Hepatites virais ainda matam mais de mil por ano no Brasil, apesar dos avanços da vacinação

Hepatites virais ainda matam mais de mil por ano no Brasil, apesar dos avanços da vacinação
Brasil reduziu casos de hepatite A e B com vacinação, mas hepatite C segue sem vacina e é a mais letal entre as hepatites virais/Fernando Frazão/Agência Brasil
Publicado em 10/08/2025 às 6:00

Da redação de LexLegal

O Brasil registrou, em 2024, mais de 34 mil casos de hepatites virais, com cerca de 1,1 mil mortes diretamente atribuídas à doença. O quadro mantém atenção sobre o problema de saúde pública, que afeta o fígado e pode ser provocado por cinco tipos de vírus: A, B, C, D e E.

Os tipos mais comuns no país são o B e o C, geralmente em formas crônicas. Nesses casos, o vírus pode permanecer no organismo por décadas sem causar sintomas, mas provocando danos progressivos no fígado, que podem evoluir para fibrose, cirrose ou câncer antes do diagnóstico.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu como meta reduzir a incidência das hepatites B e C em 90% e a mortalidade em 65% até 2030.

Formas de transmissão

Segundo o infectologista Pedro Martins, os tipos A e E são transmitidos pela via fecal-oral, geralmente por água ou alimentos contaminados, enquanto os tipos B, C e D têm transmissão parenteral, relacionada ao contato com sangue ou fluidos corporais.

“A hepatite A pode ser transmitida no sexo oral onde há contato da boca com o ânus e as hepatites B, C e D, durante a penetração”, explica.

O especialista alerta para o risco no compartilhamento de objetos de uso pessoal, como alicates de unha, lâminas de barbear e escovas de dente, além da prática de sexo desprotegido.

Vacinação e prevenção

O Sistema Único de Saúde oferece gratuitamente vacinas contra as hepatites A e B — esta última também protege contra o vírus D. Ambas fazem parte do calendário infantil e são aplicadas já nos primeiros meses de vida.

A primeira dose contra a hepatite B deve ser administrada logo após o nascimento, com reforços aos 2, 4 e 6 meses. Gestantes não vacinadas também devem receber o imunizante, já que a doença pode ser transmitida durante a gestação, o parto ou a amamentação.

Queda nos casos e desafios

A vacinação contribuiu para reduzir a taxa de detecção da hepatite B de 8,3 por 100 mil habitantes, em 2013, para 5,3 em 2024. Para o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunização, Renato Kfouri, é possível erradicar o vírus se o país mantiver altas coberturas vacinais:

“Não há reservatório do vírus da hepatite B que não seja o ser humano. A partir da introdução da vacina na pediatria, acumulamos pessoas vacinadas ao longo do tempo e já caminhamos para uma geração sem o vírus, com uma vacina altamente eficaz.”

A proteção contra a hepatite A também mostra resultados. Em 2013, 903 crianças menores de 5 anos foram diagnosticadas; em 2024, foram apenas 16 casos — queda de mais de 98% após a inclusão da vacina no calendário infantil.

Por outro lado, houve aumento de casos na faixa entre 20 e 39 anos, especialmente entre homens. Em maio, diante de surtos entre homens que fazem sexo com homens, o Ministério da Saúde estendeu a vacinação para usuários de PrEP (profilaxia pré-exposição).

Hepatite C: sem vacina, mas com tratamento

A hepatite C, a mais comum e letal, registrou 19.343 novos casos e 752 mortes em 2024. Apesar de não haver vacina, o diagnóstico pode ser feito por exames laboratoriais, e o tratamento com antivirais apresenta taxa de cura superior a 95%.

“Quando o tratamento é iniciado de forma oportuna, as consequências são mínimas. Mas, quando a infecção permanece por anos sem tratamento, pode evoluir para cirrose e câncer de fígado, mesmo em pessoas que não consomem bebidas alcoólicas”, afirma Pedro Martins.

O desafio, segundo especialistas, é ampliar o acesso ao diagnóstico precoce e manter campanhas de prevenção, especialmente em populações de maior vulnerabilidade.

SÃO PAULO WEATHER