Entre aplausos e controvérsias: o Nobel da Paz a María Corina Machado e a crise da moderação

Entre aplausos e controvérsias: o Nobel da Paz a María Corina Machado e a crise da moderação
O prêmio para María Corina Machado é um endosso global às aspirações da sociedade venezuelana de se livrar da ditadura chavista/Open IA
Publicado em 11/10/2025 às 17:10

José Renato Ferraz da Silveira*

Em tempos excitantes e de eclipse da razão, somos obrigados a escolher um lado. São épocas pouco propícias aos seres humanos razoáveis, amantes da moderação e de matizes.

Para os radicais, fanáticos e extremistas, as cores não se desbotam. Temos que escolher entre branco e preto. Eles não enxergam que há infinitas gradações do cinzento. Eles não enxergam que no campo da política nacional e internacional, há cinquenta e mais tons de cinza que predominam.

Para eles (os radicais), só há certezas prévias e simplificações corriqueiras. Um mundo determinado por visões baseadas em evidências confirmatórias. Ou seja, na leitura deles:
a) “eu baseio a minha visão de mundo a partir do que confirma do que eu acredito”.
b) “O que foge a minha leitura de mundo é descartada”.
c) “Matérias jornalísticas, opiniões de “expertises”, fakenews que reforçam o que penso são pilares argumentativos para reforçar o que penso.
d) “O que contraria o que eu penso sobre o mundo em que vivo deve ser ignorado e criticado”.

É um mundo em que se baseia na limitação cognitiva, no cinismo e na hipocrisia.

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O novo evento acerca disso é a escolha do Prêmio Nobel para a líder opositora María Corina Machado. A reação da esquerda brasileira foi de indignação e incredulidade. O ex-ministro da Educação e professor da Universidade de São Paulo, Renato Janine Ribeiro, considerou “escandaloso e irresponsável”.

Ribeiro comentou em tom apocalíptico: “Porque, neste momento, os EUA estão ameaçando a Venezuela. É possível que cheguem a invadir esse país. E isso não é aceitável. Mesmo quem queira tirar Maduro do poder haverá de convir, se pensar um pouco, que, se invasões supostamente “humanitárias”, como ao Afeganistão, à Somália, Iraque, Líbia deram ruim – muito ruim! – uma invasão mais claramente política só pode dar muito errado”.

Putin e Trump não curtiram o Nobel da Paz

Chama atenção também que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, criticou na sexta-feira (10) o Prêmio Nobel da Paz, após a premiação de 2025 ser concedida à oposicionista venezuelana María Corina Machado.

Sem defender diretamente a concessão do prêmio para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump — que esperava ser o laureado –, Putin também disse achar que “Trump fez muito pela paz” no mundo.
Frustrado por não ter recebido o Prêmio Nobel da Paz de 2025, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, compartilhou em sua rede social, a Truth Social, um vídeo no qual Vladimir Putin critica o comitê organizador do prêmio e agradeceu ao seu homólogo da Rússia.

“Não cabe a mim julgar se o atual presidente dos EUA merece o Prêmio Nobel, mas ele está fazendo muito para resolver crises complexas que vêm ocorrendo há anos e décadas”, afirmou, em uma entrevista coletiva no Tadjiquistão. “Houve casos em que o Comitê concedeu o Prêmio Nobel da Paz a pessoas que nada fizeram pela paz. (…) Na minha opinião, essas decisões causaram enormes danos à credibilidade do prêmio”.

Governo brasileiro e o prêmio Nobel da Paz

O governo brasileiro teme que o prêmio Nobel da Paz concedido à líder opositora María Corina Machado aumente as chances de uma intervenção militar americana na Venezuela ao empoderar a ala mais linha-dura do governo Trump, liderada pelo secretário de Estado, Marco Rubio.

Segundo funcionários de alto escalão do governo brasileiro, a láurea pode dificultar as tentativas de Brasília de desescalar a situação.

Para o governo brasileiro, María Corina é vista como de ultradireita, e o prêmio Nobel gerou surpresa. No início do ano, a venezuelana participou, por vídeo, da cúpula dos líderes europeus “Patriotas pela Europa”, ao lado do primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, do vice-premiê da Itália, Matteo Salvini, e da líder de ultradireita francesa Marine Le Pen. María Corina dedicou o prêmio Nobel a Trump.

Segundo um funcionário do Itamaraty, ainda não há uma decisão de não publicar uma nota parabenizando a venezuelana pelo prêmio, mas a tendência é não haver comunicado oficial.

