Butantan testa primeira vacina brasileira contra gripe aviária em humanos

Butantan testa primeira vacina brasileira contra gripe aviária em humanos
Vacina do Butantan contra o vírus H5N8 entra na fase de testes em voluntários adultos e idosos, com foco na prevenção de uma possível pandemia/Rovena Rosa/Agência Brasil
Publicado em 04/07/2025 às 6:30

Da redação de LexLegal

O Instituto Butantan recebeu autorização da Anvisa para iniciar os testes em humanos da primeira vacina brasileira contra a gripe aviária do tipo H5N8. Agora o instituto aguarda a análise da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) para dar sequência aos estudos clínicos. A iniciativa busca prevenir eventuais surtos com potencial pandêmico, tendo em vista a crescente preocupação global com a evolução do vírus.

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De acordo com o Butantan, a candidata à vacina, denominada influenza monovalente A (H5N8), será aplicada em duas doses, com intervalo de 21 dias, inicialmente em adultos de 18 a 59 anos. Posteriormente, a testagem será ampliada para incluir idosos acima dos 60 anos.

Os dados obtidos nas fases pré-clínicas em animais como camundongos e coelhos foram promissores, demonstrando segurança e resposta imunológica. A instituição paulista espera recrutar 700 voluntários adultos e idosos para as fases 1 e 2 dos estudos, que ocorrerão em centros de pesquisa localizados em Pernambuco, Minas Gerais e São Paulo. A expectativa é concluir o acompanhamento dos participantes até 2026, o que permitirá apresentar um pedido de registro da vacina à Anvisa com base em um amplo espectro etário.

Atenção global

O diretor do Instituto Butantan, Esper Kallás, destacou o avanço do vírus da gripe aviária, com sua crescente capacidade de adaptação a mamíferos — e, potencialmente, a humanos. “Está cada vez mais se aproximando de ter as adaptações que precisaria para serem transmitidos entre as pessoas. Essa possibilidade alerta a toda a comunidade científica e a saúde pública sobre a possibilidade de a gente ter uma pandemia causada pela gripe aviária”, afirmou.

Ele reforça que o desenvolvimento da vacina teve início em 2023 como forma de preparação para um possível cenário de emergência. “Nosso objetivo é verificar se a vacina é bem tolerada, se é segura, e se induz uma proteção verificada pelo exame de sangue depois de as pessoas terem sido vacinadas”, disse Kallás. “Se a gente tiver isso pronto […] o Butantan já trilhou um caminho de desenvolvimento para produzir essa vacina no enfrentamento em saúde pública”.

Risco de transmissão entre pessoas

A diretora médica do Butantan, Fernanda Boulos, alerta para o perigo da mutação do vírus, que poderia resultar em transmissão entre humanos. “Se isso acontecer, há chance de ocorrer uma epidemia”, afirmou. Ela observa que os vírus influenza são altamente mutáveis, e uma adaptação ao sistema respiratório humano poderia facilitar a disseminação.

Segundo Boulos, a vacina desenvolvida é de vírus inativado — o que significa que não oferece risco de infecção. “Com a aprovação ética do estudo se concretizando, a gente abre os cinco centros de pesquisa que irão recrutar participantes desse estudo para avaliar se a vacina é segura e gerou imunidade nesse primeiro teste em humanos”, explicou.

Alerta internacional

A Anvisa enfatiza que a preocupação com variantes como H5N1, H5N8 e H7N9 não é isolada, já que elas apresentam alto potencial de letalidade e mutação. Dados internacionais mostram que, desde 2021, mais de 300 milhões de aves morreram em decorrência do vírus, que afetou ainda 315 espécies silvestres em 79 países.

Casos humanos continuam raros, mas têm se mostrado severos. De acordo com a agência, entre 2003 e 2024, 954 pessoas foram infectadas em 24 países, com 464 mortes — uma taxa de letalidade de 48,6%, muito superior à da covid-19.

O Ministério da Saúde informou que, até agora, não houve registros da doença em humanos no Brasil. O risco de transmissão, segundo a pasta, está relacionado ao contato direto com aves doentes, não ao consumo de carne ou ovos cozidos.

Ocorrência em aves no Brasil

Em 2024, foi detectado um foco de gripe aviária em uma granja no município de Montenegro (RS). No entanto, o Brasil voltou a ser considerado livre da doença em junho, após cumprir o protocolo de 28 dias sem novos registros em unidades comerciais. O Ministério da Agricultura e Pecuária comunicou oficialmente a Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) sobre a situação.

As aves contaminadas podem espalhar o vírus por secreções, fezes e saliva. A contaminação humana ocorre, geralmente, por meio de contato direto com esses materiais ou com superfícies contaminadas.

“As pessoas raramente contraem a influenza aviária, mas, quando isso ocorre, geralmente é devido ao contato direto desprotegido com aves infectadas, sem uso de equipamentos de proteção individual como luvas, roupas de proteção, máscaras, respiradores ou proteção dos olhos”, destaca o Ministério da Saúde.

Resposta do poder público

Como medida preventiva, o governo federal lançou o Plano de Contingência Nacional do Setor Saúde para Influenza Aviária, com foco em vigilância, diagnóstico, assistência e comunicação. Também foi divulgado o Guia de Vigilância da Influenza Aviária em Humanos, com diretrizes operacionais para identificação e acompanhamento de casos suspeitos.

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Segundo o Ministério da Saúde, o país conta com infraestrutura laboratorial para exames, estoque de medicamentos antivirais como o oseltamivir e capacidade tecnológica para eventual produção de vacinas no âmbito do SUS.

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