Senado adia votação sobre legalização de jogos de azar e reacende debate sobre impactos econômicos e sociais da atividade no país

Senado adia votação sobre legalização de jogos de azar e reacende debate sobre impactos econômicos e sociais da atividade no país
Projeto em debate pode legalizar cassinos físicos em resorts e centros turísticos, sob regras de tributação e fiscalização/Freepik
Publicado em 09/07/2025 às 3:00

Da redação de LexLegal

A votação do projeto de lei que propõe a legalização de jogos de azar no Brasil foi novamente adiada no Senado Federal. A proposta, que autoriza o funcionamento de cassinos, bingos, jogo do bicho e máquinas de aposta, estava prevista para ser apreciada nesta terça-feira (8), mas foi retirada da pauta pelo presidente da Casa, senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).

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“Há certamente uma divisão no Senado sobre esse tema. Diante do quórum de 56 senadores, diante da grande divergência sobre essa matéria e das solicitações de senadores que gostariam de estar presentes na votação, esta presidência vai retirar de ofício esse item”, afirmou o senador.

O projeto, que tramita desde 2022, busca criar um marco regulatório para os chamados “jogos de azar” no Brasil, retirando a proibição atualmente prevista na Lei das Contravenções Penais e estabelecendo regras para o funcionamento e fiscalização das atividades.

“Hoje, os jogos de chances são considerados contravenções penais e proibidos no Brasil. O Projeto de Lei modifica a lei das contravenções penais, retira a vedação aos jogos de azar e os regula”, explica Vanessa Cristina Santiago, sócia da área de proteção de dados e compliance do escritório Gaia Silva Gaede Advogados.

O que está em jogo: regras, tributação e funcionamento

A proposta estabelece regras específicas para cada modalidade de jogo. Cassinos poderão operar em resorts, polos turísticos ou embarcações, enquanto os bingos deverão ter casas próprias para funcionamento. O jogo do bicho, atualmente uma contravenção, seria regulamentado e explorado por empresas credenciadas com base na população de cada estado.

Segundo o texto aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado, haverá um limite de um cassino por estado e no Distrito Federal, com exceções para São Paulo (até três), Minas Gerais, Rio de Janeiro, Amazonas e Pará (até dois). Os bingos poderão operar em uma casa por município, sendo permitido um estabelecimento para cada 150 mil habitantes nas cidades maiores.

O texto também regulamenta as máquinas caça-níqueis, que deverão ser registradas oficialmente e submetidas a auditorias periódicas. Todas as casas de apostas precisarão ser autorizadas pelo Ministério da Fazenda e observar normas de compliance e governança. “É importante mencionar que para operar as casas de apostas, será preciso autorização do Ministério da Economia e observância às regulações, inclusive regras de compliance e governança”, acrescenta Vanessa Santiago.

Impostos, taxas e destinação de recursos

O projeto cria dois tributos principais para o setor: a Taxa de Fiscalização de Jogos e Apostas (Tafija) e a Cide-Jogos. A Tafija será paga trimestralmente e variará conforme a atividade: R$ 600 mil para cassinos, R$ 300 mil para plataformas online e R$ 20 mil para bingos, jogo do bicho e turfe. A Cide-Jogos incidirá sobre a receita bruta das empresas, com alíquota de até 17%, calculada com base na diferença entre os valores apostados e os prêmios pagos.

A arrecadação será repartida entre União, estados e municípios. Parte dos recursos deverá ser destinada a ações em saúde, segurança pública, combate ao vício, proteção animal, educação e resposta a desastres naturais. Além disso, 1% da receita bruta das empresas será direcionado à formação de atletas por meio de comitês esportivos.

Os jogadores também serão tributados. Ganhos acima de R$ 10 mil em um período de 24 horas deverão pagar 20% de Imposto de Renda, com dedução do valor apostado no mesmo período. Prêmios inferiores a esse valor estarão isentos.

Oportunidade econômica ou risco social?

De um lado, defensores do projeto veem a legalização como uma oportunidade para impulsionar a economia, gerar empregos e atrair investimentos. O senador Irajá Abreu (PSD-TO), relator da proposta, estima que a medida pode movimentar R$ 100 bilhões em investimentos e criar 1,5 milhão de empregos diretos e indiretos.

O ministro do Turismo, Celso Sabino, também se posiciona a favor. “Como órgão do governo voltado ao desenvolvimento do turismo, somos favoráveis à proposta, assim como outros ministérios. Queremos atrair mais visitantes e estimular a circulação de pessoas dentro do Brasil”.

Por outro lado, lideranças religiosas e setores da sociedade civil manifestam forte oposição. O pastor Silas Malafaia publicou um vídeo nas redes sociais classificando o projeto como “barbárie” e criticando o apoio do presidente Lula e do senador Alcolumbre. Em 2024, Malafaia e outros pastores assinaram uma carta de repúdio alertando para riscos como endividamento, vício, golpes online, lavagem de dinheiro e exploração de vulneráveis.

A proibição dos jogos de azar no Brasil remonta a 1946. Ao longo das décadas, a discussão foi retomada em diferentes contextos. Nos anos 1990, os bingos foram permitidos, mas voltaram a ser proibidos em 2004. Em 2018, durante o governo Michel Temer, as apostas esportivas online foram autorizadas, embora a regulamentação efetiva só tenha ocorrido em 2023, já no governo Lula, com a chamada “Lei das Bets”, que também legalizou os cassinos virtuais.

Agora, o desafio é ampliar essa regulação para o ambiente físico. “Os empresários devem se atentar às regras de constituição e funcionamento dos estabelecimentos de jogos, para que possam pedir autorização ao regulador”, reforça Vanessa Santiago.

Não há previsão para retomada da votação em Plenário. O governo federal sinaliza que não irá obstruir a tramitação caso haja consenso entre os parlamentares. “Não sou favorável ao jogo, mas também não acho crime. Se o Congresso aprovar e foi feito um acordo entre os partidos políticos e for aprovado, não tem por que não sancionar”, disse Lula à Rádio Meio, do Piauí, em junho de 2024.

O futuro do projeto depende agora da construção de um consenso político que permita sua votação em Plenário. Com forte mobilização de grupos favoráveis e contrários, o tema promete permanecer no centro dos debates legislativos nos próximos meses. A polarização em torno da proposta revela não apenas divergências morais e ideológicas, mas também interesses econômicos e estratégicos relacionados à arrecadação e ao turismo.

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Enquanto isso, empresários, investidores e operadores do setor seguem atentos às definições do Congresso. A possível legalização dos jogos de azar representa uma transformação estrutural no ambiente regulatório brasileiro, com potencial de atrair grandes aportes, gerar empregos e impulsionar cadeias produtivas — mas também exige responsabilidade na criação de mecanismos de controle, prevenção ao vício e combate à lavagem de dinheiro.

SÃO PAULO WEATHER