Embaixador venezuelano na ONU

O embaixador venezuelano na ONU, Samuel Moncada, que foi questionado sobre a reação do regime ao prêmio durante entrevista coletiva na sede da organização, em Nova York, na sexta-feira (10).
“Eu não sei a reação do meu governo, mas eu posso falar a minha. Eu esperava que ela ganhasse o Nobel de Física, porque ela tem as mesmas credenciais para o Nobel de Física e para o Nobel da Paz. Talvez, no próximo ano, ela ganhe o Nobel de Física”, afirmou, em tom irônico.
Reação de outros líderes mundiais

O anúncio do prêmio Nobel da Paz para a líder opositora da Venezuela, María Corina Machado, foi visto como um reconhecimento das “aspirações do povo da Venezuela por eleições livres e justas” e uma “prova do seu trabalho incansável pela justiça”.

Com o prêmio, a venezuelana se tornou a 20ª mulher a ganhar o Nobel, concedido desde 1901. A organização destacou seu “trabalho incansável promovendo os direitos democráticos para o povo da Venezuela e pelo seu esforço em alcançar uma justa e pacífica transição da ditadura para a democracia”.

Veja abaixo reações de líderes e políticos pelo mundo.

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“Parabéns, María Corina Machado, por receber o Prêmio Nobel da Paz. Este prêmio homenageia não apenas sua coragem e convicção, mas cada voz que se recusa a ser silenciada. Na Venezuela e no mundo todo. Ela envia uma mensagem poderosa: o espírito de liberdade não pode ser aprisionado e a sede pela democracia sempre prevalece. Querida María, a luta continua”.

Ursula von der Leyen – presidente da Comissão Europeia

“O prêmio de hoje é uma homenagem a todos aqueles que trabalham para preservar a democracia, a liberdade e os direitos políticos ao redor do mundo e um lembrete emocionante da resiliência e do poder do espírito democrático”.

António Guterres – secretário-geral da ONU

“É a justa recompensa por sua luta. (…) Nestes tempos de perigo para a liberdade, cada vez mais ameaçada, María Corina Machado encarna brilhantemente a esperança de todo um povo”.

Emmanuel Macron – presidente da França

“Parabéns à nova ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, María Corina Machado, por sua corajosa luta para levar a democracia à Venezuela. Deve inspirar aqueles que lutam em lutas semelhantes ao redor do mundo –e lembrar àqueles que têm a sorte de viver nos Estados Unidos, que temos a solene responsabilidade de preservar e defender constantemente nossas tradições democráticas arduamente conquistadas”.

Barack Obama – ex-presidente dos EUA e Nobel da Paz de 2009

Cinismo e hipocrisia

O cinismo e a hipocrisia são molas propulsoras na política internacional. O prêmio dado a Maria Corína Machado representa uma insatisfação com o regime ditadorial venezuelano de Nicolás Maduro. Um regime que provocou a 2° maior crise de refugiados do mundo e o maior movimento populacional da história recente da América Latina. É um dos maiores fluxos de deslocamentos do mundo, impulsionado por uma crise econômica, social e política severa que resultou em mais de 7,7 milhões de venezuelanos deixando o país até agosto de 2023.

Essa crise interminável é caracterizada por pobreza generalizada, escassez de alimentos e remédios, alta inflação e desemprego. A maioria desses migrantes se dirige para países vizinhos na América Latina, como Colômbia, Peru, Equador, Chile e Brasil.

O comitê que escolhe o Prêmio Nobel da Paz quase sempre usa o galardão para estimular defensores da democracia.

Em 1980, o argentino Adolfo Pérez Esquivel recebeu a láurea por “seu compromisso com a defesa da democracia e dos direitos humanos diante das ditaduras do Cone Sul”. Nos anos subsequentes, esses países de fato se redemocratizaram. Em 2016, apenas dias depois de receber um rotundo “não” nas urnas pelo plebiscito pelo acordo de paz com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), o colombiano Juan Manuel Santos recebeu o mesmo prêmio. Semanas depois, o acordo foi assinado.

São exemplos que se circunscrevem à América Latina, mas há outros pelo mundo. O prêmio para María Corina Machado é um endosso global às aspirações da sociedade venezuelana de se livrar da ditadura chavista. Revitaliza a importância histórica da eleição presidencial de 28 de julho de 2024, uma das maiores fraudes a que o mundo assistiu nos últimos tempos, como afirmou o politólogo Steven Levitsky.

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Por fim, a escolha de Machado não é a ideal diante de um mundo cada vez mais polarizado e com muitos conflitos ativos. Contudo, não há qualquer razão democrática, humanista ou “de esquerda democrática” que justifique apoios, solidariedades ou compreensões despendidas com o governo de Maduro.

*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).

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