Tarifaço de Trump ameaça 10 mil empresas brasileiras e R$ 175 bilhões no PIB até 2035

Tarifaço de Trump ameaça 10 mil empresas brasileiras e R$ 175 bilhões no PIB até 2035
Existe a possibilidade de uma conversa direta entre Trump e Lula, mas a diplomacia brasileira tem receio quanto a uma possível armadilha do norte-americano sobre o brasileiro/Arte/LexLegal
Publicado em 30/07/2025 às 9:42

André Pereira César – Brasília

O tempo corre rápido e estamos às portas da possível implementação do tarifaço de 50% aos produtos brasileiros anunciado pelo republicano Donald Trump. Para começar, as negociações seguem em curso e o processo comporta duas camadas. Vamos a elas.

A primeira camada diz respeito aos atores envolvidos nas conversas. Do lado brasileiro, além do presidente Lula (PT), estão o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin (exímio negociador, por sinal), o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o grupo de senadores que conversa com autoridades norte-americanas – sem falar, é claro, da família Bolsonaro, que teria sido um dos pivôs do imbróglio.

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Pelos Estados Unidos, Trump, o secretário de Comércio, Howard Lutnick, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, e deputados e senadores republicanos e democratas. O resultado final inevitavelmente passará por esses personagens.

A segunda camada trata dos setores econômicos potencialmente afetados pelo tarifaço. Aqui, praticamente toda a cadeia produtiva está envolvida – desde empresas de pequeno porte a gigantes, não sobra quase ninguém. Pescados, mel, açaí, etanol, laranja, café, madeira, o agronegócio como um todo, metalurgia, siderurgia, construção, papel e celulose, construção, químicos, aço e alumínio e aviação (no caso, a Embraer) aparecem como protagonistas. Todos, é claro, defendendo seus interesses.

Pelos cálculos do ministro Haddad, mais de dez mil empresas sentirão os efeitos das medidas. Um estudo realizado pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) aponta perda global de R$ 175 bilhões no PIB brasileiro ao longo dos próximos dez anos mas, sem conhecer os detalhes do que será apresentado pelos Estados Unidos, por ora tudo não passa de especulação.

A rigor, as negociações estão avançando bem, e bons sinais foram emitidos nos últimos dias. Há quem aposte que os norte-americanos estão dispostos a sentar à mesa com os emissários brasileiros e discutir propostas em bases reais.

Existe a possibilidade de uma conversa direta entre Trump e Lula, mas a diplomacia brasileira tem receio quanto a uma possível armadilha do norte-americano sobre o brasileiro – afinal, Trump é um político nada controlável, como bem o viu e sentiu o ucraniano Volodymyr Zelensky.

Quais os melhores encaminhamentos para o Brasil? O adiamento do início do tarifaço, por exemplo, seria interessante, pois haveria mais tempo para as negociações. Nada de afogadilho. A China, por sinal, pleiteia uma saída similar. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) defende essa solução de curtíssimo prazo.

Outra saída possível é a escolha de setores específicos para ficar de fora do tarifaço. A medida abarcaria produtos os quais os norte-americanos não trabalham, como manga, café, cacau, açaí e laranja (95% do suco consumido no país é importado do Brasil).

A Embraer é um caso à parte. A empresa gera milhares de empregos diretos e, implementado o tarifaço, seria das mais afetadas. Não por acaso o próprio CEO da companhia pressiona fortemente por uma solução que ao menos minimize os danos. Por sinal, companhias aéreas norte-americanas, entre elas a American Airlines, encomendaram centenas de jatos, e também temem os prejuízos. No mínimo, uma saída salomônica será encontrada para a questão.

As contrapartidas norte-americanas estão dadas. Acesso aos minerais raros, que abundam no Brasil, e a setores específicos de nosso mercado estão entre elas. Também a questão das big techs terá grande peso – ambiente regulatório, inovação tecnológica e segurança jurídica. A negociação certamente passará por esse imenso campo.

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Enfim, há a dimensão econômica e também a política na questão do tarifaço. Para além dos potenciais ganhos financeiros do processo, Trump trabalha para manter a hegemonia dos Estados Unidos e, em especial, mostrar sua musculatura política para a China. A política global se move.

*André Pereira César é cientista político e sócio da Hold Assessoria Legislativa.

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