Redes de TV dos EUA desafiam censura imposta por Trump e defendem liberdade de imprensa

Redes de TV dos EUA desafiam censura imposta por Trump e defendem liberdade de imprensa
A resistência da mídia é mais do que uma defesa corporativa — é um ato político em sentido nobre. É a reafirmação de que o jornalismo existe para incomodar o poder, não para servi-lo/Open IA
Publicado em 17/10/2025 às 17:02

José Renato Ferraz da Silveira*

A democracia colapsa em movimentos silenciosos, graduais e quase imperceptíveis. Não é um golpe de Estado súbito que a destrói, mas o enfraquecimento contínuo das instituições que a sustentam. Um de seus pilares mais frágeis — e, ao mesmo tempo, mais essenciais — é a liberdade de imprensa. Quando o poder político tenta controlar o que se lê, o que se vê e o que se pode dizer, a democracia passa a jogar uma partida desigual de xadrez contra a autocracia.

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A história conhece bem esse roteiro. Napoleão, Mussolini, Franco, Hitler, Stalin, Vargas e tantos outros compreenderam que o controle da informação é a chave para moldar consciências. Dominar a imprensa significa dominar o imaginário coletivo. A manipulação do discurso público é, portanto, o primeiro e o último passo de qualquer regime autoritário.

Nos tempos atuais, os aspirantes a “donos do poder” aperfeiçoaram a estratégia. Já não precisam fechar jornais nem mandar prender jornalistas; basta desacreditá-los. O discurso da “verdade única” — aquela que só pode ser dita por quem controla o poder — ganha força nas redes sociais, em canais de desinformação e em plataformas onde a adesão vale mais do que a razão. Os seguidores não são cidadãos críticos, mas fiéis de uma seita ideológica.

George Orwell, em 1984, imaginou um Estado totalitário capaz de reescrever o passado, controlar o pensamento e impor o “duplipensar”. Hoje, a distopia é realidade: a “Verdade” oficial é fabricada em tempo real, alimentada por algoritmos e espalhada por milhões de telas. A fronteira entre opinião e fato foi dissolvida.

Entre os exemplos contemporâneos de erosão democrática, Donald Trump ocupa lugar central. Desde seu primeiro mandato, o ex-presidente norte-americano cultivou uma relação hostil com a imprensa. Chamou jornalistas de “inimigos do povo”, estimulou a desinformação e transformou a verdade em uma questão de lealdade política. Agora, no contexto de sua tentativa de retorno à Casa Branca, a ofensiva contra a liberdade de imprensa assume nova forma: a censura institucional.

Em setembro, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos — ainda sob influência direta da administração Trump — anunciou que jornalistas credenciados junto ao Pentágono precisariam submeter previamente à aprovação do órgão qualquer material relacionado às Forças Armadas, fosse secreto ou não. A medida, descrita eufemisticamente como um “procedimento de segurança”, nada mais é do que censura prévia. O jornalista que não obedecesse perderia o acesso às fontes oficiais.

A reação foi imediata. No dia 14 de outubro, as principais redes de televisão dos Estados Unidos — ABC News, CBS News, CNN, Fox News Media e NBC News — publicaram uma nota conjunta recusando-se a acatar a determinação. O gesto, raro em um país marcado pela polarização política, simbolizou uma defesa unificada da liberdade de imprensa.

“Hoje, nós nos juntamos a virtualmente todos os outros veículos de imprensa ao nos negarmos a concordar com as novas exigências do Pentágono, as quais restringiriam a capacidade dos jornalistas de manter a nação e o mundo informados de questões importantes de segurança nacional. A determinação é sem precedentes e ameaça proteções jornalísticas básicas”, diz o comunicado assinado pelas emissoras.

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Além delas, veículos de grande prestígio internacional — como The New York TimesReutersAssociated PressBloomberg NewsThe Wall Street JournalThe Washington PostNPRAxiosPoliticoThe GuardianThe AtlanticThe HillNewsmaxBreaking Defense e Task & Purpose — também declararam publicamente que não cumpririam as novas regras. “Continuaremos a cobrir as Forças Armadas dos EUA da forma como cada um dos nossos veículos vem fazendo por muitas décadas, mantendo os princípios de uma imprensa livre e independente”, afirmaram em nota conjunta.

Até mesmo a conservadora Fox News, tradicional aliada de Trump, recusou-se a assinar o acordo. A emissora classificou a determinação do Pentágono como “uma ameaça direta à integridade do jornalismo americano”. A união de vozes tão diversas em torno de um mesmo princípio — o direito de informar sem controle prévio do Estado — revela o grau de gravidade do momento.

Trata-se, em essência, de um teste para a democracia norte-americana. A tentativa de censura evidencia um movimento mais amplo de captura institucional, típico de regimes que desejam domesticar o poder da imprensa. O controle da narrativa sobre as Forças Armadas é simbólico: é o braço armado do Estado, o instrumento último da força. Se o governo consegue calar os repórteres que o fiscalizam, dá um passo decisivo rumo ao autoritarismo.

A resistência da mídia, portanto, é mais do que uma defesa corporativa — é um ato político em sentido nobre. É a reafirmação de que o jornalismo existe para incomodar o poder, não para servi-lo. O papel da imprensa, em uma democracia saudável, é justamente o de fiscalizar, contradizer e expor. Quando jornalistas precisam de autorização prévia para publicar, a verdade se torna um refém.

A história ensina que a erosão democrática começa sempre pela manipulação do discurso público. Primeiro, desqualifica-se a imprensa; depois, cerceia-se a liberdade de expressão sob o pretexto da “segurança nacional” ou da “defesa da verdade”. Por fim, a censura torna-se hábito, e o medo substitui o debate.

Ao enfrentar Trump, os veículos norte-americanos recuperam o espírito original da Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos — aquela que, desde 1791, garante que “o Congresso não fará lei (…) que restrinja a liberdade de imprensa”. Mais do que uma formalidade jurídica, esse princípio é um pilar civilizatório: sem imprensa livre, não há transparência; sem transparência, não há democracia.

O episódio serve de alerta global. Em tempos de polarização e desinformação, o controle sobre o fluxo de informações se tornou uma arma política poderosa. Governos autoritários aprenderam a disfarçar a censura sob o verniz da “proteção social”, do “combate às fake news” ou da “defesa nacional”. A manipulação digital, o uso de bots e o ataque sistemático à credibilidade da mídia são versões contemporâneas dos velhos métodos de repressão.

O Brasil, como outras democracias jovens, também deve observar com atenção. A liberdade de imprensa é um termômetro do Estado de Direito. Sempre que o poder tenta determinar o que pode ou não ser dito, a democracia perde oxigênio.

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Donald Trump perdeu mais uma batalha em seu projeto de erosão democrática. Mas a guerra pelo controle da informação continua. O sistema institucional dos Estados Unidos mostrou que ainda possui anticorpos — frágeis, mas presentes — para reagir às aspirações autocráticas. A vitória da imprensa é, neste momento, uma vitória da própria ideia de democracia.

*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).

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