Assassinato de estudante em Brasília comove colegas e reacende debate sobre violência juvenil

Assassinato de estudante em Brasília comove colegas e reacende debate sobre violência juvenil
Isaac Moraes, de 16 anos, foi morto ao tentar recuperar o celular roubado; colegas do Colégio Militar soltaram balões brancos em despedida no Cemitério Campo da Esperança/Luiz Claudio Ferreira/Agência Brasil
Publicado em 20/10/2025 às 6:00

Da redação de LexLegal

O velório do estudante Isaac Moraes, de 16 anos, reuniu colegas, professores e familiares em uma manhã de profunda comoção no Colégio Militar de Brasília. “Paralisados” e “atônitos”, como descreveu um dos estudantes, os amigos prestaram homenagens ao adolescente assassinado na última sexta-feira (17), após tentar recuperar o celular roubado por um grupo de adolescentes, nas quadras 112/113 da Asa Sul, região central da capital federal.

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O corpo de Isaac foi sepultado neste domingo (19) no Cemitério Campo da Esperança, em meio a aplausos, lágrimas e balões brancos lançados ao céu pelos colegas de turma. A tragédia, ocorrida em uma área considerada nobre do Plano Piloto, reacendeu o debate sobre a violência entre adolescentes e a sensação de insegurança que atinge até os espaços urbanos de maior renda no país.

De acordo com testemunhas, Isaac jogava vôlei com os amigos quando foi abordado por um grupo de adolescentes que alegava precisar de conexão de Wi-Fi para fazer uma ligação. O pedido era uma armadilha para o roubo — uma tática que, segundo a Polícia Civil do Distrito Federal, vem sendo repetida em outros crimes semelhantes.

“É uma prática recorrente do grupo para iniciar os roubos. Três deles estavam diretamente envolvidos. Foram apreendidos. Durante a atuação, não demonstraram remorso. Apenas um deles perguntou se a vítima havia falecido”, afirmou o delegado Rodrigo Larizzatti, da Delegacia de Atendimento à Criança e ao Adolescente (DCA).

O crime aconteceu a poucos metros do Parque Maria Claudia Del’Isola, nome que homenageia uma jovem assassinada em 2004 no mesmo bairro — um lembrete doloroso de como a violência volta a se repetir em Brasília, duas décadas depois.

Dor e indignação da família

Os pais de Isaac, ambos profissionais da área de saúde, estavam inconsoláveis e preferiram não falar com a imprensa. Quem se manifestou em nome da família foi o irmão do adolescente, o analista de tecnologia da informação Edson Avelino, de 28 anos, que destacou a maturidade e o senso de responsabilidade do irmão mais novo.

“Apesar da idade, Isaac era uma criança muito responsável e amada. Queria estudar na mesma área do que eu”, disse, emocionado.

Ao ser questionado sobre o futuro do caso, Edson cobrou justiça e punição proporcional, mesmo que os envolvidos sejam menores de idade.

“Em um país em que se vota aos 16 anos de idade, entendo que a pessoa deve pagar pelos seus atos. Comecei a trabalhar com 14 anos com meu pai”, afirmou.

Investigação e apreensão dos suspeitos

Delegacia de Atendimento à Criança e ao Adolescente (DCA) confirmou que sete adolescentes foram ouvidos durante a investigação e três foram apreendidos. Todos deverão responder por ato infracional análogo a latrocínio (roubo seguido de morte).

As autoridades informaram que o grupo vinha cometendo furtos semelhantes em outras regiões da Asa Sul e que o modo de abordagem era sempre o mesmo: fingir necessidade de ajuda para conseguir se aproximar das vítimas.

O delegado Larizzatti destacou ainda a frieza dos jovens apreendidos, o que aumentou a preocupação da polícia sobre o nível de banalização da violência entre adolescentes.

Medo e revolta na comunidade

Moradores da Asa Sul relatam medo e sensação de vulnerabilidade após o crime. O auditor Ricardo Montalvão, vizinho da família e pai de um dos amigos de Isaac, disse que a comunidade está em choque e teme pela segurança dos filhos.

“Os moradores da quadra estão tomados pela tristeza e pelo medo. Meu filho também teve o celular furtado recentemente”, afirmou.

Ele criticou a demora no atendimento médico ao adolescente, alegando que a assistência teria levado cerca de 30 minutos para chegar ao local.

Secretaria de Saúde do Distrito Federal foi procurada pela reportagem para comentar o caso, mas não respondeu aos questionamentos até o fechamento desta edição.

O impacto entre colegas e professores

No Colégio Militar de Brasília, onde Isaac cursava o 2º ano do ensino médio, o clima é de luto e incredulidade. Os professores suspenderam as atividades para que os estudantes pudessem participar do velório e prestar as últimas homenagens.

O colega Lucas, também de 16 anos, contou que o amigo era alegre, dedicado e um dos melhores jogadores de vôlei da turma.

“Ele brincou comigo um dia antes. Não entendo como isso foi ocorrer. Não caiu a ficha ainda”, disse o estudante.

O colégio divulgou uma nota lamentando a perda e expressando solidariedade à família, destacando que Isaac era “um exemplo de disciplina e companheirismo”.

Debate sobre segurança e responsabilização

O assassinato de Isaac Moraes expõe novamente o dilema da violência cometida por menores de idade no Brasil. Embora o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) preveja medidas socioeducativas, há pressão crescente por revisões no modelo de responsabilização penal de adolescentes, especialmente em casos de crimes violentos.

Especialistas, no entanto, alertam que mudanças legislativas não bastam e que o país precisa investir em educação, prevenção e políticas públicas de proteção à juventude. O caso também reacendeu discussões sobre o uso de celulares e segurança em áreas públicas, inclusive em regiões antes consideradas seguras, como o Plano Piloto.

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Enquanto a investigação prossegue, a comunidade de Brasília tenta lidar com a dor da perda e a sensação de impunidade que paira sobre o episódio. A morte de Isaac, um jovem sonhador e querido por amigos e professores, se torna símbolo da urgência em repensar a segurança e a proteção de crianças e adolescentes no país.

SÃO PAULO WEATHER