Poluição do ar pode ter causado quase 9% das mortes de crianças em bairros do Rio, revela estudo

Poluição do ar pode ter causado quase 9% das mortes de crianças em bairros do Rio, revela estudo
Bairros da Zona Oeste do Rio de Janeiro apresentam níveis críticos de poluição, acima do recomendado pela OMS/Agência Brasil
Publicado em 03/08/2025 às 13:55

Da redação de LexLegal

Um estudo inédito realizado no Rio de Janeiro revelou que a poluição do ar pode ter sido responsável por 8,5% das mortes de crianças com até 5 anos de idade em três bairros populosos da Zona Oeste carioca. A pesquisa analisou os níveis de material particulado fino (MP2,5), um poluente associado a doenças respiratórias, cardiovasculares e até câncer, e foi conduzida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em parceria com a Universidade Veiga de Almeida (UVA). Os resultados foram publicados em julho no periódico científico norte-americano Bulletin of Environmental Contamination and Toxicology.

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As análises foram concentradas nos bairros de Bangu, Paciência e Santa Cruz, conhecidos por registrarem alguns dos piores índices de qualidade do ar na cidade devido à combinação de fatores como emissões veiculares e industriais, queimadas e condições geográficas desfavoráveis. Esses locais também contam com estações de monitoramento do ar, o que permitiu que os dados fossem coletados com maior precisão.

Poluição acima do recomendado pela OMS

O estudo avaliou dados registrados entre abril e novembro de 2023, período marcado por menor volume de chuvas e, consequentemente, piores condições de qualidade do ar. Em mais da metade dos dias avaliados, as concentrações de MP2,5 ultrapassaram 15 µg/m³ (microgramas por metro cúbico), limite máximo recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para garantir segurança à saúde humana.

Ao cruzar essas informações com dados de mortalidade infantil do Sistema Único de Saúde (SUS) e da Prefeitura do Rio de Janeiro, os pesquisadores identificaram que, entre crianças de 1 a 5 anos, a taxa de mortalidade foi de 14,9 por mil nascidos vivos. Deste total, 28,2% das mortes estavam associadas a doenças respiratórias e 5,3% a doenças cardiovasculares. Utilizando o software AIRQ+, da OMS, os cientistas concluíram que 8,5% das mortes poderiam ser atribuídas aos altos níveis de poluição atmosférica.

“O material particulado fino é um dos poluentes mais perigosos que nós temos. Ele é extremamente pequeno — cerca de 50 vezes menor que a espessura de um fio de cabelo — e consegue atingir os pulmões e a corrente sanguínea com facilidade”, explicou o professor Cleyton Martins, pesquisador de Ciências do Meio Ambiente da UVA e um dos responsáveis pelo estudo ao lado da professora Graciela Arbilla, do Instituto de Química da UFRJ.

Segundo ele, o MP2,5 pode agravar ou causar doenças pulmonares como asma, bronquite, enfisema, além de contribuir para problemas cardiovasculares e câncer. “Crianças são especialmente vulneráveis, pois têm o sistema respiratório e imunológico ainda em formação. O mesmo vale para a população idosa, que tende a ter o sistema de defesa mais comprometido”, acrescentou.

Necessidade de medidas urgentes

Para Martins, os dados evidenciam a urgência de ampliar os planos de monitoramento e gestão da qualidade do ar. “Esse tipo de monitoramento deve cobrir toda a cidade, especialmente as regiões mais críticas, e incluir todos os poluentes previstos em lei. Não é possível ter um diagnóstico preciso da situação sem medir adequadamente a qualidade do ar”, alertou.

O pesquisador destacou ainda que a realidade brasileira é ainda mais desafiadora: “A maioria dos estados não realiza monitoramento contínuo da qualidade do ar. E, quando faz, é de forma muito incipiente. Isso impede o planejamento de ações efetivas de fiscalização e controle da poluição”.

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Ele elogiou a ampliação do monitoramento anunciada recentemente pelo Instituto Estadual do Ambiente (Inea), que passará a incluir a medição de material particulado fino em todas as estações do estado. “A partir dessas informações será possível traçar um panorama mais real, planejar medidas de controle e implementar ações que realmente reduzam os riscos à saúde da população”, concluiu.

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