Menos achismo, mais gestão: como escolher indicadores que impulsionam seu escritório de advocacia?

Menos achismo, mais gestão: como escolher indicadores que impulsionam seu escritório de advocacia?
Entender o tipo de entrega que se faz (e como ela se sustenta) é essencial para medir o que realmente importa/Freepik
Publicado em 27/06/2025 às 11:00

Marilia Botelho e Rodrigo Scatambulo*

No mundo da advocacia, assim como em qualquer empresa de capital intelectual, há uma infinidade de indicadores disponíveis para medir desempenho. Mas, quando o assunto é gestão eficaz, “mais” nem sempre é “melhor”. A chave não está em medir tudo, mas em escolher um conjunto pequeno e preciso de indicadores que permita aos gestores entenderem rapidamente a evolução do negócio e agir a tempo.

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O que define um bom conjunto de indicadores?

Um bom ponto de partida é considerar o perfil da área jurídica em questão. Escritórios consultivos, por exemplo, tendem a operar com menos volume e mais profundidade, o que exige indicadores que capturem valor percebido, fidelização e qualidade na entrega. Já operações focadas em contencioso estratégico ou de massa demandam métricas que reflitam eficiência, escala e controle de prazos, retrabalho e custos.

Entender o tipo de entrega que se faz (e como ela se sustenta) é essencial para medir o
que realmente importa.

Outro aspecto determinante é o estágio de vida do escritório. Negócios em fase inicial precisam de indicadores voltados à conquista de mercado e construção de reputação, enquanto escritórios em fase de ramp-up devem olhar para escalabilidade, gestão de equipes e consolidação de receita. Escritórios estáveis podem se beneficiar de métricas voltadas à eficiência e sucessão, enquanto aqueles em realinhamento ou crise precisam de indicadores sensíveis para detectar e corrigir desvios rapidamente.

O conjunto de indicadores precisa refletir a estratégia definida pelos sócios. Escritórios com ambição de crescimento precisam de métricas comerciais e de mercado mais agressivas, enquanto os que priorizam estabilidade ou nicho devem acompanhar rentabilidade, fidelização e reputação. Cada indicador deve dialogar diretamente com o plano traçado. Afinal, o que não se mede não se gerencia, mas o que se mede sem propósito apenas ocupa espaço no dashboard e confunde a tomada de decisão.

Com isso em mente, é possível definir um “kit” de indicadores que represente as diferentes dimensões do negócio. Listamos exemplos abaixo, segmentados por categoria. Os indicadores financeiros incluem o faturamento, que mostra o volume bruto gerado em determinado período; a rentabilidade, que mede o retorno financeiro líquido considerando o esforço aplicado; a margem de lucro, percentual que revela o
ganho real após os custos operacionais; e o Custo de Aquisição de Cliente (CAC), que indica quanto o escritório gasta para conquistar um novo cliente.

Já os indicadores comerciais abrangem as novas aquisições, que são o número de clientes ou contratos fechados em determinado período; a taxa de revenda (ou recompra), que é o percentual de clientes que voltam a contratar serviços; e a taxa de conversão, que representa a proporção entre propostas enviadas e contratos efetivamente fechados.

Na categoria de indicadores de produtividade, temos allocation, que é a distribuição planejada das horas de trabalho entre as atividades; realization, percentual de horas faturadas sobre as horas trabalhadas; e o tempo médio de resolução, que é a média de dias ou meses para a conclusão de casos por tipo.

Os indicadores de qualidade englobam o índice de satisfação (ex.: NPS), que mede a experiência do cliente com o serviço prestado; a taxa de retrabalho, que contabiliza quantas entregas precisam ser refeitas ou ajustadas; e a taxa de sucesso, que é o percentual de casos ou negociações com resultado favorável.

Para os indicadores de gestão humana, destacam-se a Avaliação 180°/360°, que mede a percepção de desempenho por colegas, lideranças e liderados; o engajamento, que é o grau de conexão e motivação das equipes com o escritório; o tempo médio de casa, que mede a retenção e estabilidade do time; e o turnover, que mede a rotatividade de pessoas no escritório – uma taxa elevada pode indicar problemas de clima ou alinhamento cultural, enquanto índices muito baixos podem sinalizar estagnação.

Os indicadores de tecnologia são a taxa de automação, percentual de tarefas operacionais que foram automatizadas; a aderência a ferramentas, nível de uso efetivo de softwares internos; e as integrações ativas, número de sistemas conectados aos processos operacionais ou de gestão.

Por fim, os indicadores sociais incluem os projetos pro bono por advogado, que representam a contribuição voluntária da equipe para causas sociais; e os indicadores de diversidade e inclusão, que medem a representatividade nos diferentes níveis da firma.

Como isso se aplica na prática?

Dois exemplos práticos de como isso funciona na realidade. Em um escritório boutique com atuação consultiva, os indicadores devem reforçar a profundidade da entrega e o valor percebido: índice de satisfação do cliente, rentabilidade por caso e fidelização são mais relevantes do que volume. Já em um escritório de contencioso de massa, eficiência e controle de escala são fundamentais: taxa de automação de tarefas, tempo médio de resolução, allocation, índice de retrabalho e margem por carteira são os principais.

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Comece simples, mas comece

Começar é sempre mais complicado. Reunir dados, decidir como e para onde olhar é uma tarefa que desafia qualquer gestor. Mas feito é melhor do que perfeito. Escolha indicadores que conversem com a realidade do seu escritório, momento atual e objetivos estratégicos. Reúna o time, discuta, alinhe visões e, sobretudo, evite o erro de medir tudo e não agir sobre nada. Mais importante que medir é usar os dados para aprender, ajustar e evoluir.

*Marilia Botelho: Formada em Administração e com MBA em Finanças, Marilia trilhou uma carreira executiva em grandes empresas, atuando em processos de fusões e aquisições, gestão financeira e gerenciamento de equipes. Rodrigo Scatambulo: No setor jurídico há quase 15 anos, passou por Pinheiro Neto, Lobo de Rizzo e SiqueiraCastro. Desde 2023, é responsável pela gestão de comunicação, marketing e desenvolvimento de negócios do Vieira Rezende Advogados.

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