Brasil acelera corrida por energia renovável: investimentos bilionários, marcos regulatórios e desafios de equilíbrio na matriz

Luciano Teixeira – São Paulo
Entre janeiro e junho de 2025, o país adicionou 1,742 GW de capacidade elétrica instalada, com destaque para a geração solar, eólica e pequenas centrais hidrelétricas (PCHs). Esse avanço, impulsionado por incentivos regulatórios e volume recorde de aportes, coloca o Brasil entre os destinos mais promissores para investimentos em energia limpa no mundo.
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De acordo com dados relatório anual Brazil Transition Factbook 2025 da Bloomberg NEF, em 2024 os investimentos em energias renováveis somaram US$ 37 bilhões. Desse montante, US$ 16,3 bilhões foram destinados exclusivamente a projetos de energia renovável — número que, segundo projeções, deve ultrapassar US$ 30 bilhões até 2033. Já a energia solar atingiu 53,9 GW de capacidade instalada em fevereiro deste ano, respondendo por aproximadamente 22% da matriz elétrica nacional.
O interesse internacional no setor se traduz em várias operações. A chinesa SPIC aplicou R$ 780 milhões na construção de dois parques eólicos no Rio Grande do Norte (105 MW) e investiu outros R$ 2 bilhões em dois grandes parques solares no Piauí e Ceará (738 MW). A italiana Enel, por sua vez, anunciou um pacote de US$ 3,7 bilhões entre 2024 e 2026 para projetos no Brasil, com foco em geração renovável e infraestrutura.
Outro destaque é o Pirapora Solar Complex, em Minas Gerais, que recebeu mais de R$ 2 bilhões em investimentos, alcançando capacidade de 321 MW – energia suficiente para abastecer 420 mil residências.
O setor também atrai gigantes da tecnologia. Amazon, Microsoft e ByteDance planejam novos data centers no Brasil, explorando a matriz elétrica nacional, que é quase 90% limpa. Um dos projetos mais ambiciosos prevê um centro de dados de 300 MW, com possibilidade de expansão para 1 GW, em parceria com a Casa dos Ventos no Ceará.
Regulamentação e financiamento para a transição
O Brasil é hoje o país com matriz elétrica mais limpa entre os membros do G20, com apenas 10% de dependência de combustíveis fósseis em 2024. Esse desempenho é apoiado por políticas recentes, como:
- Lei da Micro e Minigeração (Lei 14.300/2022), que estabelece regras claras para geração distribuída;
- Brazil Climate Investment Platform (BIP), criada em 2024 pelo BNDES em parceria com Bloomberg Philanthropies e GCF, para captar investimentos estratégicos em energia e bioeconomia;
- Taxonomia Sustentável Brasileira, implementada em 2024, com regulamentação em andamento pelos órgãos financeiros;
- Fundo Clima, reativado em 2024 com R$ 10,4 bilhões para financiar projetos de energia limpa com juros reduzidos.
“Há um interesse crescente em negócios na área de energia, especialmente na produção eólica, fotovoltaica, no investimento em hidrogênio verde e na regulamentação do mercado de créditos de carbono. Isso reflete não apenas uma agenda ambiental, mas também oportunidades concretas de negócio”, afirma o advogado Daniel Steffens, do Urbano Vitalino Advogados.
Ele reforça que o avanço das fontes limpas precisa ocorrer de forma responsável. “A entrada mais vigorosa das energias limpas precisa ser feita de forma responsável, com atenção aos riscos contratuais e regulatórios que podem impactar diretamente investidores e operadores.”
Para Sidney Simonaggio, advogado especialista em energia, consultor estratégico para empresas do setor e associado do Carpena Advogados Associados (RS), o grande desafio do Brasil não está apenas em expandir a geração renovável, mas em fazê-lo com equilíbrio e planejamento. Ele alerta que a atual política de liberação de empreendimentos, especialmente solares fotovoltaicos, não acompanha a real necessidade de consumo e de capacidade de escoamento da energia.
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“O Brasil precisa alinhar sua política de liberação de novos empreendimentos à real necessidade do sistema, evitando autorizações desenfreadas. Atualmente, qualquer agente pode instalar uma usina solar praticamente onde desejar, sem considerar a viabilidade elétrica da localização”, afirma.
