Estudo do MIT aponta que o uso de ferramentas como o ChatGPT pode prejudicar a aprendizagem e enfraquecer a atividade cerebral

Estudo do MIT aponta que o uso de ferramentas como o ChatGPT pode prejudicar a aprendizagem e enfraquecer a atividade cerebral
Pesquisa com exames cerebrais e análise de textos mostra que participantes que usam apenas IA têm menor desempenho cognitivo, reduzido senso de autoria e conectividade neural mais fraca/Freepik
Publicado em 29/06/2025 às 11:16

Da redação de LexLegal

Em meio à crescente presença da inteligência artificial no cotidiano, um estudo conduzido pelo MIT Media Lab, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), lança um alerta para os impactos do uso intensivo de grandes modelos de linguagem (LLMs) — como o ChatGPT — sobre a capacidade de aprendizagem humana. A pesquisa, publicada em junho de 2025, investigou como essas ferramentas afetam o desempenho cognitivo, linguístico e neural de usuários em tarefas de escrita, com foco especial nas implicações educacionais.

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Ao longo de quatro meses, 54 participantes foram acompanhados enquanto escreviam redações em diferentes condições de apoio tecnológico. Eles foram divididos em três grupos: o primeiro utilizou exclusivamente o ChatGPT; o segundo recorreu apenas a ferramentas de busca tradicionais, como o Google; e o terceiro escreveu com base apenas em suas próprias memórias e raciocínios, sem ajuda externa. Os ensaios foram avaliados por professores humanos e sistemas de processamento de linguagem natural (PLN), enquanto a atividade cerebral foi monitorada por eletroencefalografias (EEGs).

Segundo os autores, os resultados acendem um sinal de alerta. “Ao longo de quatro meses, os usuários do LLM apresentaram desempenho inferior consistentemente nos níveis neural, linguístico e comportamental. Esses resultados levantam preocupações sobre as implicações educacionais de longo prazo da dependência do LLM e ressaltam a necessidade de uma investigação mais aprofundada sobre o papel da IA na aprendizagem”, afirma o paper.

Os dados mostram que os participantes que confiaram apenas em suas capacidades cognitivas apresentaram redes neurais mais fortes e distribuídas, especialmente nas regiões occipito-parietal e pré-frontal — áreas associadas à memória, planejamento e concentração. Já aqueles que utilizaram o ChatGPT demonstraram conectividade cerebral mais fraca, com menor engajamento dessas áreas críticas para o aprendizado.

Na etapa seguinte do experimento, parte dos participantes trocaram de grupo. Aqueles que haviam usado apenas o ChatGPT passaram a escrever sem qualquer apoio externo, e vice-versa. A mudança foi significativa. Os ex-usuários de IA mantiveram baixa conectividade neural, demonstrando dificuldades para reativar suas habilidades cognitivas autônomas. Já os que passaram a usar ferramentas de busca apresentaram melhora parcial em suas atividades cerebrais — embora ainda aquém do grupo que escreveu sem auxílio.

Outro ponto de destaque do estudo é o impacto sobre a autoria e a retenção de informações. Participantes que escreveram com o apoio do ChatGPT demonstraram baixo senso de autoria, ou seja, não se sentiam plenamente responsáveis pelos textos que produziram. Além disso, tinham mais dificuldade em recordar trechos da redação minutos após sua produção. Já aqueles que confiaram apenas na própria mente apresentaram maior índice de lembrança e identificação com seus textos. O grupo que utilizou ferramentas de busca ficou em posição intermediária.

“Como o impacto educacional do uso do LLM está apenas começando a se consolidar na população em geral, nesse estudo demonstramos a questão premente de provável diminuição nas habilidades de aprendizagem”, observam os pesquisadores. “Esperamos que esse estudo sirva como guia preliminar para a compreensão dos impactos cognitivos e práticos da IA em ambientes de aprendizagem.”

A pesquisa traz implicações importantes para o debate sobre o uso de IA no ensino, especialmente no contexto pós-pandemia, em que ferramentas como ChatGPT passaram a ser utilizadas por estudantes de todos os níveis, desde o ensino médio até a pós-graduação. Se, por um lado, essas tecnologias oferecem agilidade e apoio na elaboração de conteúdos, por outro, levantam questões profundas sobre o desenvolvimento da autonomia intelectual, da memória e da capacidade crítica.

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Para especialistas em educação e neurociência, o desafio agora é estabelecer diretrizes éticas e pedagógicas claras para o uso dessas ferramentas, evitando que a promessa de democratização do conhecimento acabe comprometendo justamente o processo de aprendizagem.

SÃO PAULO WEATHER