Ricardo Cavalheiro: “Queremos criar o novo Ibovespa do crédito privado”

Luciano Teixeira – São Paulo
A B3, a bolsa de valores do Brasil, anunciou o lançamento de dois novos índices de renda fixa: o Índice de Debêntures AAA DI B3 (IDEB) e o Índice de Debêntures Incentivadas AAA IPCA B3 (IDEI). A novidade marca mais um passo na expansão do mercado de renda fixa, com foco em debêntures de alta qualidade, e fortalece a atuação da B3 como referência também fora do mercado de ações.
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Os novos indicadores são compostos por carteiras teóricas de debêntures emitidas por empresas com classificação de risco triplo A (AAA), ou seja, com baixo risco de calote. Enquanto o IDEB acompanha títulos com remuneração atrelada à taxa DI (Depósito Interbancário), o IDEI segue debêntures incentivadas – aquelas ligadas a projetos de infraestrutura – com correção pelo IPCA, o índice oficial da inflação. Ambos os índices trazem parâmetros mais confiáveis para investidores avaliarem o desempenho desses ativos no mercado secundário.
Na linha de frente do projeto está Ricardo Cavalheiro, superintendente de Índices da B3. Com mais de duas décadas de atuação no mercado, ele lidera a estratégia de transformar os índices da B3 em ferramentas acessíveis, replicáveis e voltadas tanto a investidores institucionais quanto ao público pessoa física. Em entrevista a seguir, ele explica o papel crescente dos novos benchmarks na formação de preços e decisões de investimento.
Além de ampliar a transparência e a comparabilidade dos ativos de crédito privado, os novos índices devem estimular a criação de produtos derivados como ETFs e contratos futuros. A entrevista completa com Ricardo Cavalheiro detalha os critérios técnicos, as perspectivas de expansão para ESG e inovação, e os esforços da B3 para tornar seus índices cada vez mais acessíveis ao investidor comum.
Luciano Teixeira – Ricardo, vamos começar falando sobre os novos índices da B3. O que temos de novidade nesse campo e o que muda na relação da Bolsa com o investidor profissional e não profissional?
Ricardo Cavalheiro – Nós lançamos desde o começo do ano oito índices referenciados a debêntures. O primeiro corte deles é uma relação aos indicadores: o DI, que é a base de depósito interfinanceiro, e o IPCA, que são atrelados à inflação. Então são duas modalidades distintas de indexação, de quais os investidores buscam se proteger – seja para a proteção cambial, seja para estar associado com a taxa de juros flutuante praticada no mercado. Começamos a fazer essa segmentação nesse aspecto.
Também fizemos a criação de um índice com lastro com a mais alta qualidade de classificação de risco. Então um dos critérios fundamentais de seleção desses índices é possuírem debêntures com rating da melhor qualidade, feito pelas principais agências de rating, o que assegura o menor nível de risco para esses índices e para os ativos que eles têm na sua constituição.

