Do Regime de Vichy ao Brasil: como a colaboração com o inimigo enfraquece a nação

José Renato Ferraz da Silveira*

Em 22 de junho de 1940, o governo francês assinou o armistício com a Alemanha nazista que formalizou a ocupação da França pelas tropas alemãs. Os termos do armistício dividiram a França em uma zona ocupada, cobrindo o norte e o oeste do país, e a chamada zona francesa, no sul.
Instalou-se no balneário de Vichy um governo que deveria encontrar um modo de convívio com Hitler. O marechal Philippe Pétain, um herói da Primeira Guerra Mundial por seu papel na defesa de Verdun, tornou-se o líder do novo regime, tendo recebido plenos poderes de ambas as câmaras do Parlamento.
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A República Francesa deixou de existir. No lugar dela, surgiu o “Estado Francês”, fundamentado no ideário da extrema-direita nacionalista, que havia perdido a hegemonia política para a frente de partidos de esquerda nas eleições legislativas de 1936.
Pétain e sua comitiva viram a derrota da França e o colapso da Terceira República como uma chance de acabar com o legado de permissividade e decadência representado pelo governo da Frente Popular de esquerda da década de 1930.
O governante de Vichy se engajou em uma política de colaboração com a Alemanha nazista, saudando-a como um novo começo para a França – uma “Revolução Nacional”. Charles Maurras, o ideólogo do movimento antissemita da Action Française, saudou esses desenvolvimentos como “uma surpresa divina”.
Os “nacionalistas” suspendem o direito de greve, colocam na ilegalidade os partidos, passam a cultuar a pátria e a família e oficializam uma política de perseguição aos judeus. O primeiro-ministro Pierre Laval disse em 1942: “Eu desejo a vitória da Alemanha, porque, sem ela, os bolchevistas tomarão conta de toda a Europa”. Essa política de “colaboração” (o termo está num dos primeiros discursos de Pétain) se traduz por alguns números eloquentes.
Vichy deportou 222 mil pessoas para a Alemanha, 83 mil por questões “raciais” e 65 mil por motivos políticos. Para substituir nas fábricas alemãs os operários que serviam o Exército, 153 mil franceses foram enviados como “voluntários” aos territórios do Terceiro Reich nos dois primeiros anos da guerra.
Em 1944, a produção industrial francesa era a metade que a de 1939. Mesmo assim, um terço era confiscado por Berlim ou integrado a seu esforço bélico.
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As milícias de Vichy faziam o trabalho sujo para os alemães, como prender judeus, ciganos ou comunistas que seriam deportados. O governo estimulava por debaixo do pano até a criação da Divisão SS Carlos Magno, de voluntários franceses que combateram sob o comando do Terceiro Reich.
Vale destacar que a Resistência francesa foi obra de uma pequena minoria comunista ou gaullista.
Com a reocupação francesa e a derrota alemã, a honra nacional começou a ser lavada. Às 12h52 de 15 de outubro de 1945, no pátio central da prisão francesa de Fresnes é fuzilado o todo-poderoso ex-primeiro-ministro Pierre Laval.
O marechal Philippe Pétain (1856-1951), que fora chefe de Estado, sofreria condenação idêntica, mas sua pena foi comutada em prisão perpétua. Ele morreria degredado na ilha d’Yeu.
Pétain e Laval foram as pedras de toque do Regime de Vichy, denominação oficiosa do governo francês durante a Segunda Guerra Mundial.
A percepção da população francesa sobre o que realmente ocorreu na época foi falseada pela figura de Pétain, herói nacional da Primeira Guerra, comandante vitorioso da decisiva batalha (contra a Alemanha) em Verdun. Era difícil conceber que alguém com seu porte patriótico pudesse fazer o jogo do inimigo.
No Brasil de hoje fazer o jogo do inimigo é uma estratégia bolsonarista para chantagear o país e enfraquecer o governo. Com a inevitável tarifa de 50% dos Estados Unidos contra o Brasil, congressistas do PL (Partido Liberal) estenderam a faixa “Trump: Make a America Great Again” na Câmara dos Deputados (terça -22/07).
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Destaquemos que a Confederação Nacional da Indústria (CNI) prevê 110 mil demissões com o tarifaço de Trump. E o deputado federal “licenciado” Eduardo Bolsonaro (PL) afirmou: “Se houver um cenário de terra arrasada, pelo menos eu estarei vingado”.
Parece que “a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”.
*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).
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