LexLegal lança 6º episódio do podcast sobre como a IA está transformando o mercado jurídico

Da redação de LexLegal
O sexto episódio do podcast da LexLegal mergulha em um dos temas mais quentes e transformadores do mercado jurídico: a inteligência artificial (IA) e seu impacto na maneira como advogados, empresas e tribunais lidam com informações jurídicas. A convidada do episódio é Juliana Ono, diretora da Thomson Reuters e especialista em transformação digital no setor jurídico. Com mais de 20 anos de experiência, Juliana analisou como a tecnologia vem moldando o presente e o futuro da advocacia, trazendo ganhos de eficiência, mas também novos desafios. Assista ao episódio completo em nosso canal no YouTube:
A conversa, conduzida pelo nosso editor Luciano Teixeira, trouxe um panorama sobre a evolução da IA no setor jurídico, especialmente a partir do advento das ferramentas generativas, capazes de produzir textos, análises e até peças jurídicas completas. Juliana destacou que a IA ganhou um impulso sem precedentes nos últimos anos, especialmente com a popularização de plataformas abertas como o ChatGPT. “A gente usa inteligência artificial há décadas, mas sempre de forma mais controlada, em camadas intermediárias de tratamento de conteúdo. Quando a IA ficou acessível para todos, foi uma alegria, porque o mundo passou a conhecer um potencial que nós já sabíamos que existia”, afirmou.
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O episódio também debateu como a pandemia de Covid-19 acelerou a transformação digital no Direito. Se antes havia resistência a soluções tecnológicas, a necessidade de adaptar rotinas ao modelo remoto quebrou barreiras históricas. “Não sei se a barreira cairia de qualquer forma, mas a pandemia nos aproximou muito mais da tecnologia, mesmo que tenha sido ‘na marra’. Passar de reuniões totalmente presenciais para on-line do dia para a noite foi um desafio, mas necessário”, disse Juliana. Essa abertura facilitou a entrada de ferramentas mais avançadas no dia a dia dos escritórios e departamentos jurídicos.
IA e a realidade do setor jurídico
Durante a entrevista, Juliana Ono fez questão de destacar que a IA tem uma afinidade natural com o setor jurídico, uma vez que lida com volumes imensos de texto. “O bacana da IA, especialmente da IA generativa, é que ela trabalha com textos. E o mercado jurídico é texto: sentenças, leis, petições, laudos, consultorias, tudo é texto. Por isso, a evolução da IA é tão importante para nós”, explicou.
Ela relatou que ferramentas internas já foram capazes de produzir documentos tão bem estruturados que pareciam reais, mesmo quando não existiam. “Fizemos alguns testes e a IA criou uma legislação de ISS perfeita em termos de estrutura. Um colega chegou a ir à prefeitura confirmar, mas aquilo não existia. Também criou uma sentença perfeita, mas inexistente”, contou. Para Juliana, o episódio ilustra o poder e os riscos dessa tecnologia. “A IA generativa pode ser usada tanto para o bem quanto para o mal. Mas ela ajuda muito: encontra documentos relevantes, gera peças bem escritas e melhora a produtividade.”
Ferramentas próprias e segurança de dados
Outro ponto abordado no episódio foi a importância de proteger informações sensíveis ao usar inteligência artificial. Juliana reforçou que grandes bancas e departamentos jurídicos têm buscado soluções personalizadas. “Se você usa uma ferramenta genérica, está fornecendo dados para ela. Isso pode incluir informações confidenciais do seu cliente. Por isso, estamos desenvolvendo ferramentas proprietárias, treinadas especificamente para o mercado jurídico, com alto nível de controle e segurança”, explicou.
Segundo ela, a Thomson Reuters está prestes a lançar no Brasil e na América Latina a primeira ferramenta de IA generativa desenvolvida para a área jurídica. “Essa ferramenta vai escrever documentos jurídicos com a formalidade necessária e fazer pesquisas precisas no banco de dados. Ela foi lançada lá fora e chega agora entre julho e agosto”, revelou.
Juliana exemplificou como a nova tecnologia facilita a rotina jurídica. “Outro dia, precisávamos encontrar, em um banco de contratos, todos aqueles em que havia uma obrigação até o quinto dia útil. A IA analisou dezenas de documentos de uma só vez e listou cada trecho relevante. Isso economiza horas de trabalho e evita problemas, como o pagamento de multas por descumprimento de prazos”, detalhou.
O futuro próximo e os desafios regulatórios
A entrevista também abordou os desafios éticos e regulatórios da adoção da inteligência artificial no Direito. Juliana destacou que a IA generativa é capaz de “alucinar” — criar conteúdos falsos com aparência verossímil —, o que exige supervisão humana constante. “Ela escreve muito bem, muitas vezes melhor do que a média das pessoas, mas pode inventar. Por isso, é fundamental que advogados usem a tecnologia com senso crítico”, afirmou.
Outro ponto levantado foi a necessidade de compatibilizar essas ferramentas com as normas de proteção de dados e privacidade. Juliana acredita que, se bem regulada, a IA pode conviver em harmonia com marcos legais já existentes. “Não vejo conflito com o Marco Civil da Internet, por exemplo. Acredito que é possível convergir conceitos e preservar princípios como a neutralidade de rede. Também não vejo risco de exclusão digital. Pelo contrário, tecnologias mais interativas costumam ampliar o acesso a conteúdos e serviços”, disse.
IA como parceira estratégica dos advogados
Questionada sobre o impacto da IA no dia a dia dos escritórios, Juliana defendeu que a tecnologia deve ser vista como aliada, não como substituta. “Ela ajuda a eliminar tarefas repetitivas e libera o advogado para se concentrar no que realmente importa: a estratégia. Por exemplo, se antes um advogado precisava gastar horas vasculhando jurisprudência, hoje a IA pode fazer isso em minutos, oferecendo os precedentes mais relevantes”, disse.
A especialista também destacou que a adoção de IA pode melhorar a qualidade da advocacia. “Uma das grandes vantagens da IA generativa é que ela escreve muito bem. Isso significa que petições e pareceres podem ter uma redação mais clara e objetiva, algo que impacta positivamente a comunicação com clientes e tribunais”, observou.
O papel das grandes plataformas
O episódio reforça a importância das grandes plataformas tecnológicas na modernização do setor jurídico. Juliana Ono explicou que a integração de bases de dados, jurisprudência e legislações é um desafio complexo, que exige investimentos robustos. “O mercado jurídico brasileiro é muito rico e complexo. São mais de 80 milhões de processos ativos, em no mínimo 90 tribunais. Não é trivial organizar e analisar tudo isso. É por isso que a tecnologia é tão necessária”, afirmou.
Para ela, o futuro do setor dependerá da capacidade de escritórios e empresas de se adaptarem a essa nova realidade. “As ferramentas estão aí, e o mercado já está aberto para elas. Acredito que a IA generativa será uma parceira estratégica para advogados e departamentos jurídicos nos próximos anos”, concluiu.