O que fazemos é a construção de uma carteira equivalente, na qual o diversificante constituinte funciona como grande referencial de performance – seja para o investidor comparar a performance de um ativo dele em relação a um benchmark, seja como uma régua de mensuração que traga um padrão claro e objetivo, no qual ele consiga fazer esse entendimento de forma intuitiva. Também selecionamos debêntures que tenham características de tamanho de emissão, de liquidez, de presença nos ambientes de negociação, o que permite ao investidor atuar ativamente para comprar e vender esse tipo de ativo.
Quando a gente constrói o índice, se preocupa muito com um fator chamado replicabilidade, que é a combinação dessas características que permite ao investidor efetivamente implementar essa estratégia. Adicionalmente, nesses índices, criamos não só um índice de preço – que é uma composição da valorização da carteira –, mas também um índice de taxa para cada um deles, para funcionar como referência de yield (rendimento) médio estimado desses ativos.
Então, quando você vai fazer uma aquisição de um CDB, ou uma compra de uma debênture, ou qualquer instrumento financeiro, você tem uma métrica de taxa projetada de retorno para esse ativo. Fizemos isso também para a carteira como um todo.
A gente entende que deve se tornar um grande balizador para as negociações desses ativos, porque a referência provida por uma carteira certificada, replicável, com metodologia clara, traz esse processo de formação de preços de negociação específica desses ativos.
E há uma perspectiva de adoção crescente desses índices pelo mercado, inclusive com projetos futuros para lançamento de contratos futuros desses indicadores, para que participantes institucionais ou pessoas físicas possam fazer hedge, se alavancar ou fazer gestão de exposição ao risco de crédito privado de maneira muito mais efetiva, com instrumentos práticos que permitam tanto neutralizar quanto aumentar a exposição a essa classe de ativos.
Luciano Teixeira – Hoje temos cerca de 5 milhões de brasileiros investindo na Bolsa, enquanto nos Estados Unidos esse número passa de 150 milhões. Por que ainda somos tão poucos e como atrair mais investidores?
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Ricardo Cavalheiro – É um processo natural de evolução do ambiente de negociação e da busca por alternativas. Por isso, queremos trazer uma quantidade maior de produtos de fácil compreensão, para que os investidores se sintam confortáveis ao tomar decisões de investimento em um ambiente líquido e que propicie negócios – como a B3 tem trabalhado para desenvolver nos últimos anos.
Quando evoluímos e expandimos, nossa ênfase sempre foi forte em ações, com o famoso Ibovespa, o grande benchmark da indústria de renda variável. Agora buscamos criar o equivalente ao novo Ibovespa para crédito privado com os índices Triple A nossos, para que exista – da mesma forma que existe para renda variável – esse referenciamento para a renda fixa.
Luciano Teixeira – Quais são os critérios de prioridade que guiam a criação de novos índices na B3?
Ricardo Cavalheiro – O grande direcionador do processo de criação é a replicabilidade, ou seja, o tamanho dessa classe de ativos e se é possível para os investidores implementarem essas estratégias que são calculadas através dos índices. O processo de seleção é bastante detalhado, mas só para dar um exemplo: a liquidez dos ativos.
É preciso que os ativos possam ser comprados nessas plataformas, estejam preparados para que seja replicável e possam ser calculados continuamente, para que sirvam não só para o momento presente, mas ao longo dos anos ou décadas. Só para dar uma ideia, o Ibovespa é calculado desde 1968. Ele se consolidou como a grande referência da indústria justamente por essa consistência e replicabilidade durante todo esse período.
Luciano Teixeira – Há previsão de lançamento de índices relacionados à agenda ESG, economia verde ou inovação tecnológica?
Ricardo Cavalheiro – Sim. A B3 é pioneira no processo de cálculo de índices atrelados à sustentabilidade. O ISE – Índice de Sustentabilidade Empresarial – está completando 20 anos neste ano. Ele é a grande referência de indicador para práticas de sustentabilidade pelas próprias empresas. Também temos outros índices de renda variável voltados à emissão de carbono, à diversidade e ao ambiente de trabalho.

Essa agenda permeia nosso processo de construção de índices há bastante tempo. Agora, estudamos como evoluir isso também para a renda fixa – uma fronteira de expansão que temos trabalhado nos últimos anos – principalmente para fornecer mais opções aos investidores e permitir que expressem suas visões de investimento.
Luciano Teixeira – A B3 estuda ampliar os índices voltados à renda variável de empresas de médio porte ou de setores estratégicos como infraestrutura e tecnologia?
Ricardo Cavalheiro – Sim. Sempre buscamos alternativas temáticas para expandir nossa família de índices. Já temos diferentes índices setoriais com corte por atividade: temos índices de atividade agrícola, de setor de construção civil. Sempre buscamos alternativas que permitam ao investidor expressar diferentes vetores da economia.
Estamos estudando isso não só para renda variável, mas também temas como infraestrutura, que têm crescido bastante recentemente. Inclusive o ISE lançou contratos futuros que negociam esse tipo de ativo. Nossa ideia é expandir a oferta de produtos para cobrir toda essa gama de interesses.
Luciano Teixeira – E como a B3 tem trabalhado para internacionalizar seus índices e atrair investidores estrangeiros?
Ricardo Cavalheiro – Fizemos o lançamento de uma versão expandida do Ibovespa, chamada Ibovespa B3 BR+, que incorpora na sua carteira não só empresas brasileiras listadas no Brasil, mas também empresas que atuam no Brasil e decidiram fazer sua listagem em outros mercados – especificamente o mercado americano. Esse índice é mais abrangente ainda do que o próprio Ibovespa e busca permitir exposição a empresas com atividade no Brasil, mas listadas fora. Assim, oferecemos acesso a diferentes setores que às vezes não estão presentes na Bolsa brasileira.
Luciano Teixeira – Como a tokenização de ativos e os criptoativos podem gerar novos índices na B3 no futuro?
Ricardo Cavalheiro – Esses diferentes ativos – moedas digitais, criptomoedas – têm ganhado interesse e visibilidade nos mercados internacionais. Estamos estudando como expandir a oferta de classes de ativos e com certeza isso está no nosso roadmap. Vamos escolher o melhor momento para trazer ao mercado essas iniciativas nesse frente.
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Luciano Teixeira – Para encerrar: o que você diria ao investidor pessoa física que ainda tem medo ou não sabe como investir na Bolsa?
Ricardo Cavalheiro – Os índices são uma ferramenta muito útil para auxiliar o investidor pessoa física no processo de investimento. Quando você começa a seguir um índice, toda a disciplina de seleção – como disse, de replicabilidade e de consistência metodológica – é implementada de forma criteriosa pela B3. Quando publicamos um índice, ele funciona como uma diversificação bem estruturada, o que ajuda bastante a pessoa física a tomar suas decisões.