogados internos. Um dos exemplos citados foi o trabalho de uma advogada que, após concluir um curso de Digital MBA, desenvolveu uma ferramenta de visualização de casos a partir dos dados do software de gestão. A diretoria e lideranças globais foram convidadas para assistir à apresentação.

A atuação da equipe jurídica da Ford no Brasil também se destaca pela busca de soluções extrajudiciais. Em 2025, a empresa registrou mais atendimentos e acordos fora do Judiciário, com forte presença na plataforma consumidor.org. Os dados gerados por essa interação alimentam painéis que permitem comparar o desempenho da empresa com o mercado e identificar padrões de comportamento. A área jurídica passou a demonstrar diretamente à diretoria financeira os ganhos obtidos com essas soluções, reforçando o papel estratégico do setor.

Com experiência em gestão de contencioso em todos os países da América Latina, Casanova aplica sua bagagem para estruturar uma operação jurídica que alia conhecimento técnico, visão de negócio e inovação. A seguir, ele detalha como a equipe brasileira tem influenciado práticas globais e o que espera dos escritórios parceiros diante da transformação digital.

LexLegal: A equipe jurídica da Ford no Brasil tem se destacado globalmente. O que explica esse protagonismo?

Luís Cláudio Casanova: Nossa gestão de contencioso em termos de tecnologia está melhor do que nos Estados Unidos. Os agentes de inteligência artificial, essa revisão de contratos, a gente fez antes do time lá nos Estados Unidos. Não é porque somos melhores, mas porque a nossa dor é maior. Lá fora, cada atividade tem uma pessoa ou escritório específico. Aqui, acompanhamos o processo da primeira dissipação até o Supremo. Isso exige mais da equipe e nos obriga a usar a tecnologia como ferramenta de sobrevivência.

LexLegal: Como o jurídico interno tem incentivado o uso de IA entre os escritórios parceiros?

Luís Cláudio Casanova: Bom, a gente pede para eles fazerem testes, simulações, inclusive usando situações reais. Para evitar o risco de vazamento de informações sigilosas eu costumo dar como dica trocar o nome do cliente por “banana”, a operação por “jogo de futebol” e a partir daí iniciar a provocação da ferramenta. O escritório parceiro tem de tentar fazer com que a sua equipe use isso. Quem não fizer, ou vai ser jantado pelos que vão fazer ou pelo jurídico interno. É uma questão de curiosidade, orçamento e protagonismo. A gente precisa dar visibilidade para quem entrega resultado com essas ferramentas.

LexLegal: O que a Ford espera dos escritórios de advocacia nesse novo cenário?

Luís Cláudio Casanova: Não basta só uma grande defesa ou uma opinião legal. É preciso entender o nosso negócio, nossas expectativas e incorporar inteligência artificial na atuação. O escritório precisa entregar com rapidez, profundidade e custo competitivo. É quase como se você se sentisse acionista da companhia e responsável pelo resultado que ela vai conseguir. Toda vez que o escritório facilita a minha vida na linguagem, na riqueza de informações, ele ganha muitos pontos.

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LexLegal: Como a Ford tem promovido a capacitação interna para lidar com essas ferramentas?

Luís Cláudio Casanova: A gente estimula todo mundo a usar as ferramentas disponíveis. Conquistamos respeito do time de finanças e conseguimos orçamento para treinamento. Um exemplo foi o dashboard criado por uma advogada interna que fez um curso de Digital MBA. Ela transformou dados do nosso software de gestão em uma ferramenta de visualização. Chamamos a diretoria e lideranças globais para ver a apresentação. Nosso mantra é: quem fez o gol vai comemorar diante da torcida. Texto atualizado em maior de 2026.

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