Brasil avalia criar sistema próprio de geolocalização por satélite

Brasil avalia criar sistema próprio de geolocalização por satélite
Grupo técnico do governo brasileiro vai estudar viabilidade de sistema nacional de navegação via satélite, diante da dependência de tecnologias estrangeiras como o GPS/Bruno Peres/Agência Brasil
Publicado em 23/07/2025 às 8:30

Da redação de LexLegal

O Brasil avalia a criação de um sistema próprio de geolocalização via satélite, em resposta à crescente preocupação com a dependência de tecnologias estrangeiras em áreas estratégicas como segurança, defesa, transportes e agricultura. Por meio da Resolução nº 33, o Comitê de Desenvolvimento do Programa Espacial Brasileiro criou um grupo técnico interinstitucional que terá 180 dias, a partir de 14 de julho, para apresentar um diagnóstico completo sobre a viabilidade do projeto.

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O grupo reúne representantes de ministérios, da Força Aérea Brasileira, da Agência Espacial Brasileira (AEB), de órgãos técnicos e da Associação das Indústrias Aeroespaciais do Brasil, e poderá convidar outras instituições a colaborar. Entre os temas centrais do estudo estão os custos, riscos, gargalos tecnológicos e alternativas possíveis, incluindo a criação de um sistema nacional de cobertura regional ou global.

A proposta ganha visibilidade em meio ao debate público sobre a vulnerabilidade brasileira ao GPS, sistema norte-americano de navegação por satélite. A discussão foi alimentada por especulações nas redes sociais sobre a possibilidade de os Estados Unidos bloquearem ou degradarem o sinal no Brasil em meio a disputas comerciais — hipótese considerada improvável, mas que evidenciou a ausência de autonomia do país nesse campo.

“O grupo ainda está se organizando”, explicou Rodrigo Leonardi, diretor da AEB. Segundo ele, a discussão não foi motivada diretamente por tensões recentes com os EUA, mas por uma análise estrutural: “Vamos procurar entender os gargalos, as dificuldades, os prós e contras de desenvolvermos um sistema desses”.

Atualmente, o Brasil se vale de múltiplos sistemas globais de navegação por satélite, conhecidos pela sigla GNSS (Global Navigation Satellite Systems), entre os quais o GPS (EUA), o Glonass (Rússia), o Galileo (União Europeia) e o BeiDou (China). Há ainda sistemas regionais como o NavIC, da Índia, e o QZSS, do Japão. Todos podem ser captados por receptores multiconstelação — tecnologia presente na maioria dos celulares, veículos e equipamentos industriais modernos.

Apesar da variedade de fontes, o Brasil não controla nenhuma delas, o que, segundo especialistas, pode representar risco estratégico e limitação de soberania em áreas sensíveis como comunicações, logística militar, aviação e monitoramento ambiental. Um eventual corte unilateral de sinal, embora raro e arriscado do ponto de vista geopolítico, não é tecnicamente impossível.

“A maioria dos aparelhos celulares, por exemplo, já é multiconstelação, ou seja, é capaz de receber automaticamente o sinal de diferentes sistemas. De forma que, em termos de localização, nossos celulares seguiriam funcionando normalmente se deixássemos de receber o sinal do GPS”, afirmou o professor Geovany Araújo Borges, da Universidade de Brasília (UnB), onde coordena o Laboratório de Automação e Robótica (LARA). Ele ressalta, no entanto, que a dependência externa persiste: “Hoje o Brasil depende de outras nações neste que é um campo estratégico. Várias áreas perdem com isso”.

Borges também aponta que o gargalo não está na formação técnica ou científica brasileira, mas sim na continuidade política e no financiamento. “Nosso problema não é RH [recursos humanos]. É dinheiro. Temos pessoal capacitado. A questão é se temos condições de bancar um projeto desta envergadura”, observou.

Ele lembra que o desenvolvimento de um sistema próprio exige uma cadeia industrial paralela, com produção nacional de componentes eletrônicos sensíveis e investimentos em educação, infraestrutura de lançamentos e manutenção de satélites. “É algo que leva anos, exige política de Estado e investimento contínuo.”

Apesar do alto custo, países que desenvolvem seus próprios sistemas de navegação por satélite conquistam independência tecnológica, criam capacidades industriais sofisticadas e têm mais poder geopolítico e comercial. A adoção de um modelo regional, restrito ao território nacional, é uma possibilidade que pode baratear o projeto, mas exigirá o mesmo tipo de planejamento de longo prazo.

Leonardi ressalta que os sistemas de navegação por satélite hoje são fundamentais para aplicações civis e militares. Eles estão presentes em logística, transporte público, aplicativos de mobilidade, monitoramento do clima, telecomunicações, transações bancárias, drones, mísseis e agricultura de precisão, entre outras áreas.

“Mesmo que o risco de descontinuidade do GPS seja mínimo, o fato de o Brasil não ter alternativas próprias é uma vulnerabilidade que precisa ser discutida”, diz outro especialista.

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Com o avanço da digitalização da economia e da transformação digital em todos os setores, a geolocalização via satélite deixou de ser uma ferramenta de conveniência para se tornar infraestrutura crítica. A discussão aberta pelo grupo técnico pode marcar o início de uma nova fase para o programa espacial brasileiro — ou, ao menos, levantar as perguntas que o país vinha adiando há décadas.

SÃO PAULO WEATHER