De Temer a Trump: a história do Pix, da construção técnica ao centro da geopolítica global

De Temer a Trump: a história do Pix, da construção técnica ao centro da geopolítica global
Pix movimentou mais de R$ 65 trilhões desde 2020 e se tornou símbolo da soberania tecnológica brasileira/Agência Brasil
Publicado em 20/07/2025 às 10:00

Da redação de LexLegal

O dia 21 de dezembro de 2018 marcou um ponto de virada no sistema de pagamentos brasileiro. Naquele momento, ainda sob o governo de Michel Temer, o Banco Central (BC) divulgou as diretrizes do que viria a se tornar o Pix — sistema de pagamentos instantâneos que hoje é alvo de críticas por parte do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A iniciativa foi resultado de seis meses de trabalho de um grupo técnico formado por 130 representantes de instituições financeiras, escritórios de advocacia, consultorias e membros do governo federal.

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Apesar de seu lançamento oficial ter ocorrido apenas em novembro de 2020, o conceito do Pix começou a ser desenvolvido anos antes. Em 2016, o então presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, lançou a Agenda BC+, com a missão de modernizar o sistema financeiro e ampliar a inclusão da população. Um de seus pilares era justamente melhorar a eficiência e competitividade dos serviços bancários.

“Embora o nosso sistema seja notabilizado pela sua dinâmica, há espaços para aperfeiçoamentos visando tornar ainda mais eficiente a oferta de produtos e serviços financeiros a preços competitivos, com externalidades positivas para a eficiência da economia como um todo”, declarou Goldfajn na ocasião.

Ainda em 2016, o BC participou da elaboração de um relatório do Banco de Compensações Internacionais (BIS), com sede na Suíça, sobre os benefícios de sistemas de pagamentos instantâneos. O documento envolveu outros 25 bancos centrais, incluindo o Federal Reserve (Fed) e o Banco Central Europeu, e posicionou o Brasil entre os pioneiros do debate internacional.

A construção técnica do Pix

Em maio de 2018, o BC lançou o Laboratório de Inovações Financeiras e Tecnológicas (Lift), que funciona até hoje como uma incubadora de ideias voltadas à digitalização e inovação no setor bancário. Também naquele mês, foi formado o Grupo de Trabalho Pagamentos Instantâneos, responsável por delinear os aspectos operacionais, jurídicos e de segurança do Pix.

Os debates do grupo, divididos em cinco subgrupos temáticos, avançaram rapidamente. Em agosto de 2018, o BC consolidou as decisões e, em dezembro do mesmo ano, pouco antes do fim da gestão Goldfajn, registrou oficialmente o projeto no relatório anual da Agenda BC+. O documento, na página 22, já continha um infográfico com o funcionamento planejado do sistema.

Com o desenho do Pix finalizado, em agosto de 2019 o Banco Central assumiu a centralização da base de dados e da governança do sistema. A justificativa era técnica: “maximiza ganhos de escala e efeitos de rede típicos da indústria de pagamentos” e assegura “o bom funcionamento do ecossistema de pagamentos”, segundo comunicado da autarquia.

Lançamento e impacto

O nome Pix só foi revelado ao público em fevereiro de 2020. Durante a apresentação, o então presidente do BC, Roberto Campos Neto, explicou que a criação havia sido motivada por “uma demanda da população” e vinha sendo amplamente debatida entre autoridades monetárias como um modelo de pagamento moderno, barato, ágil, seguro e transparente.

Pouco depois, em outubro de 2020, uma resolução do BC tornou o Pix gratuito para pessoas físicas e microempreendedores individuais (MEI), com exceção de transações relacionadas à venda de bens e serviços por MEIs.

Após uma fase de testes restrita a parte dos clientes de instituições financeiras, o sistema foi implementado nacionalmente em 16 de novembro de 2020, operando 24 horas por dia, sete dias por semana. Em poucos meses, o Pix passou a ser utilizado por milhões de brasileiros — um sucesso que se traduziu em números expressivos.

Desde sua estreia até hoje, o sistema movimentou R$ 65 trilhões. Só em junho deste ano, foram mais de R$ 2,86 trilhões em transferências, com a participação de 936 instituições financeiras. No primeiro mês de operação, novembro de 2020, o volume foi de R$ 25,8 bilhões — menos de 1% do que se movimenta atualmente.

Centro da disputa geopolítica

Com tamanho alcance, o Pix se tornou um símbolo de soberania tecnológica e autonomia financeira do Brasil, o que passou a incomodar setores políticos internacionais. Em julho de 2025, o presidente dos EUA, Donald Trump, passou a atacar abertamente o sistema, acusando o Brasil de “práticas comerciais desleais”. O governo norte-americano anunciou tarifas de 50% sobre exportações brasileiras e incluiu o Pix no discurso político como exemplo de concorrência injusta com soluções de pagamento internacionais.

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Diante desse cenário, o Pix, que nasceu como uma política pública de modernização do sistema bancário, passa agora a ser analisado também sob o ponto de vista geopolítico e jurídico internacional, abrindo espaço para novas discussões sobre a proteção de infraestruturas críticas, soberania de dados e acordos multilaterais de cooperação digital.

SÃO PAULO WEATHER