Seis anos após desastre do óleo, MPF ainda aguarda dados do exterior para identificar culpados

Seis anos após desastre do óleo, MPF ainda aguarda dados do exterior para identificar culpados
Óleo atingiu mais de 3,6 mil km do litoral brasileiro, afetando ecossistemas e comunidades tradicionais/Agência Petrobras
Publicado em 10/08/2025 às 14:00

Da redação de LexLegal

Quase seis anos após as primeiras manchas de óleo atingirem o litoral brasileiro, o Ministério Público Federal (MPF) ainda aguarda informações de autoridades estrangeiras para esclarecer a origem e identificar os responsáveis por aquele que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) classificou como “o mais grave crime ambiental ocorrido no litoral” do país.

A investigação criminal é conduzida pela Procuradoria da República no Rio Grande do Norte. “Ainda existem incertezas sobre a autoria, com respostas pendentes de autoridades estrangeiras”, informou o órgão.

O desastre começou no fim de agosto de 2019, na Paraíba, e rapidamente se espalhou por nove estados do Nordeste — Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe — além de trechos do Espírito Santo e do Rio de Janeiro. Ao todo, segundo o Ibama, foram 130 cidades impactadas ao longo de cerca de 3,6 mil quilômetros de costa, atingindo praias, mangues, recifes e costões rochosos.

O governo federal acionou, pela primeira vez, o Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo em Águas sob Jurisdição Nacional, envolvendo órgãos públicos e as Forças Armadas. A medida, no entanto, só foi adotada mais de 40 dias após o aparecimento inicial das manchas e foi encerrada em março de 2020, mesmo com relatos de reaparecimento do poluente.

Custos e responsabilidades

Sem a identificação imediata da fonte poluidora, a União solicitou apoio da Petrobras, que informou custos de R$ 43,28 milhões. A Marinha declarou gastos superiores a R$ 128 milhões, totalizando cerca de R$ 187,64 milhões, sem correção pela inflação e sem incluir despesas de estados e municípios.

Em dezembro de 2021, a Polícia Federal (PF) concluiu que o óleo teria sido despejado ou vazado do navio petroleiro Bouboulina, da empresa grega Delta Tankers. A PF indiciou a companhia, o comandante Konstantinos Panagiotakopoulos e o chefe de máquinas Pavlo Slyvka por poluição, descumprimento de obrigação ambiental e dano a unidades de conservação.

Apesar do indiciamento, o Ibama não aplicou multa. “O indiciamento não é suficiente para lavratura de auto de infração pelo Ibama”, explicou o instituto, acrescentando que a legislação prevê penalidades de até R$ 100 milhões, caso haja comprovação definitiva da responsabilidade.

Sigilo e críticas

O inquérito tramita sob segredo de justiça. Para a presidenta da OAB-PE, Ingrid Zanella, “o segredo de justiça é justificável quando a publicidade pode atrapalhar a investigação, mas deve ser sempre justificado, pois é uma exceção”.

Movimentos sociais, como a campanha Mar de Luta, reclamam da falta de transparência. “Consideramos um absurdo a forma como este crime vem sendo tratado. A resolução deste caso, com a punição dos responsáveis e uma reparação integral às vítimas, deveria ser prioridade máxima para o Estado”, afirmou Andrea Rocha, coordenadora do movimento.

O desastre foi tema de comissões no Congresso, incluindo uma CPI na Câmara, que não aprovou relatório final, e uma comissão temporária no Senado, que apontou “desmantelamento da estrutura de governança ambiental” como agravante dos impactos.

SÃO PAULO WEATHER