Flávio Dino vota para anular regra da reforma da Previdência sobre aposentadoria por invalidez

Flávio Dino vota para anular regra da reforma da Previdência sobre aposentadoria por invalidez
Ministro do STF vota contra o cálculo introduzido pela reforma de 2019 e aponta violação a princípios da Seguridade Social e à dignidade da pessoa humana/Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
Publicado em 26/10/2025 às 15:00

Da redação de LexLegal

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), votou pela inconstitucionalidade da regra da reforma da Previdência de 2019 que reduziu o valor da aposentadoria por incapacidade permanente, antigo benefício de invalidez. Foi o primeiro voto contrário à norma desde o início do julgamento virtual da ação que questiona o novo cálculo.

Dino entendeu que o método atual, que considera apenas 60% das maiores contribuições previdenciárias para fixar o valor do benefício, viola o princípio da irredutibilidade dos benefícios e outros fundamentos constitucionais da Seguridade Social. O ministro destacou que, pela regra vigente, o valor pago a quem se aposenta por invalidez pode ser inferior ao auxílio-doença, hoje chamado de benefício por incapacidade temporária, o que cria uma distorção.

“A conversão de um benefício por incapacidade temporária em benefício por incapacidade permanente, sob a égide da nova regra, acarreta uma redução no quantum já percebido pelo segurado, caracterizando uma ofensa explícita a esta garantia constitucional fundamental”, afirmou Dino.

O ministro defendeu que a aposentadoria por incapacidade permanente siga o mesmo cálculo aplicado a casos de acidente de trabalho ou doença ocupacional, ou seja, a média de 100% das contribuições, sem a exclusão de percentuais. Ele ressaltou ainda que a regra atual fere a dignidade da pessoa humana e os direitos das pessoas com deficiência, além de contrariar os princípios de igualdade e proporcionalidade.

“Ao diminuir o valor para benefícios não decorrentes de acidente do trabalho, fere a dignidade da pessoa humana, opõe-se aos direitos constitucionais da pessoa com deficiência e à busca por uma sociedade livre, justa e solidária, e destroça os princípios da igualdade, razoabilidade e proporcionalidade”, escreveu.

O julgamento no Supremo

Com o voto de Dino, o placar parcial ficou em 4 a 1 pela manutenção da regra da reforma de 2019. Os ministros Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e o relator, Luís Roberto Barroso (já aposentado), votaram pela validade do novo cálculo. Ainda devem votar Cármen Lúcia, Edson Fachin, Dias Toffoli, André Mendonça, Nunes Marques e Luiz Fux, até segunda-feira (3).

Na ação, os autores sustentam que a redução é inconstitucional por enfraquecer a proteção social e diminuir o valor de benefícios destinados a pessoas em situação de incapacidade total. Dino concordou com a tese e citou que a Constituição garante amparo digno aos segurados que perdem a capacidade de trabalho.

O julgamento pode ter grande impacto financeiro e social. Caso o entendimento de Dino prevaleça, o Supremo poderá autorizar revisões em benefícios já concedidos, elevando o valor de aposentadorias e alterando a forma de cálculo no INSS.

Divergência de Barroso e debate sobre sustentabilidade

O ex-ministro Luís Roberto Barroso, que relatou o caso antes de se aposentar, defendeu que a mudança não viola a Constituição, pois auxílio-doença e aposentadoria por invalidez são benefícios distintos. Segundo ele, a diferença no cálculo seria uma opção legítima do legislador para garantir a sustentabilidade fiscal da Previdência.

“Sem dúvida alguma, é ruim não poder garantir proventos integrais a quem se torne incapaz para o trabalho por sofrer de determinada doença grave, contagiosa ou incurável. Mas nem tudo que é ruim ou indesejável afronta cláusula pétrea [da Constituição]”, escreveu Barroso.

O ministro afirmou ainda que o Supremo deve agir com cautela em temas que afetam o equilíbrio financeiro do regime previdenciário, pois qualquer intervenção pode gerar impacto bilionário nas contas públicas.

Com a divergência aberta por Flávio Dino, o Supremo volta a discutir os limites da reforma da Previdência e o papel do Judiciário no controle de políticas sociais. O julgamento, que deve ser concluído nos próximos dias, pode definir um novo marco jurisprudencial sobre a proteção constitucional dos benefícios por incapacidade.

SÃO PAULO WEATHER