Entenda as questões jurídicas dos dois votos pela condenação de Bolsonaro no STF

Entenda as questões jurídicas dos dois votos pela condenação de Bolsonaro no STF
Supremo Tribunal Federal julga Bolsonaro e aliados por tentativa de golpe; votos de Moraes e Dino já apontam para condenação/Agência Brasil
Publicado em 10/09/2025 às 6:00

Da redação de LexLegal

A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) vive um dos julgamentos mais relevantes da história democrática do país. Em análise está a tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023, quando as sedes dos Três Poderes foram invadidas e depredadas por manifestantes que não aceitavam o resultado das eleições de 2022. O processo reúne oito réus, entre eles o ex-presidente Jair Bolsonaro, apontado como líder político da trama. Até o momento, o placar está em 2 a 0 pela condenação, com votos dos ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino.

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O voto de Alexandre de Moraes

Relator do caso, o ministro Alexandre de Moraes apresentou um voto de quase cinco horas. Ele reconstruiu a narrativa dos acontecimentos, alinhando documentos, mensagens interceptadas e depoimentos para sustentar que houve um plano articulado com objetivo de “abolir, de forma violenta, o Estado Democrático de Direito”.

Moraes destacou que não se trata apenas de atos isolados de vandalismo, mas de uma ação coordenada que, em sua visão, se enquadra em diferentes tipos penais. O ministro dividiu sua análise em 13 atos executórios, que incluem desde as convocações públicas para os protestos até a execução dos ataques às sedes institucionais.

Para o relator, os réus devem ser responsabilizados pelos crimes de:

  • organização criminosa armada, dada a estruturação em rede para a execução dos atos;
  • tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, pela intenção de impedir o funcionamento regular das instituições;
  • golpe de Estado, por visar à deposição de um governo legitimamente eleito;
  • dano qualificado pela violência e grave ameaça, em razão das depredações;
  • deterioração de patrimônio tombado, já que os edifícios históricos foram danificados.

Moraes deixou claro que, em sua avaliação, os ataques não foram “espontâneos”, mas fruto de mobilização consciente e organizada, que contou com a participação ativa de agentes políticos, militares e civis.

O voto de Flávio Dino

À tarde, o ministro Flávio Dino apresentou seu voto, também pela condenação. Ex-ministro da Justiça e atual integrante do STF, Dino reforçou a análise de Moraes, mas avançou em um ponto central: a dosimetria das penas.

Segundo ele, nem todos os acusados tiveram a mesma relevância na trama golpista. Bolsonaro e o general Braga Netto, por exemplo, seriam os articuladores principais, devendo receber penas mais severas. Já Alexandre Ramagem, ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), e os generais Augusto Heleno e Paulo Sérgio deveriam ter penas menores, uma vez que sua participação, embora relevante, teria sido secundária.

Para Dino, “houve atos claros de execução da tentativa de golpe” e não apenas uma “simbologia política” nos protestos. Ao enquadrar os réus em condutas tipificadas no Código Penal, o ministro reforçou a ideia de que o episódio não pode ser tratado como mera manifestação política, mas como crime contra a ordem democrática.

O julgamento começou na semana passada com as sustentações das defesas e com a manifestação do procurador-geral da República, Paulo Gonet. Ele defendeu a condenação de todos os réus, destacando que as provas apresentadas demonstram não apenas a ocorrência dos atos, mas também o vínculo de cada acusado com a preparação e execução da tentativa de golpe.

A ação ganha contornos ainda mais relevantes quando comparado à tradição brasileira de lidar com movimentos golpistas e autoritários. Historicamente, a resposta institucional sempre foi marcada pela conciliação e, muitas vezes, pela anistia. Do período colonial até a ditadura militar, passando por episódios do governo Juscelino Kubitschek e pela Lei de Anistia de 1979, o país evitou punir severamente golpistas, em nome de uma suposta pacificação nacional.

Segundo juristas, a análise dos ministros Moraes e Dino rompe com esse padrão. Ao defender a responsabilização de militares de alta patente e de um ex-presidente da República, ambos sustentam que o Brasil precisa dar uma resposta clara: conspirações contra a democracia não podem mais ser toleradas nem esquecidas.

Para os advogados da área, o julgamento não se restringe à punição individual dos acusados. O que está em jogo é o efeito pedagógico e simbólico da decisão. Para parte da comunidade jurídica, uma condenação enfática pode representar o “ponto final” na longa história de tolerância ao golpismo no Brasil.

Especialistas apontam que a mensagem que sairá do STF será crucial para o futuro político do país. Caso os réus sejam condenados, especialmente Bolsonaro e seus aliados mais próximos, ficará estabelecido um precedente de que lideranças políticas não estão imunes à lei quando atentam contra as instituições democráticas.

O que esperar dos próximos votos

A sessão foi suspensa e será retomada nesta quarta-feira (10), quando os ministros Luiz Fux, Cármen Lúcia e Cristiano Zanin apresentarão seus votos. Apenas após a conclusão da votação será definida a dosimetria das penas. Caso prevaleça a posição dos dois primeiros ministros, Bolsonaro e Braga Netto poderão enfrentar condenações que chegam a 30 anos de prisão em regime fechado.

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Independentemente do resultado final, o julgamento já é considerado um divisor de águas. Ele expõe a gravidade da tentativa de golpe de 2023 e a necessidade de que a democracia brasileira encontre meios de se proteger contra investidas autoritárias.

SÃO PAULO WEATHER