Natura: o desafio de incluir os pequenos na nova era fiscal

Marcelo de Paula – Colaboração para LexLegal
Ela lidera a área tributária de uma das maiores empresas brasileiras e está à frente de um dos projetos mais complexos da atualidade: preparar a Natura &Co para a nova era fiscal que se inicia com a reforma tributária. Kassia Reis, diretora jurídica da companhia, tem conduzido um processo de transformação que vai além da adequação normativa. Com uma trajetória de 27 anos na empresa, ela coordena uma estrutura que atua em toda a América Latina e que, no Brasil, concentra seus esforços na reorganização de processos, sistemas e relações contratuais para enfrentar as mudanças que entram em vigor a partir de 2026.
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Um dos grandes desafios, segundo Kassia, é se adequar às mudanças que a reforma tributária vai exigir das empresas – não apenas ajustes técnicos, mas uma revisão profunda de seus modelos de negócio. No caso da Natura, que opera com múltiplas marcas, canais de distribuição e uma cadeia de fornecedores que inclui desde grandes indústrias até pequenos produtores da Amazônia, o desafio é garantir que todos os elos estejam preparados para operar sob a nova lógica fiscal.
De acordo com Kassia, a companhia iniciou ainda em janeiro de 2025 um plano de trabalho voltado à adaptação tecnológica e à revisão de processos internos. A primeira etapa foi o mapeamento completo dos fluxos operacionais e das relações contratuais. A partir disso, a empresa passou a desenvolver soluções específicas para cada tipo de operação — industrial, comercial, de serviços e de distribuição — considerando as exigências de emissão de notas fiscais com os novos tributos (IBS e CBS) e a recepção dessas informações pelos sistemas governamentais.
A complexidade do processo se intensifica quando se considera a diversidade de perfis dos fornecedores da Natura. Muitos deles são microempreendedores, produtores rurais ou prestadores de serviço de pequeno porte, sem estrutura tecnológica para acompanhar as mudanças. Para lidar com essa realidade, a empresa adotou uma estratégia de comunicação e capacitação baseada em tecnologia. Foram produzidos vídeos tutoriais, sumários executivos e questionários de diagnóstico (assessments) para mapear o nível de preparo dos parceiros e oferecer orientações específicas conforme o perfil de cada um.
A iniciativa revelou um cenário heterogêneo. Enquanto alguns fornecedores demonstraram autonomia para se adaptar, outros dependeram integralmente das instruções da Natura ou de seus próprios contadores. A empresa, então, passou a atuar de forma segmentada, oferecendo suporte técnico e jurídico conforme a necessidade de cada grupo. A preocupação central é evitar rupturas na cadeia de fornecimento e garantir a continuidade dos negócios a partir de 2026.
Outro ponto de atenção é a negociação de preços com os fornecedores. A reforma tributária promete neutralidade na carga tributária, mas essa neutralidade depende de ajustes nos preços líquidos praticados ao longo da cadeia. Para isso, a Natura contratou uma fundação especializada para realizar estudos econômicos que embasem as negociações. A ideia é chegar às mesas de negociação com dados concretos sobre os impactos da reforma em cada etapa da cadeia produtiva.
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A empresa também tem dialogado com o governo e com associações de classe para defender a publicização de bases de dados e estudos que possam ser utilizados por empresas de menor porte. Segundo Kassia, o acesso a informações qualificadas é essencial para que todos os agentes econômicos possam se preparar de forma adequada, especialmente aqueles que não têm recursos para contratar consultorias especializadas.
A modernização tecnológica também exigiu investimentos internos. A Natura, que opera com o sistema SAP [um software de gestão empresarial que integra e automatiza processos de diferentes áreas de uma empresa], precisou realizar uma atualização de plataforma entre setembro e outubro de 2025 para garantir a uniformização de sua base de dados.
Essa etapa foi considerada essencial para que a empresa pudesse se candidatar ao projeto piloto da reforma tributária, conduzido pelo governo federal. A expectativa é que a participação no piloto permita testar, em larga escala, a emissão e recepção de notas fiscais com os novos tributos, especialmente no canal de vendas diretas, que responde por mais de 100 mil notas por mês emitidas para pessoas físicas.
A seguir, Kassia Reis fala à LexLegal sobre sua trajetória, os desafios da reforma tributária e o papel estratégico do departamento jurídico na construção de um ambiente de negócios mais eficiente.
LexLegal: Kassia, quais os desafios você enfrentou na sua carreira até chegar à Natura.
Kassia Reis: Eu sou contadora de formação, também técnica em contabilidade, e trabalhei em escritórios com esse viés — contabilidade, apuração de impostos, etc. Comecei a trabalhar muito jovem, aos 16 anos. Entrei na Natura no meu quarto ano de Direito e estou na empresa há 27 anos, atuando tanto na área tributária quanto jurídica. No Jurídico, já cuidei de tudo: tributos, contratos, societário, propriedade intelectual, regulatório, ambiental. Sou uma advogada empresarial, especialista em Direito Tributário, e conhecedora dos setores de vendas diretas, cosméticos e negócios.
LexLegal: Qual o maior desafio daqui para a frente na área tributária?
Kassia Reis: O maior desafio agora é repensar os negócios a partir da nova sistemática da reforma sobre o consumo. É agregar valor com inteligência, avaliando economicamente os negócios, expurgando resquícios tributários e ineficiências operacionais. A ideia é usar a experiência acumulada para escrever uma nova história, com foco em inovação e desenvolvimento econômico. O bom advogado precisa entender de negócios, não apenas da legislação.
LexLegal: Vocês são muito conhecidos também pela preocupação com sustentabilidade. Como você compara os desafios da área tributária?
Kassia Reis: Em sustentabilidade, especialmente no acesso a ingredientes da Amazônia, já enfrentamos cenários difíceis no passado. A partir de 2015, avançamos bastante. Hoje, falamos em regeneração, não apenas em sustentabilidade. Já na área tributária, sempre defendemos que um ambiente propício aos negócios é aquele em que o tributo não seja o orientador das decisões. Trabalhamos muito para que a Natura não ficasse mais refém de um sistema em que o governo diz que você pagou errado. A reforma nos dá a chance de competir em igualdade, vencendo pela qualidade do produto, não pela eficiência tributária.
LexLegal: E como é estruturado o departamento jurídico da Natura?
Kassia Reis: Nosso departamento jurídico cobre a América Latina. Temos uma vice-presidência e algumas diretorias. Eu sou diretora jurídica da frente tributária e de Legal Operations. No total, são 68 pessoas atuando no Jurídico. Embora eu seja responsável pela América Latina, 70% do meu tempo é dedicado ao Brasil, por conta da complexidade tributária e regulatória.