Jovens denunciam agência de modelos por suposto golpe em Brasília

Jovens denunciam agência de modelos por suposto golpe em Brasília
Mulheres relatam pagamento de até R$ 5 mil por promessas de trabalho que não se concretizaram; empresa nega irregularidades e diz que contratos não garantem emprego/Bruno Peres/Agência Brasil
Publicado em 20/10/2025 às 7:30

Da redação de LexLegal

O que parecia ser uma oportunidade para iniciar uma carreira no mundo da moda acabou se transformando em prejuízo financeiro e frustração para diversas jovens em Brasília. A agência de modelos Brain é alvo de ações judiciais e acusações de prática abusiva após dezenas de pessoas relatarem terem sido induzidas a pagar quantias entre R$ 1,3 mil e R$ 5 mil sob a promessa de futuros trabalhos que nunca aconteceram.

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Entre as vítimas está *Ana (28 anos)**, que recebeu um convite pelas redes sociais em junho para integrar o casting da agência. Segundo ela, o suposto agenciador prometeu que, ao pagar cerca de R$ 2 mil, teria suas fotos divulgadas para possíveis clientes. Sem recursos, Ana recorreu ao cheque especial.

“Me senti muito enganada. Nunca mais teve trabalho nenhum”, disse, após descobrir que o único “trabalho” realizado – uma sessão de fotos para uma loja de óculos – havia sido descontado do valor pago à agência.

Casos semelhantes ocorreram com outras mulheres, que formaram um grupo em um aplicativo de mensagens chamado “Enganados pela Brain”, onde compartilharam experiências idênticas: pagamentos altos, promessas de visibilidade e ausência total de contratos efetivos.

Ação judicial e denúncias

Pelo menos dez clientes ingressaram com ação cível coletiva contra a agência, pedindo rescisão contratual e devolução dos valores pagos, totalizando R$ 53 mil. A advogada Amanda Cristina Barbosa, representante do grupo, afirmou que a empresa tem até a próxima semana para apresentar defesa.

“Nosso objetivo é reparar os danos financeiros e morais sofridos pelas clientes, que acreditaram em falsas promessas e acabaram endividadas”, afirmou.

O episódio se soma a relatos de outras jovens, como *Iara (25 anos), que contou ter recebido elogios e promessas de três trabalhos por mês. Após assinar contrato e parcelar R$ 1,3 mil, nunca mais foi chamada. A situação se repetiu com *Teresa (25 anos), que chegou a pagar R$ 5 mil acreditando que ela e o filho, de oito anos, teriam oportunidades mensais.

“Eles só receberam meu dinheiro e esqueceram que eu existo”, lamentou Ana.

Uma ex-funcionária da Brain confirmou, sob anonimato, que o foco da empresa seria “captar o maior número possível de modelos” e que os funcionários eram instruídos a abordar cerca de 100 pessoas por dia, exaltando suas aparências para incentivá-las a fechar contrato.

“Isso é uma furada. A meta era elogiar muito a pessoa e convencê-la a pagar. Nenhum trabalho real era garantido”, disse a ex-funcionária.

Possível crime de estelionato

advogado criminalista Jaime Fusco avaliou que o caso pode configurar estelionato, já que há indícios de promessa enganosa de oportunidades de trabalho.

“Essas práticas devem ser denunciadas à polícia e ao Ministério do Trabalho, para que se adotem medidas efetivas contra o que pode se caracterizar como fraude laboral”, explicou.

Apesar da gravidade das denúncias, até o momento as ações tramitam apenas na esfera cível, sem abertura de investigação criminal formal.

Defesa da empresa

defesa da Brain, representada pelo advogado Marcos Albrecht, nega todas as acusações. Segundo ele, os contratos deixam claro que não há garantia de emprego e que qualquer promessa fora desse padrão seria “uma conduta isolada”.

“Se houve algum tipo de promessa, está fora do padrão da empresa. Não é para ocorrer”, afirmou o advogado.

Em nota, a agência declarou repudiar veementemente as alegações de engano e afirmou não ter sido intimada judicialmente até o momento. A Brain também negou que existam metas diárias de captação de modelos ou incentivo à compra de seguidores nas redes sociais.

“Jamais houve orientação para compra de seguidores, prática que a Brain repudia”, diz o comunicado.

A empresa sustenta ainda que mantém parcerias legítimas com marcas conhecidas, como a Oculum, para quem produz campanhas publicitárias. Segundo a nota, os modelos selecionados podem receber créditos em produtos ou abater valores investidos no agenciamento.

“A Brain é uma agência sólida, idônea e comprometida, que há anos movimenta o mercado com trabalhos reais, parcerias verificáveis e entregas comprovadas”, finaliza o comunicado.

Em nota enviada a LexLegal, a Oculum Ótica esclarece que não tem qualquer relação com as supostas práticas atribuídas à Agência Brain. “A franqueada da marca em Brasília (DF) firmou contrato de permuta com a referida agência apenas para ações de marketing e divulgação local, sem qualquer pagamento em dinheiro. As trocas realizadas se restringiram a produtos, não havendo cobrança de valores, taxas ou qualquer intermediação de modelos ou influenciadoras. A Oculum Ótica reforça que não participa de negociações financeiras com terceiros, não atua no agenciamento de pessoas e mantém suas relações contratuais dentro dos padrões legais e éticos. Cada franquia Oculum possui autonomia jurídica e administrativa, cabendo à franqueadora apenas o acompanhamento do uso da marca e o cumprimento das diretrizes de conformidade. A empresa e sua franqueada permanecem à disposição para colaborar com eventuais apurações e seguem comprometidas com a transparência e a integridade em todas as suas relações”, diz a nota.

Alerta e prevenção

Casos como o da Brain reacendem o debate sobre a vulnerabilidade de jovens em busca de oportunidades na moda. Especialistas recomendam verificar registro profissional, histórico da empresa e condições contratuais antes de qualquer pagamento.

Órgãos de defesa do consumidor e autoridades trabalhistas também alertam que agências não podem exigir adiantamentos sem garantia de retorno profissional, e que promessas de “divulgação de portfólio” ou “compra de seguidores” são indícios de golpe.

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Enquanto o processo segue na Justiça, o grupo “Enganados pela Brain” busca visibilidade e apoio jurídico para recuperar os valores e evitar que novas vítimas caiam no mesmo esquema.

*Nomes fictícios a pedido das entrevistadas. Com informações da Agência Brasil.

SÃO PAULO WEATHER