96 pesquisadores brasileiros desistiram de doutorado sanduíche nos EUA após temor com políticas de Trump

Da redação de LexLegal
Pelo menos 96 pesquisadores brasileiros desistiram de realizar parte de seus doutorados nos Estados Unidos, segundo balanço divulgado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). O número refere-se a bolsistas do programa de doutorado sanduíche que mudaram o país de destino ou adiaram a viagem prevista para este ano.
Leia também: Nova regra da CVM amplia acesso de pequenas e médias empresas à bolsa em 2026
A presidente da Capes, Denise Pires de Carvalho, apontou que a desistência não ocorreu por dificuldades consulares, como o visto, mas por insegurança institucional diante do cenário educacional norte-americano sob o governo Donald Trump.
“Não foi o visto [a razão da desistência], foi antes do visto. Então, com certeza, foi algum motivo relacionado ao desenvolvimento do projeto de pesquisa nos Estados Unidos. O coordenador brasileiro, o americano ou os dois decidiram que, nesse momento, é melhor não ir”, afirmou Denise.
Segundo ela, os cortes em verbas federais para ciência e tecnologia e os ataques às universidades e centros de pesquisa por parte da gestão Trump foram determinantes. “Há algumas áreas [de pesquisa] que têm sido impedidas nos Estados Unidos, projetos que têm sido cortados”, destacou.
Apesar da ausência de restrições formais por parte dos EUA, o impacto já é sentido. Em 2023, foram concedidas 880 bolsas para doutorado sanduíche no país. A previsão da Capes era ampliar esse número para 1.200 em 2024, mas apenas 350 estão previstas até o momento.
“É muito triste que a gente impeça um estudante que quer sair do país de ir, porque não é fácil, né? É bom que todos saibam que os estudantes não estão indo fazer turismo. Eles estão indo trabalhar. É muito difícil sair do nosso país para trabalhar, chegar lá e não conseguir trabalhar”, lamentou Denise.
Mudança de rumo e plano B
A presidente da Capes orienta que orientadores e alunos mantenham um plano alternativo. Países como França, Espanha e Portugal estão entre os mais escolhidos. Na última década, enquanto cerca de 9 mil bolsas foram concedidas para os EUA, a China recebeu apenas 49 bolsistas e a África do Sul, 84.
“A gente não pode mais depender de um único país para o desenvolvimento de alta tecnologia, seja na área da saúde ou qualquer área que seja”, defendeu. Segundo ela, a Capes está preparada para redirecionar os projetos para outros países, de modo a garantir o andamento das pesquisas e o retorno dos pesquisadores com conhecimento atualizado ao Brasil.
Confap: diplomacia científica em construção
No âmbito estadual, o presidente do Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap), Márcio de Araújo Pereira, afirmou que ainda não há dados consolidados sobre o impacto das medidas dos EUA nas bolsas estaduais, mas reconheceu que há uma movimentação informal.
“Cada estado tem seus editais, e são editais anteriores a esse momento. Então, não há ainda dados oficiais ou que comprovem que há um fluxo de pesquisadores indo e vindo, a não ser as sondagens que são feitas de forma informal”, disse.
Ele também reforçou que não há portas fechadas com os Estados Unidos, mas ressaltou a importância da diversificação das parcerias internacionais. “Existe, sim, uma procura de várias universidades e vários países da União Europeia e também de fora, mais especificamente o Reino Unido, que têm procurado muito as fundações para criar mais parcerias e mais intercâmbio.”
“O olhar para o Brasil está sendo muito positivo em relação à confiabilidade da nossa ciência. Esse é um trabalho de construção de diplomacia científica que a gente tem feito”, concluiu Márcio.
Fundação Lemann: permanência é estratégica
A gerente de Relacionamento com Universidades da Fundação Lemann, Nathalia Bustamante, avalia que é fundamental manter a presença de estudantes brasileiros em centros de excelência dos Estados Unidos, apesar das incertezas políticas.
“Pelo fato de os Estados Unidos contarem com as principais instituições de ponta com reconhecimento global é tão importante que estudantes e pesquisadores brasileiros possam continuar a ocupar esses espaços”, afirmou.
“E é muito positivo que brasileiros de todos os gêneros, raças e classes sociais possam ocupar esses espaços e ter protagonismo na produção de conhecimento de ponta. É um avanço para o Brasil que talentos diversos tenham acesso a formações internacionais de excelência e retornem para ocupar espaços de decisão, gerar impacto e contribuir para o desenvolvimento do país”, completou.
Veja também: Pix sob ataque: megafraude acende alerta e escancara falhas no sistema financeiro
A Fundação Lemann já concedeu 840 bolsas, sendo 760 nos EUA. A entidade também mantém os Centros Lemannem universidades como Harvard, Columbia, Illinois e Stanford. Sobre o atual cenário, Nathalia pondera: “As medidas do governo norte-americano ainda são muito recentes e não podem ser consideradas definitivas. Estamos acompanhando de perto os desdobramentos, pois temos todo o interesse e o comprometimento em manter os estudantes brasileiros bolsistas no exterior”.