Estudos apontam caminhos para a Petrobras liderar a transição energética no Brasil

Da redação de LexLegal
Dois estudos apontam que a Petrobras tem condições de mudar sua estratégia, hoje ainda centrada no petróleo e no gás, e se tornar protagonista da transição energética no Brasil.
As análises foram produzidas por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pelo Observatório do Clima, que defendem uma guinada nos investimentos da maior empresa do país para consolidá-la como referência em energia limpa.
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A publicação ocorre em um contexto delicado: o petróleo ultrapassou a soja como principal produto de exportação do Brasil, representando 13% das vendas externas em 2024. Essa dependência eleva o risco de o país sofrer com a chamada “bolha de carbono” – quando ativos de combustíveis fósseis perdem valor rapidamente diante da queda da demanda global, algo previsto já para a próxima década.
O que dizem os estudos
O documento “Questões-Chave e Alternativas para a Descarbonização do Portfólio de Investimentos da Petrobras”, assinado pelos economistas Carlos Eduardo Young e Helder Queiroz, serviu de base para o relatório “A Petrobras de que Precisamos”, elaborado por 30 organizações ligadas ao Observatório do Clima.
Ambos defendem que a estatal diversifique sua carteira e alinhe os investimentos às metas do Acordo de Paris e do Plano Clima, que preveem neutralidade de emissões até 2050. Segundo os cálculos apresentados, dos US$ 111 bilhões previstos no plano de negócios 2025-2029, apenas US$ 9,1 bilhões estariam destinados a energias de baixo carbono. A Petrobras, em nota, afirmou que esse número é maior, chegando a US$ 16,3 bilhões.
Para os pesquisadores da UFRJ, a dependência da receita do petróleo traz riscos fiscais e de volatilidade.
“A Petrobras, e o setor de petróleo e gás natural como um todo, não podem ser considerados como meros instrumentos de solução para o problema macroeconômico que abarca a questão fiscal no país”, disse Carlos Eduardo Young.
Já Helder Queiroz alerta para o impacto da dependência das administrações públicas (federal, estaduais e municipais) em relação às receitas do petróleo.
“Apesar dos recursos arrecadados com royalties e impostos, é importante recordar o risco associado à atividade petrolífera, que é finita e volátil”, afirmou.
Caminhos para diversificação
O relatório do Observatório do Clima apresenta um roteiro de medidas, como:
- ampliar investimentos em biocombustíveis e em hidrogênio verde (produzido com energia renovável);
- retomar presença em distribuição e pontos de recarga elétrica;
- priorizar tecnologias como o SAF (combustível sustentável de aviação) e biocombustíveis de segunda e terceira geração;
- alinhar o plano de negócios ao Acordo de Paris e às metas brasileiras de redução de emissões (NDC);
- congelar a abertura de novas fronteiras fósseis, como a Foz do Amazonas, e concentrar operações em áreas já consolidadas, como o pré-sal.
“A Petrobras é uma empresa muito importante para o país, mas necessita internalizar a crise climática com muito mais vigor do que fez até agora”, afirmou Suely Araújo, coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima.
Uma Petrobras além do petróleo
Segundo Young, a companhia deve continuar operando petróleo por algum tempo, mas sem expandir sua produção como estratégia de exportação.
“A Petrobras que eu quero é uma Petrobras pública, que atinja os objetivos do desenvolvimento nacional, mas sem uma expansão que tenha o objetivo de exportar e gerar caixa”, afirmou.
Ele defende ainda mais investimentos em mitigação climática e no combate ao desmatamento.
Resposta da Petrobras
A estatal afirmou, em nota, que elevou os investimentos em projetos de baixo carbono, com previsão de US$ 16,3 bilhões no ciclo 2025-2029 – um aumento de 42% em relação ao plano anterior.
A companhia detalhou ainda aportes de:
- US$ 5,7 bilhões em energias renováveis (eólica e solar, hidrogênio e captura de carbono),
- US$ 4,3 bilhões em bioprodutos,
- US$ 2,2 bilhões em etanol,
- US$ 1,5 bilhão em biorrefino,
- US$ 600 milhões em biodiesel e biometano.
Segundo a nota, a Petrobras também criou um Fundo de Descarbonização de US$ 1,3 bilhão, voltado a acelerar projetos de redução de emissões.
Os estudos reforçam que nenhum país desenvolveu uma indústria robusta de energias limpas sem forte apoio governamental. A Petrobras, por sua dimensão e capacidade de investimento, pode ser decisiva para que o Brasil se posicione como líder em transição energética.
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No entanto, esse movimento exige decisões estratégicas: ampliar investimentos em novas tecnologias, reduzir a dependência do petróleo e alinhar a companhia às metas climáticas globais.