Segundo o especialista, essa sobreoferta, somada à manutenção de usinas fósseis, reduz o aproveitamento da geração hidráulica — a fonte mais barata e limpa da matriz brasileira. O cenário é de uma expressiva sobra de energia renovável, especialmente solar, que levará anos para ser absorvida e acaba afastando investidores. “Afinal, quem vai aplicar recursos na construção de uma usina que não terá mercado para vender sua energia?”, questiona.
Para Simonaggio, antes mesmo de ajustes regulatórios ou contratuais, é urgente repensar o planejamento da expansão da matriz elétrica. Ele defende um modelo que integre a autorização de novos projetos às demandas reais do sistema e à capacidade de transmissão disponível. Sem esse alinhamento, afirma, haverá perda de eficiência e risco de instabilidade.
O especialista também destaca que o desafio regulatório não se resume a normas jurídicas, mas à construção de um equilíbrio inteligente na matriz energética. “O ajuste passa, inevitavelmente, por um planejamento energético mais criterioso e integrado”, ressalta.
Confiabilidade e infraestrutura
O advogado Wagner Ferreira, ex-diretor institucional e jurídico da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), destaca que a ampliação das renováveis variáveis exige investimentos robustos em rede:
“Na medida que você tem um crescimento de outras fontes renováveis intermitentes, como o solar e a eólica, você faz com que o seu sistema elétrico fique mais vulnerável, porque elas dependem de fatores externos, o vento e principalmente o sol. É preciso compor essa matriz de forma a garantir 100% da demanda, todos os dias e 24 horas por dia.”
Ele explica que isso exige maior capacidade de acionar fontes que garantam fornecimento constante – e uma rede de transmissão e distribuição mais robusta, o que implica custos que acabam incorporados às tarifas.
“O investidor precisa de um marco regulatório claro para enxergar a curva de rentabilidade ao longo dos anos. Só assim continuará aportando recursos bilionários no setor”, diz Ferreira, que defende a previsibilidade regulatória como fator decisivo para manter o fluxo de capital estrangeiro e nacional.
Impactos socioeconômicos e visão de futuro
A expansão das renováveis também representa um vetor expressivo de geração de empregos e renda, com impactos diretos e indiretos nas economias locais. Segundo pesquisa publicada no VoxDev em 30 de julho de 2025, projetos eólicos têm potencial para ampliar significativamente as oportunidades de trabalho, especialmente para jovens e para profissionais sem ensino médio completo, ao mesmo tempo em que estimulam cadeias produtivas de setores como construção civil, logística e transporte. Essas iniciativas também contribuem para a qualificação profissional, pois demandam treinamento técnico específico e criam novas áreas de atuação, como manutenção de aerogeradores, monitoramento remoto e engenharia de operação.
No entanto, a conjuntura macroeconômica pode frear esse avanço. A elevação da taxa de juros para 15% no Brasil, por exemplo, provocou uma retração expressiva no setor eólico, resultando na perda estimada de aproximadamente 11 mil postos de trabalho entre fornecedores de componentes, sobretudo aqueles que dependem de financiamentos de longo prazo e linhas de crédito incentivadas. Esse cenário revela que a transição energética não é apenas uma pauta tecnológica ou ambiental, mas também um desafio econômico, que exige políticas consistentes de fomento e proteção contra oscilações abruptas do mercado.
As estimativas da BloombergNEF reforçam a dimensão do desafio: serão necessários cerca de US$ 6 trilhões em investimentos até 2050 para viabilizar a transição energética no Brasil, sendo US$ 0,5 trilhão destinados exclusivamente a energias renováveis. Trata-se de um potencial imenso, capaz de reposicionar o país como protagonista global na descarbonização e na economia verde.
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Contudo, especialistas alertam que esse caminho só será viável com continuidade nas políticas públicas, estabilidade regulatória e um planejamento robusto que alinhe, de forma coordenada, a geração de energia, a capacidade de transmissão e a demanda real de consumo. Sem essa harmonia, há o risco de investimentos subutilizados, desequilíbrios tarifários e perda de competitividade frente a outros mercados emergentes que também disputam capital e tecnologia.